O mercado de seguros brasileiro reúne atualmente 88.236 corretores pessoas físicas e 76.989 empresas corretoras registradas, segundo os dados mais recentes da Superintendência de Seguros Privados (Susep). Em meio a esse universo, a distribuição vem passando por uma transformação marcada pela expansão das assessorias, plataformas, estruturas compartilhadas e novas tecnologias, movimento que amplia as possibilidades de atuação, mas também aumenta a exigência por qualificação.
A mudança ocorre em um momento em que o corretor deixa progressivamente de ser visto apenas como intermediário da contratação e passa a assumir uma posição mais estratégica na identificação e gestão de riscos dos clientes. A Resolução CNSP nº 493/2025, ao atualizar regras relacionadas à formação e habilitação, também reforça a importância da educação continuada diante desse novo cenário.
Para Boris Ber, presidente do Sincor-SP, a transformação tecnológica representa uma nova etapa na evolução da distribuição. Depois de mudanças provocadas pela popularização dos computadores, da internet e dos smartphones, a inteligência artificial chega com potencial para alterar ainda mais a forma como os seguros são comercializados. “O corretor não pode ficar de fora nem imaginar que essa transformação não atingirá a forma como os seguros são distribuídos”, afirma.
Na avaliação de Boris, as novas tecnologias podem ampliar a produtividade e a capacidade de atendimento, mas não eliminam a importância do profissional. Plataformas e estruturas compartilhadas oferecem acesso a ferramentas, produtos, inteligência comercial e suporte operacional, permitindo que o corretor concentre mais tempo no relacionamento, na prospecção e na identificação das necessidades do cliente.
Para Ricardo Montenegro, presidente da Aconseg-SP, a própria evolução dos processos das seguradoras e prestadoras já mudou significativamente a rotina dos corretores. Atividades que antes exigiam propostas impressas, envio de documentos por malote, boletos físicos e vistorias presenciais foram substituídas por processos digitais. “Dessa forma, podemos dar maior suporte aos corretores em treinamentos, prospecções, cross-selling, ou seja, que o mesmo tenha mais disponibilidade de tempo para angariar novos negócios em vez de tratar de problemas corriqueiros do dia a dia”, explica.
Montenegro também destaca o crescimento de produtos além do Automóvel, como Empresarial, Riscos Diversos e Residencial, ampliando as oportunidades para os profissionais que buscam diversificar suas carteiras.
Nesse cenário, ele vê uma relação direta entre a atuação das assessorias e a Resolução CNSP nº 493, especialmente no aspecto da educação continuada. “Somos grandes incentivadores de o corretor se qualificar e expandir o seu leque de atuação. Estamos nesta missão ao lado dos nossos parceiros corretores”, afirma.
Já Gustavo Bentes, presidente do Sincor-MG, chama atenção para a necessidade de combinar tecnologia com conhecimento sobre riscos. Para ele, as plataformas trouxeram escala e novas possibilidades, mas não substituem a presença e a capacidade técnica do corretor. “O corretor do futuro é consultor. E é isso que as plataformas ainda não conseguem entregar: presença, técnica e compromisso com o território”, afirma.
Bentes cita como exemplo o Projeto Cidades Protegidas, desenvolvido pelo Sincor-MG, que busca ampliar a atuação dos corretores na prevenção e gestão de riscos. A iniciativa envolve ações como mapeamento de riscos, treinamentos e elaboração de materiais de prevenção.
Na visão do presidente do Sincor-MG, a Resolução CNSP nº 493 reforça justamente essa necessidade de profissionalização e atualização. “O impacto da 493 é o seguinte: ou o corretor se profissionaliza, ou ele fica para trás.”
Para Luiz Philipe Baeta Neves, presidente da Aconseg-RJ, as assessorias também assumiram uma função estratégica ao oferecer estrutura comercial, tecnologia, capacitação e suporte operacional, especialmente para pequenos e médios corretores. “As assessorias passaram a exercer um papel estratégico no desenvolvimento dos corretores, especialmente dos pequenos e médios”, afirma.
Segundo Baeta Neves, as assessorias do Rio de Janeiro já movimentam R$ 3 bilhões em prêmios por ano, atendem mais de 4 mil corretores e respondem por 60% da carteira de Automóvel no estado.
Ele destaca ainda que esse modelo permite ao corretor dedicar mais tempo ao relacionamento e à consultoria, enquanto parte das atividades operacionais é compartilhada. Para acompanhar esse novo ambiente, porém, o profissional precisará combinar conhecimento técnico com novas competências.
Entre elas estão comunicação consultiva, gestão de relacionamento, interpretação de dados, uso de tecnologia e atualização regulatória. A inteligência artificial também aparece como uma ferramenta que deve ser incorporada à rotina para ampliar produtividade sem eliminar o atendimento personalizado.
Boris Ber segue na mesma direção e aponta a capacidade consultiva, visão de negócio, educação financeira, comunicação clara e uso inteligente da tecnologia como diferenciais. “A inteligência artificial não deve ser vista como uma ameaça, mas como uma ferramenta que amplia a capacidade do profissional”, afirma.
Para Montenegro, a qualificação será cada vez mais determinante. “Quem estudar mais, quem se dedicar mais, quem praticar mais e colocar na sua esteira de negócios estará um passo ou muitos passos à frente de quem não se especializar.”
O cenário aponta, portanto, para uma distribuição de seguros cada vez mais tecnológica e estruturada, mas que mantém o corretor no centro da relação com o consumidor. A diferença estará na capacidade de utilizar as novas ferramentas sem abrir mão justamente do que diferencia o profissional: conhecimento, confiança, relacionamento e orientação adequada para cada risco.

