A adoção da inteligência artificial no mercado de seguros pode acelerar processos, aprimorar a análise de riscos e ampliar oportunidades comerciais, mas a tecnologia não resolve problemas estruturais sozinha. Sem dados confiáveis, profissionais capacitados e mecanismos de governança, a inovação pode até aumentar a exposição das empresas a falhas. Esse foi um dos principais alertas do painel “Usando IA e Dados na Gestão de Grandes Riscos”, realizado nesta quarta-feira (4), durante o CQCS Inovação 2026, no Transamerica Expo Center, em São Paulo.
O debate reuniu Raphael Luna, diretor executivo de TI na MDS; Anderson Romani, diretor executivo da Wiz Corporate; e Bruno Tardin Badini, CEO da Vertigo. Os executivos apresentaram experiências e perspectivas sobre como a inteligência artificial pode transformar a gestão de grandes riscos, destacando que a preparação das estruturas internas é tão importante quanto a escolha das ferramentas tecnológicas.
Anderson Romani explicou que a primeira dificuldade enfrentada pela Wiz Corporate na implementação da inteligência artificial foi organizar a própria base de dados. Segundo ele, as informações estavam dispersas, incompletas e, muitas vezes, apresentavam inconsistências que impediam a automatização dos processos. Antes de avançar com a tecnologia, a empresa precisou rever fornecedores e reconstruir a estrutura de dados.
“A inteligência artificial primeiro tem que fazer um dever dentro de casa, descobrir as nossas falhas e os nossos problemas, para poder investir e, lá na frente, ter a base informacional que precisamos para desenvolver”, afirmou.
Com a reorganização, a companhia passou a reunir informações sobre clientes, atividades, situação financeira e estrutura empresarial para apoiar a prospecção e a negociação com seguradoras. No seguro garantia, por exemplo, o acesso a esses dados permite qualificar as discussões sobre os riscos, buscar melhores condições e aprimorar o tempo de resposta.
Raphael Luna trouxe um panorama da adoção da inteligência artificial no mercado de seguros e destacou que, embora o Brasil tenha facilidade para incorporar novas tecnologias no cotidiano, ainda enfrenta desafios para aplicá-las de maneira mais profunda aos processos corporativos. Ele citou o uso de IA no atendimento como uma das frentes em que o país avança, mas apontou oportunidades para ampliar sua presença em atividades internas, como subscrição, análise documental e regulação de sinistros.
O executivo também ressaltou que a tecnologia pode contribuir para identificar oportunidades comerciais que nem sempre são percebidas pelas equipes. A análise de dados públicos e de informações sobre empresas, por exemplo, permite identificar possíveis necessidades de cobertura e orientar abordagens mais qualificadas aos clientes.
Na gestão de riscos, Luna destacou ainda o potencial da inteligência artificial para analisar imagens, organizar documentos e apoiar a avaliação de sinistros. No entanto, reforçou que a tecnologia não deve ser vista como substituta dos profissionais. Para ele, a IA tende a reduzir tarefas operacionais e permitir que especialistas concentrem seus esforços nas análises mais complexas.
O diretor da MDS também chamou atenção para a necessidade de capacitação das equipes. Segundo ele, disponibilizar ferramentas de inteligência artificial não significa que os colaboradores saibam utilizá-las da melhor maneira. O treinamento é essencial para que as empresas aproveitem os recursos disponíveis, escolham as soluções adequadas para cada atividade e evitem custos desnecessários.
Bruno Tardin Badini, por sua vez, colocou a governança como condição para que a inteligência artificial seja utilizada em escala, especialmente em setores regulados, como o mercado de seguros. Para o CEO da Vertigo, a pressa em adotar ferramentas sem compreender seus riscos pode comprometer dados, processos e decisões.
“Governança primeiro, velocidade depois”, resumiu.
Badini explicou que uma estrutura adequada de governança precisa considerar quatro pilares: visibilidade sobre quais modelos e ferramentas são utilizados dentro da companhia; controle de acessos e permissões; rastreabilidade das operações; e supervisão humana. Na avaliação dele, as empresas precisam saber quais sistemas são utilizados por cada área, quais informações podem acessar e quem responde pelas decisões tomadas com o apoio da inteligência artificial.
“A decisão com a IA precisa ser explicável”, destacou. O executivo defendeu que as companhias mantenham registros que permitam identificar quais dados foram utilizados, quais etapas foram percorridas e como determinado resultado foi produzido. Dessa forma, em caso de erro, auditoria ou questionamento, será possível reconstruir o processo e identificar as responsabilidades.
O CEO da Vertigo também ressaltou que a inteligência artificial deve assumir atividades repetitivas e de menor valor agregado, enquanto os profissionais permanecem responsáveis pelas etapas que exigem conhecimento técnico e julgamento especializado. Para ele, o avanço dos agentes de IA amplia as possibilidades de automação, mas também exige controle sobre as ferramentas, os dados e as conexões realizadas pelos sistemas.
Ao longo do painel, os executivos convergiram na avaliação de que a transformação tecnológica no mercado de seguros depende de uma combinação entre estrutura de dados, capacitação, automação responsável e participação humana. Na gestão de grandes riscos, em que decisões equivocadas podem gerar impactos relevantes, a eficiência precisa caminhar junto com a segurança e a capacidade de justificar cada escolha.

