A construção de um mercado de seguros mais inclusivo passa pela representatividade das lideranças, pela ampliação do acesso à proteção financeira e pela valorização de diferentes trajetórias profissionais. Essa foi a discussão da palestra “Equidade como Ferramenta de Fortalecimento do Seguro”, realizada no CQCS Inovação 2026, no Transamerica Expo Center, em São Paulo. O encontro reuniu Patrícia Coimbra, diretora de Gente & Cultura da Porto; Thereza Moreno, sócia da TM Consultoria; e Gê Coelho, líder de Relações Institucionais da Favela Seguros, que apresentaram diferentes perspectivas sobre como a equidade pode contribuir para o desenvolvimento do setor.
Durante a apresentação, Patrícia Coimbra destacou que a diversidade não deve ser tratada apenas como uma questão de competitividade ou responsabilidade social, mas também como parte dos valores e da gestão de riscos das companhias. Segundo ela, a presença de diferentes perspectivas permite compreender melhor as necessidades dos clientes, corretores e demais públicos do mercado.
“Enxergamos a representatividade como uma inteligência de risco. Quando temos diferentes visões dentro da companhia, conseguimos identificar riscos e oportunidades e compreender melhor o mercado”, afirmou.
A executiva apresentou iniciativas da Porto para ampliar a equidade dentro da organização. Entre os compromissos estabelecidos para 2030 estão alcançar 50% de mulheres em posições de liderança e 30% de pessoas pretas nesses cargos. Ela também destacou ações voltadas à equidade salarial, à seleção estruturada e ao desenvolvimento profissional, além de programas de incentivo à presença feminina em áreas como tecnologia.
Outro exemplo apresentado foi a ampliação da licença parental para 40 dias, iniciativa que busca dividir a responsabilidade pelo cuidado familiar entre os responsáveis, independentemente da configuração da família.
Patrícia também relacionou a equidade ao desenvolvimento de produtos. Como exemplo, citou um seguro de vida lançado pela Porto com coberturas voltadas a situações relacionadas à saúde reprodutiva feminina, incluindo indenizações para congelamento de óvulos em caso de diagnóstico de câncer e fertilização assistida.
“Quando temos diversidade e diferentes olhares, conseguimos enxergar novas oportunidades. A equidade também se reflete na criação de produtos que atendam às necessidades reais das pessoas”, ressaltou.
Na sequência, Thereza Moreno apresentou dados sobre a participação feminina no mercado de seguros, com base em um levantamento da Susep que considerou 142 empresas. Segundo os números apresentados, as mulheres representam 54,4% dos funcionários do setor, mas essa participação cai para 28,5% nos cargos de diretoria executiva e 18,5% nos conselhos de administração.
A executiva também chamou a atenção para a desigualdade racial nesses espaços. De acordo com outro levantamento citado por ela, mulheres negras representam apenas 1,8% das integrantes de conselhos, apesar de corresponderem a uma parcela expressiva da população brasileira.
Para Thereza, os números mostram que o setor avançou, mas ainda precisa transformar a equidade em uma estratégia concreta, com indicadores, metas e acompanhamento dos resultados.
“Não vamos solucionar o problema sem medir o que está acontecendo e conhecer o retrato do mercado. Precisamos de indicadores, metas e ações para mudar essa realidade”, destacou.
A executiva também defendeu iniciativas de desenvolvimento profissional, como mentorias, redes de apoio, preparação para posições de liderança e combate a vieses inconscientes. Na avaliação dela, a diversidade precisa estar presente nos espaços de decisão, onde são definidas as estratégias e os rumos das companhias.
Ao abordar a inclusão sob a perspectiva dos territórios, Gê Coelho destacou que o mercado precisa ampliar sua compreensão sobre quais pessoas e patrimônios considera dignos de proteção financeira. O executivo apresentou a experiência da Favela Seguros e ressaltou que moradores de comunidades também possuem bens, projetos de vida e necessidades de proteção, muitas vezes desconsiderados pelo mercado tradicional.
“Um CEP não pode definir quem tem ou não acesso à proteção financeira”, afirmou.
Gê explicou que, para quem vive nas favelas, bens como uma motocicleta ou uma residência possuem importância fundamental para a sobrevivência e a estabilidade familiar. Uma moto, por exemplo, pode representar a principal ferramenta de trabalho de um entregador, enquanto a casa representa moradia, segurança e futuro para uma família.
Nesse contexto, o executivo apresentou o conceito de discernimento securitário, relacionado à reflexão sobre quais vidas e patrimônios são considerados dignos de proteção pelo setor. Para ele, a inclusão precisa começar ainda na concepção dos produtos e modelos de negócio, e não apenas depois que eles já estão estruturados.
Na Favela Seguros, segundo Gê, os produtos são desenvolvidos em conjunto com moradores dos territórios, e os profissionais que trabalham na companhia também vivem em favelas. Parte dos recursos gerados retorna às comunidades por meio do apoio a iniciativas e eventos locais.
“A Favela Seguros não é somente uma seguradora. É uma tecnologia de proteção social, porque considera todas as vidas dignas de proteção financeira”, ressaltou.
As apresentações reforçaram que a equidade vai além da representatividade dentro das empresas. A ampliação da diversidade nos espaços de liderança, a criação de produtos que atendam a diferentes realidades e a inclusão de novos públicos no mercado foram apontadas como caminhos para fortalecer o seguro, melhorar a gestão de riscos e gerar oportunidades de inovação.

