A mobilidade urbana deve voltar ao centro dos debates durante as eleições deste ano. Entre as principais propostas de candidatos estão a ampliação de ciclovias, investimentos no transporte coletivo, reorganização do trânsito e incentivo a meios alternativos de deslocamento. Essas mudanças, porém, vão além da infraestrutura das cidades e começam a redesenhar também o mercado de seguros.
O crescimento do uso de bicicletas, motocicletas, veículos compartilhados e aplicativos de transporte altera o perfil de risco dos deslocamentos urbanos e cria novas demandas por proteção patrimonial, responsabilidade civil e seguros voltados à atividade profissional.
Esse movimento acompanha uma transformação já observada em diversas cidades brasileiras. Além da expansão da malha cicloviária, segundo o portal Toca imóveis, regiões de São Paulo e Rio de Janeiro apontam que as ciclovias vêm estimulando o uso diário da bicicleta, contribuindo para a redução do trânsito.
Esse é um sinal de melhoria na qualidade de vida e fortalecimento de uma mobilidade mais sustentável. Ao mesmo tempo, esse novo cenário amplia a necessidade de soluções específicas de proteção para diferentes perfis de usuários.
Para o advogado, corretor de seguros e professor da Escola de Negócios e Seguros (ENS), Fred Almeida, toda mudança na forma de deslocamento modifica diretamente a necessidade de proteção.
“Quando uma cidade incentiva o uso de bicicletas, motocicletas, transporte por aplicativos ou outras formas de mobilidade, muda também o perfil dos acidentes, da responsabilidade civil e da necessidade de proteção. Quando a mobilidade muda, o risco muda. E quando o risco muda, o seguro também precisa evoluir.”
O diretor comercial da Fetransporte, Rogério Bruch, destaca que essa transformação já é perceptível nas grandes cidades.
“Hoje convivemos com mais motocicletas, bicicletas, patinetes, veículos compartilhados e motoristas de aplicativos, além de um aumento importante nas entregas por delivery. Essa diversificação muda completamente a forma como as pessoas se deslocam e, consequentemente, a exposição aos riscos.”
Segundo Bruch, esse cenário amplia a necessidade de produtos específicos e também influencia diretamente a sinistralidade.
“A maior circulação de modais leves aumenta a frequência de pequenos acidentes, enquanto a maior concentração de veículos em centros urbanos eleva os custos de sinistros, principalmente envolvendo colisões, danos materiais e lesões corporais.”
A diversificação da mobilidade também impulsiona novos segmentos dentro do mercado de seguros. Para Fred Almeida, produtos voltados à mobilidade individual tendem a ganhar ainda mais espaço.
“Cresce a demanda por seguros para bicicletas e motocicletas, especialmente quando esses veículos são utilizados como ferramenta de trabalho. Também ganham importância as coberturas de responsabilidade civil, os seguros para motoristas de aplicativos, acidentes pessoais e produtos mais flexíveis, que acompanham novas formas de utilização dos veículos.”
Na avaliação de Rogério Bruch, pelo menos cinco segmentos apresentam elevado potencial de crescimento.
“O seguro para motocicletas acompanha o crescimento da frota utilizada por entregadores e profissionais autônomos. Também cresce a procura por seguros para bicicletas, principalmente elétricas, seguros específicos para motoristas de aplicativos, responsabilidade civil voltada às operações de logística urbana e soluções relacionadas ao conceito de Mobility as a Service (MaaS), que integra diferentes formas de deslocamento em uma mesma jornada.”
Para os especialistas, a transformação da mobilidade também amplia o papel consultivo do corretor de seguros. Conhecer apenas o veículo deixou de ser suficiente para oferecer a proteção adequada.
“O corretor precisa entender que hoje ele não vende apenas uma apólice. Ele faz gestão de riscos. É preciso conhecer como o cliente se desloca, se utiliza motocicleta, bicicleta, trabalha com aplicativos ou compartilha veículos. Quanto melhor compreender o risco, mais adequada será a solução apresentada”, afirma Fred Almeida.
Rogério Bruch reforça que essa atuação consultiva acompanha a própria evolução do setor.
“O mesmo veículo pode possuir riscos completamente diferentes dependendo se é utilizado para deslocamento pessoal, transporte por aplicativo, entregas ou atividade comercial. Em muitos casos, proteger apenas o veículo já não é suficiente; é preciso proteger também a atividade econômica exercida pelo segurado.”
Enquanto o perfil dos consumidores muda, as seguradoras também vêm adaptando seus produtos. Segundo Fred Almeida, o mercado caminha para soluções cada vez mais personalizadas.
“Hoje já existem produtos específicos para bicicletas, motocicletas, motoristas de aplicativos, equipamentos portáteis e diferentes formas de mobilidade. O futuro passa cada vez menos por produtos padronizados e cada vez mais por soluções construídas a partir da forma como cada pessoa vive, trabalha e se desloca.”
Para Rogério Bruch, a tecnologia será um dos principais motores dessa evolução.
“As seguradoras têm investido em inteligência artificial, telemetria, geolocalização e monitoramento para analisar riscos com maior precisão. A tendência é oferecer proteção personalizada, contratação simplificada e serviços de prevenção que agreguem valor ao cliente, indo muito além da simples indenização em caso de sinistro.”
Na avaliação dos especialistas, a expansão das ciclovias, o fortalecimento da mobilidade ativa e a diversificação dos meios de transporte indicam que o mercado de seguros continuará evoluindo nos próximos anos. À medida que as cidades adotam novos modelos de deslocamento, cresce também a necessidade de produtos mais flexíveis e da atuação consultiva dos corretores para acompanhar uma população que circula, trabalha e assume riscos de maneiras cada vez mais diferentes.

