Notícias | 18 de setembro de 2026 | Fonte: CQCS l Manuella Cavalcanti

Antes que o risco aconteça: educação é caminho para uma cultura de proteção

Em um país onde 80,9% das famílias brasileiras declararam ter algum tipo de dívida, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a educação financeira ganha relevância não apenas para o controle do orçamento mensal, mas também para a construção de um futuro financeiro mais equilibrado. Diante deste cenário, entidades do mercado de seguros vêm desenvolvendo projetos que buscam levar esses conceitos de forma mais simples para diferentes públicos. 

Um deles é EducaSeguro, uma parceria entre o Sindicato das Seguradoras Norte e Nordeste (SindsegNNE) e o Sincor-PB, criado em 2024. A iniciativa visa utilizar a literatura de cordel, um gênero literário popular composto por poemas impressos em pequenos folhetos, marcados por rimas, métrica rigorosa e forte apelo à oralidade, como uma ferramenta pedagógica para aproximar o universo dos seguros à realidade dos alunos. 

Emerita Lyra, diretora executiva do Sindsegnne, detalha que a educação sempre foi um pilar importante para a entidade, especialmente quando a escola é um dos ambientes capazes de formar hábitos e conhecimentos para o futuro. 

De acordo com ela, foi apresentado um projeto voltado à educação securitária para crianças, desenvolvido como trabalho de conclusão da pós-graduação por uma das diretoras do Sincor/PB, Claudia Helena Oliveira, e considerado uma iniciativa importante para receber o apoio das duas entidades.

“Depois de algumas reuniões, chegamos à conclusão de que contar histórias sobre proteção por meio da literatura de cordel seria uma forma lúdica e acessível de chegar às crianças, ao mesmo tempo em que valorizaria a cultura e a produção artística local”, detalha. 

Com a participação do cordelista Merlânio Maia, conhecido como Tio Cordel, responsável por escrever as histórias, compor músicas para cada uma delas e realizar as apresentações nas escolas, o projeto foi autorizado pela Secretaria de Educação de João Pessoa e teve início no segundo semestre de 2025.

A ideia, segundo Emerita, não é transformar as crianças em especialistas em seguros: é despertar uma mentalidade de prevenção, responsabilidade e planejamento. “Ao introduzir esses conceitos de forma leve e adequada à idade, contribuímos para formar adultos mais conscientes sobre riscos, prevenção e proteção”, destaca. 

Além de contribuir para a formação desses futuros adultos, o projeto também pode gerar impactos no presente. Para a diretora executiva do SindsegNNE, as crianças costumam compartilhar em casa as experiências positivas que vivenciam na escola e, por isso, podem ser importantes multiplicadoras de conhecimento.

“Todas as crianças participantes recebem um exemplar do cordel para levar para casa e compartilhar com suas famílias. A história pode despertar uma pergunta, apresentar um novo conceito ou simplesmente criar uma oportunidade de conversa. Uma criança pode, por exemplo, perguntar aos pais se a casa tem seguro ou o que aconteceria se algo inesperado ocorresse com o carro ou com a residência”, explica. 

Para Emerita, esse diálogo é muito importante porque transforma a educação securitária em algo vivo e próximo da realidade das famílias. “É uma forma de fazer o conhecimento circular: da escola para a criança e da criança para a família”, afirma. 

Outro elemento do projeto ajuda a aproximar a discussão do papel do corretor, que aparece em todas as histórias por meio de uma personagem que representa a sabedoria: a Dona Coruja. “É ela quem apresenta a proteção como uma possibilidade de solução para os problemas enfrentados pelos demais personagens quando se encontram em situações de vulnerabilidade”, detalha. 

“Com isso, queremos reforçar que o corretor de seguros exerce um papel que vai muito além da comercialização de uma apólice. Ele é um profissional que ajuda as pessoas a compreender seus riscos, identificar suas necessidades e encontrar formas adequadas de proteção”, completa Emerita.

Também voltado para o ambiente escolar, o SindSeg MG/GO/MT/DF criou, em 2009, o Seguro na Escola, em que o principal objetivo é construir, desde cedo, uma cultura de prevenção, segurança e proteção. A iniciativa já alcançou mais de 100 mil estudantes, por meio de aproximadamente 4 mil oficinas pedagógicas, realizadas em 26 cidades mineiras.

Ao CQCS, Claudia Perdigão, superintendente Executiva do Sindseg MG/GO/MT/DF, pontua que a fase escolar é muito importante porque é justamente quando muitos valores, hábitos e comportamentos começam a ser formados. “Quando o jovem aprende a pensar sobre risco, prevenção e planejamento antes mesmo de ter sua própria renda, patrimônio ou responsabilidades familiares, ele chega à vida adulta mais preparado para fazer escolhas conscientes”, analisa. 

É dessa forma que o Seguro na Escola atua: estimulando os jovens a refletirem sobre os riscos que enfrentam e sobre a importância de tomar decisões mais seguras e responsáveis. “Um conceito importante trabalhado nas oficinas é que o seguro não elimina os riscos, mas ajuda as pessoas a se prepararem para eventuais perdas e a preservarem sua capacidade de seguir em frente”, observa Claudia.

A superintendente Executiva do Sindseg MG/GO/MT/DF explica que a reflexão não termina nas oficinas realizadas. Ao final delas, os estudantes são convidados a participar do Concurso Cultural de Redação “Ser Jovem Seguro”, que estimula cada jovem a traduzir, com suas próprias palavras, o que aprendeu e como enxerga a proteção em sua vida. 

“O concurso também reconhece esse envolvimento por meio de premiações para os estudantes e para a escola vencedora, reforçando o engajamento e valorizando a participação dos jovens. O programa está em sua 15ª edição, e o investimento durante o período foi de R$ 1,78 milhão e mais de R$ 370 mil em prêmios”, explica. 

Assim como no EducaSeguro, o corretor também tem um papel importante no Seguro na Escola e na continuidade do processo de gestão de riscos e educação financeira e securitária. “A escola planta a cultura da prevenção e o corretor ajuda essa cultura a acompanhar o indivíduo ao longo da vida adulta. O Seguro na Escola não ensina o jovem a comprar seguro. Ele ensina o jovem a pensar em proteção”, evidencia Claudia.

A educação securitária, porém, não se limita ao indivíduo. Se nas escolas a proposta é formar cidadãos mais conscientes sobre planejamento e proteção, outra iniciativa procura levar esse debate para quem administra recursos e serviços que afetam comunidades inteiras.

É o caso do Cidades Protegidas, iniciativa desenvolvida pelo Sincor-MG que visa levar a cultura de prevenção, gestão de riscos e proteção do orçamento público às prefeituras e administrações municipais.

Gustavo Bentes, presidente da entidade, avalia que parte desse desafio está relacionada a barreiras socioculturais e educacionais que ainda cercam o mercado de seguros no Brasil. Para ele, a transformação desse cenário passa pela conscientização financeira e pelo fortalecimento do papel consultivo, e a iniciativa surge para qualificar esse debate.

Neste ano, o projeto Cidades Protegidas percorrerá todas as regiões de Minas Gerais, com atividades previstas entre abril e outubro em municípios como Belo Horizonte, Ipatinga, Governador Valadares, Montes Claros, Juiz de Fora, Varginha, Uberaba e Uberlândia. A iniciativa reforça a atuação do Sincor-MG na aproximação entre o mercado de seguros e o poder público, com foco em soluções que contribuam para a segurança e o desenvolvimento dos municípios.

“A cultura financeira brasileira foi historicamente moldada por períodos de hiperinflação e instabilidade, priorizando a sobrevivência imediata, em detrimento do planejamento de médio e longo prazo”, ressalta. “Como o seguro é uma solução intangível cujo valor só se concretiza diante de um imprevisto, muitos o enxergam apenas como um custo sem retorno”, acrescenta. 

Bentes também acredita que a comunicação é falha devido ao excesso de jargões técnicos, que afastam o consumidor comum e que geram desconfiança sobre a efetividade da cobertura. “Quando a pessoa compreende que o seguro não é um custo, mas um mecanismo de transferência de risco, a percepção muda. Ele deixa de ser uma despesa para se tornar o alicerce que garante a continuidade da renda familiar e a preservação da sucessão patrimonial”, diz. 

Frente a isso, o corretor ocupa uma posição essencial. Segundo o presidente do Sincor-MG, o corretor evoluiu de um mero intermediário de apólices para um consultor de proteção pessoal e sucessória. 

“Seu papel é fundamental em mapear as vulnerabilidades financeiras específicas de cada família ou empresa. [É um] protagonista em simplificar termos contratuais e alinhar expectativas reais de cobertura. [Além disso] tem ainda a fundamental atuação em acompanhar o cliente nos momentos mais delicados, garantindo a liquidez e a tranquilidade prometidas na contratação”, finaliza Bentes.

As três iniciativas partem de públicos diferentes, mas chegam a uma mesma questão: a proteção tende a ser mais efetiva quando o risco é discutido antes de se transformar em perda. Mais do que ensinar a lidar com o dinheiro, os projetos estimulam o planejamento, a prevenção e a capacidade de reconhecer e administrar riscos.

Em um cenário marcado pelo endividamento das famílias brasileiras e por uma percepção ainda limitada sobre o papel do seguro, ampliar esse conhecimento pode ajudar a mudar a relação da sociedade com a proteção, priorizando a prevenção antes que os riscos se transformem em prejuízos.

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