O incêndio de um Volvo C40 elétrico em Curitiba, no Paraná, reacendeu uma discussão importante no mercado de seguros sobre os riscos ocultos envolvendo veículos elétricos com histórico de sinistro, passagem por leilão e reparos fora da rede autorizada.
O caso aconteceu no último dia 21 de abril, quando o motorista percebeu fumaça enquanto trafegava próximo ao acesso da BR-277, no bairro Cajuru. Ele conseguiu sair do veículo antes que o fogo se alastrasse e não houve feridos. As chamas destruíram completamente o automóvel e mobilizaram o Corpo de Bombeiros, além de provocar interdição temporária da via.
Em nota, a Volvo Car Brasil informou que o veículo incendiado não atendia aos critérios de garantia da fabricante por se tratar de uma unidade com histórico de sinistro, leilão pela seguradora e intervenções realizadas fora da rede autorizada. A montadora também abriu investigação interna para apurar as causas do incêndio.
Para Dorival Alves de Sousa, delegado representante da Federação Nacional dos Corretores de Seguros (Fenacor), o episódio funciona como um alerta para todo o setor de seguros, especialmente diante do crescimento da frota de veículos eletrificados no Brasil.
Segundo ele, “quando um carro apresenta histórico de sinistro ou é adquirido em leilão, ele passa a ser considerado um risco elevado para as seguradoras”, o que pode resultar tanto no aumento do custo do seguro quanto na própria recusa da aceitação do risco.
Dorival explica que, além da origem em leilão, as intervenções feitas fora da rede autorizada agravam ainda mais esse cenário. “As seguradoras podem exigir avaliações técnicas detalhadas antes de decidir sobre a cobertura securitária do veículo”, afirma.
Ele destaca ainda que é possível contratar seguro para carros com histórico de sinistro, mas com restrições relevantes. “A aceitação é menor e os custos são maiores. Em muitos casos, a cobertura fica restrita a roubo e furto ou apresenta indenizações menores”, pontua.
No caso dos veículos elétricos, o especialista ressalta que o desafio é ainda mais complexo, já que incêndios desse tipo exigem protocolos específicos de atendimento, regulação e liquidação de sinistros. Embora ainda não haja confirmação de que o fogo tenha começado na bateria do automóvel, o episódio evidencia a necessidade de atualização operacional das seguradoras.
“O incêndio de veículos elétricos não é um caso isolado. Ele traz desafios maiores para o setor de seguros”, afirma Dorival. Para ele, as seguradoras precisam estabelecer diretrizes mais claras para lidar com esse tipo de sinistro, considerando as particularidades técnicas desses modelos.
Na avaliação do representante da Fenacor, as empresas também precisam revisar suas políticas de subscrição voltadas aos veículos elétricos, especialmente aqueles com históricos problemáticos, para que os segurados tenham plena ciência das limitações de cobertura previstas na apólice.
Nesse cenário, o corretor de seguros assume papel central.
“Os corretores têm um papel crucial na consultoria e orientação aos segurados”, destaca Dorival. Segundo ele, é fundamental que o profissional oriente o cliente sobre a importância de verificar o histórico do veículo antes da compra, incluindo sinistros anteriores, passagem por leilão e intervenções fora da rede autorizada.
Além disso, ele reforça que explicar as diferenças entre coberturas e a necessidade de avaliações técnicas é essencial para evitar frustrações futuras no momento da contratação ou da indenização.
As regras para carros leiloados também exigem atenção. Para conseguir seguro, o veículo normalmente precisa ser classificado como “conservado” ou “recuperável”, enquanto a classificação como “sucata” inviabiliza a contratação. Também são exigidos documentos como nota de arrematação, vistoria no Detran e emissão do Certificado de Segurança Veicular (CSV).
Mesmo com a aprovação do seguro, o prêmio costuma ser mais elevado e a indenização pode não corresponder a 100% da Tabela Fipe.
Para Dorival, o incêndio do Volvo C40 reforça a necessidade de mudanças no mercado segurador. “À medida que esses carros se tornam mais comuns nas estradas brasileiras, a indústria de seguros deve adaptar suas abordagens para garantir que seguradoras e segurados estejam protegidos e bem informados”, conclui.
Mais do que um caso isolado, o incêndio do carro elétrico da Volvo expõe uma nova realidade para o setor: a necessidade de transformar riscos invisíveis em proteção concreta.

