A inteligência artificial está ampliando as possibilidades de atuação das seguradoras, desde a análise de riscos e regulação de sinistros até o atendimento e a identificação de fraudes. A aplicação dessas ferramentas e os impactos da tecnologia nos processos do setor foram discutidos nesta quarta-feira (4), durante a palestra “Tecnologia Incrementando o Seguro”, na sala 7 do CQCS Inovação 2026, realizado no Transamerica Expo Center, em São Paulo. Participaram Jaime Soares, diretor executivo de Auto da Porto Seguro; Moisés Santana, CEO e cofundador da Nimbloo; e Ricardo Stamato, diretor de Inovação da Confitec.
Jaime Soares apresentou exemplos de como a inteligência artificial pode contribuir para tornar a atuação dos corretores mais consultiva. Para ilustrar a importância de fornecer informações contextualizadas, contou o caso de uma cliente que contratou um seguro residencial sem saber que uma das opções disponíveis não cobria danos provocados pelo rompimento de um engate flexível.
Segundo o executivo, a diferença entre as opções de cobertura era de apenas R$ 10, mas poderia determinar a experiência da cliente em um eventual sinistro. O exemplo evidencia a dificuldade de o corretor conhecer todas as condições gerais, exclusões e particularidades dos produtos de diferentes seguradoras.
Ao abordar essa questão, Jaime ressaltou que a inteligência artificial precisa ter acesso às informações corretas para oferecer respostas realmente úteis.
“Não adianta colocar inteligência artificial nos processos, utilizá-la para responder aos clientes mais rapidamente ou para outras finalidades se ela não tiver acesso ao contexto correto daquela informação. É preciso entender exatamente quais informações estão sendo discutidas para permitir que o corretor faça um trabalho verdadeiramente consultivo”, destacou.
O executivo também apresentou a Helena, inteligência artificial utilizada pela companhia, que considera o contexto das interações para reunir informações e apoiar o trabalho dos profissionais na orientação aos clientes.
Moisés Santana defendeu que a inovação precisa partir das necessidades reais dos clientes e dos corretores. Para ele, desenvolver soluções tecnológicas exige proximidade com quem utiliza os produtos e conhecimento dos processos que precisam ser aprimorados.
“Um bom produto não se cria nas salas dos engenheiros, mas na rua, com feedback do cliente e do corretor. Precisamos nos conectar com as pessoas, revisar processos e fazer planejamento em campo”, afirmou.
O executivo também destacou que a tecnologia, isoladamente, não representa um diferencial competitivo. Na avaliação dele, existem diversas ferramentas disponíveis no mercado, mas o resultado depende da capacidade das empresas de aplicá-las de maneira responsável e alinhada aos objetivos do negócio.
Nesse contexto, Moisés chamou a atenção para questões como governança, segurança, privacidade de dados e treinamento dos algoritmos. Ao apresentar aplicações de inteligência artificial no segmento automotivo, também destacou o desenvolvimento de modelos próprios para análise de imagens, estimativa de reparos, vistorias e avaliação de sinistros.
Entre os recursos apresentados estão ferramentas para identificar possíveis manipulações em imagens, apoiar decisões sobre reparos e substituição de peças e automatizar etapas da operação. A apresentação também ressaltou a importância da explicabilidade, ou seja, da capacidade de a inteligência artificial apresentar os critérios utilizados para chegar a determinada decisão.
Ricardo Stamato apresentou possibilidades de aplicação da inteligência artificial generativa em diferentes processos das seguradoras. Segundo ele, a tecnologia pode interpretar imagens, questionários, documentos, regras e condições gerais, contribuindo para reduzir etapas que ainda dependem de análises manuais.
O executivo explicou que, em processos como vistorias de seguros de vida, residencial e patrimonial, ainda é comum a necessidade de um profissional ir até o local, registrar imagens, elaborar um laudo e encaminhar as informações para análise. A inteligência artificial pode ajudar a automatizar parte desse fluxo.
“A IA generativa pode funcionar em vários pontos do processo operacional de uma seguradora, por exemplo, lendo e interpretando uma foto, um questionário ou uma regra. Ela também pode reunir informações e orientar a próxima etapa do processo”, explicou.
Stamato também citou aplicações na análise de sinistros, identificação de fraudes, avaliação de propostas e aceitação de riscos. A tecnologia pode, ainda, contribuir para processos jurídicos, interpretando informações, legislações e decisões judiciais que precisam ser consideradas pelas companhias.
O diretor de Inovação da Confitec ressaltou, entretanto, que a participação humana continuará sendo fundamental, especialmente na definição das orientações e dos critérios que deverão ser seguidos pela inteligência artificial.
Ele também destacou a possibilidade de configurar sistemas com regras específicas de cada seguradora, permitindo que a tecnologia se adapte às particularidades das operações e às necessidades de cada negócio.
As apresentações evidenciaram que a tecnologia pode contribuir para diferentes áreas do mercado de seguros, mas sua efetividade depende de informações confiáveis, conhecimento dos processos e governança. A combinação desses fatores permite ampliar a eficiência operacional, apoiar decisões e oferecer experiências mais adequadas aos clientes.

