A decisão de comprar um automóvel deixou de ser baseada apenas nas necessidades imediatas. Dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC) mostram que o segmento de veículos leves atingiu 5,53 milhões de participantes ativos em maio de 2026, alta de 10,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. Nos cinco primeiros meses do ano foram comercializadas mais de 814 mil novas cotas, movimentando R$ 61 bilhões em créditos, indicadores que reforçam o crescimento do planejamento financeiro para aquisição de automóveis.
Para o professor da Escola de Negócios e Seguros (ENS), Fred Almeida, esse comportamento representa uma oportunidade para ampliar a cultura do seguro no país, embora ainda exista um longo caminho pela frente.
“Esse movimento é muito positivo para o mercado. Ainda temos um grande desafio no Brasil: cerca de 70% da frota circula sem qualquer tipo de seguro. Quando o consumidor passa a planejar melhor a aquisição do veículo, analisando custos de manutenção, desvalorização, tecnologia e custo de propriedade, é natural que o seguro também passe a fazer parte dessa conta.”
O movimento acompanha as transformações da própria indústria automotiva. Veículos equipados com sistemas de assistência à condução, conectividade e novas tecnologias embarcadas convivem com consumidores cada vez mais atentos ao custo total de propriedade, conceito que reúne despesas como manutenção, depreciação, combustível e seguro.
Essa mudança também aparece na forma de planejar a compra. Cada vez mais brasileiros avaliam quanto tempo pretendem permanecer com o veículo, os custos futuros de manutenção, a evolução tecnológica, a eletrificação, o valor de revenda e até possíveis mudanças na rotina familiar antes de fechar negócio. Esse comportamento tem alterado a forma como o consumidor enxerga a mobilidade, o que cria novas oportunidades para o mercado de seguros.
Segundo o especialista, o planejamento da troca do veículo cria um ambiente favorável para que o corretor participe da decisão antes mesmo da compra, oferecendo uma visão mais ampla sobre os custos envolvidos.
Em vez de comparar apenas o preço de dois modelos, o consumidor pode avaliar fatores como despesas futuras de manutenção, disponibilidade de peças, depreciação e o próprio custo da proteção securitária. Nesse cenário, o seguro deixa de ser visto apenas como uma contratação posterior e passa a integrar o planejamento financeiro da aquisição.
“Muitas vezes, o consumidor compara apenas o preço de compra entre dois veículos, quando deveria comparar o custo total de propriedade. O corretor pode participar dessa decisão antes mesmo da compra, apresentando simulações, explicando diferenças de risco entre modelos e mostrando que um veículo aparentemente mais barato pode representar um custo muito maior ao longo dos anos.”
O avanço tecnológico da indústria também começa a influenciar diretamente o desenvolvimento dos produtos oferecidos pelas seguradoras. A popularização dos veículos eletrificados e conectados traz benefícios relacionados à segurança, mas aumenta a complexidade dos reparos e exige novos modelos de precificação.
Sensores, câmeras, radares, baterias de alta tensão e componentes eletrônicos elevam os custos de reparação em caso de sinistro, ao mesmo tempo em que ampliam a necessidade de soluções cada vez mais personalizadas para diferentes perfis de utilização.
“A tecnologia traz benefícios importantes para a segurança, mas também cria novos desafios para o mercado segurador. Veículos mais modernos tornam os reparos mais complexos e, muitas vezes, mais caros. Toda renovação tecnológica representa uma oportunidade para que seguradoras revisem seus modelos, desenvolvam produtos mais aderentes à realidade do consumidor e contribuam para ampliar a penetração do seguro no país.”
Além da evolução dos veículos, mudanças na composição das famílias, novas formas de mobilidade e diferentes padrões de utilização dos automóveis também vêm alterando os ciclos tradicionais de substituição. Isso faz com que o relacionamento entre corretor e cliente deixe de se limitar ao momento da contratação da apólice.
Na avaliação de Fred Almeida, acompanhar o consumidor durante todo o processo de formação do patrimônio fortalece o papel consultivo da corretagem e aumenta a percepção de valor do seguro.
“Quem acompanha um cliente durante a formação do patrimônio tem condições de orientá-lo na escolha do veículo, na definição das coberturas mais adequadas e na proteção desse bem ao longo de todo o seu ciclo de vida. Mais do que vender um seguro, o corretor passa a participar das decisões que envolvem aquele patrimônio.”
À medida que os consumidores incorporam o planejamento financeiro à compra de automóveis, o mercado de seguros também tende a ganhar espaço nesse processo. Para especialistas, o corretor que conseguir atuar desde as primeiras etapas da decisão de compra estará mais preparado para oferecer uma consultoria completa, fortalecendo o relacionamento com o cliente e contribuindo para ampliar a cultura da proteção patrimonial no país.
Brasileiros planejam mais a troca do carro e abre oportunidades para seguro auto
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