A pesquisa inédita da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) revelou que a maioria dos moradores de favelas brasileiras demonstra interesse pela contratação de seguros. O dado reforça que existe um mercado potencial ainda pouco explorado, mas também levanta um questionamento importante: o setor de seguros está preparado para dialogar com essa parcela da população?
Embora o interesse exista, especialistas avaliam que ainda há barreiras relacionadas à linguagem, aos modelos de distribuição e ao desenvolvimento de produtos compatíveis com a realidade financeira das periferias.
Para o presidente do Sincor-MG, Gustavo Bentes, o principal desafio não é despertar o interesse, mas aproximar o mercado desse público.
“A principal barreira não é a falta de interesse, mas a distância cultural e o modelo de comunicação. As comunidades entendem a importância da proteção porque convivem diariamente com riscos muito maiores. O problema é que o setor de seguros, historicamente, se comunicou com excesso de termos técnicos, processos burocráticos e a percepção de que seguro é um produto destinado apenas a quem possui muito patrimônio.”
Segundo Bentes, fatores como critérios tradicionais de subscrição, burocracia na contratação e experiências negativas compartilhadas entre moradores acabam afastando potenciais consumidores.
“O receio de não receber uma indenização, muitas vezes por desconhecimento das cláusulas, pesa muito. Basta um caso de negativa de sinistro para repercutir fortemente dentro da comunidade, mesmo diante de milhões de indenizações efetivamente pagas.”
Na avaliação do dirigente, apesar do avanço dos microsseguros, boa parte das soluções ainda é desenvolvida sem considerar as necessidades reais desse público.
“A maioria dos produtos ainda é desenhada de cima para baixo, replicando a lógica da classe média em versões reduzidas, quando deveria nascer da compreensão das dores da periferia. A população precisa ser ouvida para que as soluções façam sentido no seu cotidiano.”
Bentes destaca que iniciativas como o Projeto Cidades Protegidas caminham justamente nessa direção ao promover a escuta ativa das comunidades e aproximar diferentes agentes do setor.
“O Projeto Cidades Protegidas é fundamental porque sua essência é ouvir a todos, proteger a todos, onde ninguém fica para trás. Quando damos espaço para que moradores, lideranças e profissionais participem da construção das soluções, deixamos de nos apresentar como ‘a solução’ e passamos a atuar como parceiros. Nesse contexto, o corretor de seguros se torna o grande super-herói dessa transformação, levando às comunidades soluções construídas de forma coletiva e adaptadas às suas necessidades.”
Para o presidente do Sincor-MG, a percepção de valor também depende de produtos capazes de atender necessidades práticas do dia a dia.
“Coberturas como seguro de vida com auxílio-alimentação, proteção para perda de renda de trabalhadores autônomos, seguro para ferramentas de trabalho, motos de entregadores e assistências residenciais geram uma percepção de valor muito mais rápida. Além disso, é fundamental simplificar as regras, reduzir exclusões e tornar o acionamento do seguro totalmente digital e descomplicado.”
Nesse processo, o corretor assume um papel estratégico para ampliar a inclusão securitária.
“O seguro é baseado em confiança e, na periferia, essa relação interpessoal pesa ainda mais. A tecnologia facilita o acesso, mas é a consultoria humanizada que gera adesão e permanência. O corretor atua como educador financeiro, traduz o ‘segurês’ para uma linguagem simples e, quando possui vínculos reais com a comunidade, entende a dinâmica local melhor do que qualquer algoritmo.”
Na visão de Gustavo Bentes, as seguradoras também precisam rever parte de seus processos para ampliar o alcance dos seguros nas comunidades.
“É necessário flexibilizar critérios de subscrição que acabam restringindo o acesso de determinadas regiões, simplificar a comunicação das apólices e cocriar produtos ouvindo moradores, lideranças e corretores locais. Também é importante oferecer processos de contratação mais simples e materiais educativos que auxiliem o corretor no dia a dia.”
Os dados da pesquisa da CNseg mostram que o interesse pelas soluções de proteção já existe entre moradores de comunidades. O desafio agora passa por adaptar linguagem, produtos e canais de distribuição para transformar essa demanda potencial em inclusão securitária efetiva, ampliando o alcance do mercado de seguros e fortalecendo o papel consultivo dos corretores.

