A entrada em vigor da Resolução CNSP nº 493 trouxe uma mudança importante para a atuação dos corretores de seguros ao estabelecer, pela primeira vez, que a educação continuada passa a ser um dever profissional. Embora a norma não preveja penalidades para quem deixar de cumprir essa obrigação, avalia-se que a atualização constante será determinante para a permanência e o crescimento dos profissionais no mercado.
O artigo 15 da resolução determina que os corretores devem manter seus conhecimentos e habilidades técnicas, profissionais e multidisciplinares atualizados, acompanhando a legislação, a regulação, as práticas do mercado e as inovações tecnológicas.
Para a professora da Escola de Negócios e Seguros (ENS), Liliana Caldeira, a principal mudança não decorre da possibilidade de sanções legais, mas da própria dinâmica competitiva do setor.
“A Resolução CNSP nº 493 estabelece que a educação continuada é um dever do corretor de seguros. Porém, o texto da norma não prevê nenhuma sanção para quem não cumprir essa obrigação. Isso significa que a mudança na rotina não será imposta pela força da lei, mas pela dinâmica competitiva do mercado de seguros”, explica.
Segundo ela, o corretor que deixar de investir em capacitação tende a perder espaço não apenas para outros profissionais, mas também para novas tecnologias.
“A ‘sanção’ vem da concorrência. O corretor que não possuir plena consciência da necessidade da educação continuada para sua sobrevivência profissional irá se tornar obsoleto diante da inteligência artificial, das plataformas digitais e da intermediação algorítmica.”
A nova exigência também acompanha um momento de profundas transformações regulatórias no mercado de seguros. Entre elas está a Lei nº 15.040/2024, que reformulou diversos aspectos do contrato de seguro e ampliou a necessidade de conhecimento técnico por parte dos profissionais.
Na avaliação de Liliana, o corretor do futuro deixará definitivamente o papel de simples intermediador para assumir uma atuação consultiva baseada na gestão de riscos.
“O modelo histórico do corretor que atua como um simples intermediário transacional esgotou-se completamente. Hoje ele precisa dominar regulação e legislação, produtos e análise técnica, tecnologia e inovação, além de ética, governança e boas práticas.”
Mesmo com o avanço da tecnologia, a professora acredita que a relação humana continuará sendo um diferencial competitivo.
“Nenhuma inteligência artificial possui a proximidade humanizada com o cliente, a leitura do seu perfil de risco, a construção de soluções personalizadas e uma comunicação baseada na confiança. O corretor que conhece seu cliente antecipa soluções e conquista seu espaço pela prestação de serviços de cuidado e atenção dedicada.”
A mudança, entretanto, representa um desafio ainda maior para profissionais com muitos anos de atuação no mercado. Segundo Liliana, a experiência acumulada não elimina a necessidade de atualização constante.
“Corretores com muitos anos de atuação muitas vezes acreditam que já ocupam uma posição confortável. Mas a educação continuada não pode mais ser vista como algo opcional. O mercado não perdoa quem deixa de se atualizar, principalmente em tempos de digitalização, algoritmos, inteligência artificial e plataformas de venda direta.”
Ela destaca que a própria tecnologia pode representar uma oportunidade para quem estiver disposto a evoluir.
“A inteligência artificial pode ser uma adversária cruel ou uma parceira indispensável. A diferença entre essas duas situações depende do posicionamento profissional do corretor.”
Para a especialista, a educação continuada também fortalece diretamente a relação de confiança entre corretor e consumidor.
“A educação continuada tem impacto direto na qualidade do serviço. Aqueles que investirem em conhecimento, inovação e capacitação contínua, construindo relacionamentos pautados na confiança e no cuidado, irão colher os frutos.”
Liliana conclui que as transformações em curso são irreversíveis e exigem uma mudança de postura dos profissionais.
“Corretores de seguros não devem resistir às transformações. Elas são inevitáveis. Devem compreendê-las. E, para compreendê-las, é preciso investir continuamente em educação. É essa capacitação permanente que assegurará a preservação da função do corretor na sua atividade de analisar, aconselhar, proteger e cuidar.”

