Conforme destacado na coluna “Na ponta do lápis”, de Francisco Galiza, consultor da Rating de Seguros, a assinatura de uma ordem executiva pelo então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no final de julho, marcou uma nova fase nas relações comerciais com o Brasil. Em vigor desde 6 de agosto, a medida elevou a tarifa sobre produtos estratégicos da pauta exportadora brasileira para 50%, um salto de 40 pontos percentuais em relação à alíquota anterior. Embora setores como suco de laranja, aeronaves civis e fertilizantes tenham sido excluídos, o impacto recai diretamente sobre pilares do comércio exterior nacional, como café, carne bovina, frutas e calçados, criando incertezas para as cadeias produtivas e para o mercado de seguros.
Os Estados Unidos são o segundo maior destino das exportações brasileiras, atrás apenas da China. O petróleo lidera em receita, seguido por carne e café, justamente os segmentos mais atingidos pelo tarifaço. Em 2024, as exportações brasileiras de café para os EUA somaram quase US$ 2 bilhões, equivalentes a 16,7% do volume total exportado, conforme dados do Cecafé. Segundo a consultoria Cogo Inteligência em Agronegócio, a tarifa deve pressionar as margens e elevar os preços finais para o consumidor americano. No setor de carne bovina, os EUA responderam por 16,7% do volume exportado, cerca de 532 mil toneladas, gerando US$ 1,6 bilhão em receita. Para a Minerva, o impacto pode resultar em redução de até 5% na receita líquida, embora grandes players como JBS e Marfrig, com operações locais, possam mitigar parcialmente esses efeitos. O setor de frutas também está vulnerável, com volumes relevantes de manga, açaí e uva sob a nova tarifa, enquanto o segmento calçadista, sem qualquer isenção, enfrenta uma situação delicada.
De acordo com a Confederação Nacional da Indústria, o tarifaço pode provocar uma perda de R$ 19,2 bilhões no PIB e a eliminação de até 110 mil empregos, um impacto expressivo, embora inferior ao prejuízo econômico causado pelas recentes enchentes no Rio Grande do Sul, que alcançaram R$ 97 bilhões. No mercado de seguros, os efeitos são indiretos, mas tangíveis. Lauro Faria, consultor e ex-superintendente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), aponta que os setores de seguros de transporte internacional e crédito à exportação serão os mais diretamente atingidos, com impactos secundários sobre apólices patrimoniais e rurais nas regiões afetadas. Segundo ele, “a demanda por seguros relacionados a transporte internacional e crédito à exportação deve cair significativamente, enquanto o perfil de risco das cadeias exportadoras de carne, frutas e calçados se eleva, exigindo produtos mais sofisticados, como seguros de lucros cessantes e políticas para mitigar riscos tarifários abruptos.”
Luiz Gênova, CEO da Apet, ressalta que as tarifas americanas podem afetar aproximadamente 150 mil empregos formais e informais e reduzir em R$ 2,8 bilhões a renda das famílias brasileiras. Ele destaca que “com uma economia mais frágil e menor crescimento do PIB, diversas cadeias produtivas sentirão os efeitos negativos, o que pode levar a uma retração na procura por seguros de automóvel, vida, empresariais e crédito, além de elevar a inadimplência e forçar revisões nos modelos de precificação das seguradoras.” Por outro lado, algumas grandes empresas estudam ampliar a produção no país para reduzir a dependência de importações, um movimento que pode gerar empregos e contribuir para a recuperação econômica. Gênova conclui que “os impactos internos e no mercado de seguros ainda serão reavaliados, dependendo do redirecionamento das exportações, das medidas governamentais e da resposta do mercado interno.”
Francisco Galiza, consultor da Rating de Seguros, pondera que o impacto será localizado e de baixa intensidade no conjunto do setor. Ele compara o tarifaço às enchentes no Rio Grande do Sul, que provocaram aumentos imediatos na sinistralidade em ramos como residencial e automóvel. No entanto, Galiza acredita que, diferentemente daquele evento, o tarifaço não deve gerar alta significativa na sinistralidade, tendo mais peso político do que econômico, especialmente após as isenções concedidas pelos EUA. “Se a atividade diminui em uma região específica, a empresa contrata menos seguros, mas isso não significa um abalo estrutural para o mercado como um todo”, observa.
A estrutura do mercado de seguros brasileiro oferece certa proteção contra choques externos. Nos últimos 15 anos, a participação dos seguros de risco no PIB cresceu 33%, e atualmente 75% da arrecadação concentra-se em ramos pouco expostos ao comércio internacional, como automóveis, previdência e saúde. Mesmo assim, o governo preparou um pacote de medidas com linhas de crédito e adiamento de tributos para mitigar os efeitos do tarifaço, enquanto empresas buscam fortalecer a produção interna para reduzir a dependência de insumos importados. No curto prazo, o tarifaço impõe ajustes e pressiona custos; no longo prazo, porém, a resiliência do mercado de seguros brasileiro deve prevalecer, ainda que exija criatividade para enfrentar a crescente instabilidade do comércio global.
Leia também a coluna “Na Ponta do Lápis”, de Francisco Galiza: https://cqcs.com.br/categoria/coluna/na-ponta-do-lapis/

