Notícias | 14 de agosto de 2025 | Fonte: CQCS | Gabrielly Marqueton

O tarifaço de Trump e seus reflexos no mercado de seguros brasileiro: desafios e resiliência

Conforme destacado na coluna “Na ponta do lápis”, de Francisco Galiza, consultor da Rating de Seguros, a assinatura de uma ordem executiva pelo então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no final de julho, marcou uma nova fase nas relações comerciais com o Brasil. Em vigor desde 6 de agosto, a medida elevou a tarifa sobre produtos estratégicos da pauta exportadora brasileira para 50%, um salto de 40 pontos percentuais em relação à alíquota anterior. Embora setores como suco de laranja, aeronaves civis e fertilizantes tenham sido excluídos, o impacto recai diretamente sobre pilares do comércio exterior nacional, como café, carne bovina, frutas e calçados, criando incertezas para as cadeias produtivas e para o mercado de seguros.

Os Estados Unidos são o segundo maior destino das exportações brasileiras, atrás apenas da China. O petróleo lidera em receita, seguido por carne e café, justamente os segmentos mais atingidos pelo tarifaço. Em 2024, as exportações brasileiras de café para os EUA somaram quase US$ 2 bilhões, equivalentes a 16,7% do volume total exportado, conforme dados do Cecafé. Segundo a consultoria Cogo Inteligência em Agronegócio, a tarifa deve pressionar as margens e elevar os preços finais para o consumidor americano. No setor de carne bovina, os EUA responderam por 16,7% do volume exportado, cerca de 532 mil toneladas, gerando US$ 1,6 bilhão em receita. Para a Minerva, o impacto pode resultar em redução de até 5% na receita líquida, embora grandes players como JBS e Marfrig, com operações locais, possam mitigar parcialmente esses efeitos. O setor de frutas também está vulnerável, com volumes relevantes de manga, açaí e uva sob a nova tarifa, enquanto o segmento calçadista, sem qualquer isenção, enfrenta uma situação delicada.

De acordo com a Confederação Nacional da Indústria, o tarifaço pode provocar uma perda de R$ 19,2 bilhões no PIB e a eliminação de até 110 mil empregos, um impacto expressivo, embora inferior ao prejuízo econômico causado pelas recentes enchentes no Rio Grande do Sul, que alcançaram R$ 97 bilhões. No mercado de seguros, os efeitos são indiretos, mas tangíveis. Lauro Faria, consultor e ex-superintendente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), aponta que os setores de seguros de transporte internacional e crédito à exportação serão os mais diretamente atingidos, com impactos secundários sobre apólices patrimoniais e rurais nas regiões afetadas. Segundo ele, “a demanda por seguros relacionados a transporte internacional e crédito à exportação deve cair significativamente, enquanto o perfil de risco das cadeias exportadoras de carne, frutas e calçados se eleva, exigindo produtos mais sofisticados, como seguros de lucros cessantes e políticas para mitigar riscos tarifários abruptos.”

Luiz Gênova, CEO da Apet, ressalta que as tarifas americanas podem afetar aproximadamente 150 mil empregos formais e informais e reduzir em R$ 2,8 bilhões a renda das famílias brasileiras. Ele destaca que “com uma economia mais frágil e menor crescimento do PIB, diversas cadeias produtivas sentirão os efeitos negativos, o que pode levar a uma retração na procura por seguros de automóvel, vida, empresariais e crédito, além de elevar a inadimplência e forçar revisões nos modelos de precificação das seguradoras.” Por outro lado, algumas grandes empresas estudam ampliar a produção no país para reduzir a dependência de importações, um movimento que pode gerar empregos e contribuir para a recuperação econômica. Gênova conclui que “os impactos internos e no mercado de seguros ainda serão reavaliados, dependendo do redirecionamento das exportações, das medidas governamentais e da resposta do mercado interno.”

Francisco Galiza, consultor da Rating de Seguros, pondera que o impacto será localizado e de baixa intensidade no conjunto do setor. Ele compara o tarifaço às enchentes no Rio Grande do Sul, que provocaram aumentos imediatos na sinistralidade em ramos como residencial e automóvel. No entanto, Galiza acredita que, diferentemente daquele evento, o tarifaço não deve gerar alta significativa na sinistralidade, tendo mais peso político do que econômico, especialmente após as isenções concedidas pelos EUA. “Se a atividade diminui em uma região específica, a empresa contrata menos seguros, mas isso não significa um abalo estrutural para o mercado como um todo”, observa.

A estrutura do mercado de seguros brasileiro oferece certa proteção contra choques externos. Nos últimos 15 anos, a participação dos seguros de risco no PIB cresceu 33%, e atualmente 75% da arrecadação concentra-se em ramos pouco expostos ao comércio internacional, como automóveis, previdência e saúde. Mesmo assim, o governo preparou um pacote de medidas com linhas de crédito e adiamento de tributos para mitigar os efeitos do tarifaço, enquanto empresas buscam fortalecer a produção interna para reduzir a dependência de insumos importados. No curto prazo, o tarifaço impõe ajustes e pressiona custos; no longo prazo, porém, a resiliência do mercado de seguros brasileiro deve prevalecer, ainda que exija criatividade para enfrentar a crescente instabilidade do comércio global.

Leia também a coluna “Na Ponta do Lápis”, de Francisco Galiza: https://cqcs.com.br/categoria/coluna/na-ponta-do-lapis/

FAÇA UM COMENTÁRIO

Esta é uma área exclusiva para membros da comunidade

Faça login para interagir ou crie agora sua conta e faça parte.

FAÇA PARTE AGORA FAZER LOGIN

Valorizamos sua privacidade

O CQCS utiliza cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência, personalizar conteúdos e analisar o nosso tráfego. Ao continuar navegando, você concorda com o uso dessas tecnologias, de acordo com a nossa Política de Privacidade.

Personalizar preferências de consentimento

NecessárioSempre ativo

Estes cookies são essenciais para o funcionamento adequado do site, garantindo recursos básicos de segurança e acessibilidade. Eles não armazenam nenhuma informação pessoal identificável.

Funcional

Permitem que o site lembre das suas escolhas e forneça funcionalidades aprimoradas e personalizadas, como compartilhamento em redes sociais e integração de recursos de terceiros.

Sem cookies para exibir.

Analítico

Ajudam a entender como os visitantes interagem com o site, coletando e relatando informações de forma anônima. Fornecem dados sobre número de visitantes, tempo na página e fontes de tráfego.

Desempenho

Utilizados para compreender e analisar os principais índices de desempenho do site, ajudando a proporcionar uma experiência de navegação otimizada para os usuários.

Sem cookies para exibir.

Anúncio

Usados para fornecer anúncios mais relevantes aos visitantes com base em suas navegações anteriores, além de ajudar a medir a eficácia das campanhas publicitárias.

Sem cookies para exibir.