Por Ricardo Stamato, diretor de Inovação da Confitec
A inteligência artificial vai transformar o seguro. Mas nossas operações estão preparadas para aproveitar essa transformação? Para mim, essa é uma pergunta mais importante do que discutir qual tecnologia será a próxima novidade. O avanço que faz diferença é aquele que resolve um problema concreto, melhora o trabalho dos profissionais e torna a operação mais ágil e consistente.
É essa reflexão que levarei ao painel “Tecnologia Incrementando o Seguro”, no CQCS Inovação 2026. A proposta é discutir uma mudança que começa a ganhar espaço: a passagem da IA que responde perguntas e analisa informações para uma inteligência que, conectada a ferramentas e sistemas, também pode participar da execução dos processos. Isso não significa que qualquer atividade deva funcionar sozinha. Significa que precisamos repensar como sistemas, inteligência artificial e pessoas trabalham juntos.
Digitalizar foi essencial. Agora, precisamos avançar na análise
As seguradoras já contam com sistemas especializados, regras de negócio, dados e controles construídos ao longo de décadas. Ainda assim, entre uma etapa e outra, persistem atividades manuais: copiar informações, conferir novamente um documento, encaminhar uma demanda para outra área e aguardar sua continuidade. A oportunidade não está necessariamente em substituir os sistemas existentes, mas em conectar melhor essas capacidades.
A evolução das inspeções ajuda a compreender esse desafio. Na Confitec, desenvolvemos no iRisk recursos como questionários customizáveis, autovistoria, inspeção remota, fluxos de trabalho e painéis de acompanhamento. A informação passou a chegar de forma digital e organizada. Mas, depois da coleta, boa parte da análise ainda se concentra nas pessoas: olhar cada fotografia, interpretar o questionário, conferir os itens do orçamento, consultar os dados da apólice e elaborar um parecer.
A digitalização tornou possível enxergar com mais clareza esse gargalo. Também criou a base para enfrentá-lo. O próximo passo é usar a inteligência artificial para relacionar as evidências disponíveis e apoiar o trabalho de quem precisa analisá-las.
Mais do que acrescentar IA, é preciso coordenar o trabalho
Uma aplicação de IA pode ler um documento, classificar um e-mail ou sugerir uma resposta. Uma automação convencional pode consultar uma apólice por API, aplicar uma regra de negócio ou calcular uma franquia. Essas capacidades têm valor, mas, quando funcionam isoladamente, ainda deixam para as pessoas a tarefa de conectar as etapas.
É nesse ponto que entra a orquestração: coordenar sistemas, agentes de IA e profissionais ao longo do processo, aproveitando o que cada um faz melhor. O que é previsível e pode ser resolvido por regras continua com a automação convencional. A IA contribui com a interpretação de informações e contextos. As pessoas permanecem responsáveis pelo julgamento das exceções e pelas decisões sensíveis.
Agentes conectados a sistemas ampliam essa possibilidade porque podem interpretar uma situação, planejar etapas, consultar informações e executar ações dentro das permissões recebidas. Quando encontram algo fora dos critérios estabelecidos, devem encaminhá-lo para avaliação humana. Orquestrar, portanto, não é colocar IA em tudo nem retirar as pessoas do processo. É colocar cada tarefa no lugar certo.
Uma aplicação prática na análise de sinistros
Na Confitec, estamos desenvolvendo uma iniciativa de análise inteligente de sinistros patrimoniais que ajuda a ilustrar essa evolução. A proposta é combinar fotografias, respostas de um questionário técnico, itens de orçamento e dados de coberturas e limites da apólice para produzir um parecer e sugerir um valor de indenização, sempre para avaliação da área de sinistros.
O ponto mais relevante não é fazer uma conta que um sistema convencional já consegue executar. É relacionar as informações: verificar se as imagens são coerentes com o relato, identificar itens do orçamento que merecem atenção e sinalizar danos que precisam de confirmação. Em vez de apenas apresentar um resultado, a solução deve oferecer elementos para que o profissional possa revisá-lo e decidir.
No CQCS, apresentarei uma simulação conceitual dessa interação, com dados fictícios. A mesma lógica (interpretar evidências, cruzar informações e recomendar encaminhamentos) pode orientar aplicações em diferentes ramos, como automotivo, residencial, vida e rural, entre outros. Mas isso não significa usar o mesmo agente para tudo. Cada produto exige fontes de informação, regras e controles próprios, com supervisão humana compatível com a sensibilidade das decisões.
Preparar a operação para a próxima etapa
Enxergo essa transformação como uma evolução contínua. Primeiro, digitalizar: capturar, organizar e disponibilizar informações. Depois, interpretar e recomendar: usar a IA para analisar evidências e apoiar decisões, estágio em que se insere a iniciativa que estamos desenvolvendo. A próxima fronteira é orquestrar jornadas completas, conectando essas capacidades à execução dos processos.
Para avançar, precisamos olhar além de uma ferramenta ou de uma tarefa isolada. É necessário compreender onde o trabalho perde continuidade, quais informações precisam estar disponíveis e em que momentos a avaliação de um profissional é indispensável.
O ponto central é: como preparar a operação para que a inteligência artificial contribua de maneira efetiva? Incrementar o seguro exige combinar o que já funciona com novas capacidades, preservando critérios, controles e responsabilidades. A inovação faz diferença quando essa combinação se traduz em uma melhoria real para quem opera e para quem se beneficia do seguro.

