A partir deste artigo, início oficialmente minha coluna neste importante canal de comunicação com o mercado de seguros. E começo com uma pergunta que costuma surpreender, mas que revela muito sobre a nossa profissão:
Por que decisões bilionárias passam pelos atuários e, ainda assim, quase ninguém fala de nós?
A resposta é simples e, ao mesmo tempo, reveladora: porque o atuário atua, na maior parte do tempo, nos bastidores. Diferentemente de outras áreas mais visíveis, o trabalho do atuário raramente aparece — mas está presente em praticamente todas as decisões relevantes que envolvem risco, incerteza e compromissos financeiros de longo prazo.
Sempre que um plano de previdência é estruturado, quando uma seguradora define o preço de um seguro, quando uma operadora de saúde calcula mensalidades ou quando uma empresa avalia quanto precisa reservar hoje para honrar obrigações futuras, há um atuário por trás, garantindo que tudo isso “pare em pé” ao longo do tempo. Em outras palavras, o atuário é o profissional responsável por dar sustentação técnica a promessas feitas hoje que só serão cumpridas no futuro.
E aqui está um ponto central: o futuro é, por natureza, incerto.
Enquanto muitos profissionais lidam com tarefas bem definidas e previsíveis, o atuário é treinado para tomar decisões em cenários nos quais não há certeza — apenas probabilidades. E, nessas situações, errar pode custar caro: não apenas para empresas, mas para milhões de pessoas que dependem de seguros, planos de saúde e aposentadorias, razão pela qual seu trabalho é indispensável nos mercados em que o risco está presente.
Mas como tomar decisões racionais diante da incerteza?
Para responder a essa pergunta, vale voltar alguns séculos na história.
No século XVII, dois matemáticos — Blaise Pascal e Pierre de Fermat — debruçaram-se sobre um problema aparentemente simples, conhecido como “problema dos pontos”. A questão era a seguinte: como dividir de forma justa um prêmio quando um jogo é interrompido antes do seu término?
À primeira vista, a solução poderia parecer trivial: dividir o prêmio proporcionalmente ao placar atual. No entanto, Pascal e Fermat perceberam algo mais profundo. A divisão justa não deveria refletir apenas o presente, mas também as chances futuras de cada jogador vencer o jogo.
Ou seja, não basta olhar para o que já aconteceu — é preciso considerar o que ainda pode acontecer. Essa visão mudou a percepção da época.
Vamos apresentar o problema tal como foi apresentado a Pascal e Fermat.
Dois jogadores estão participando de um jogo justo. Eles lançam uma moeda e decidem jogar até que um deles alcance 3 (três) vitórias. Qual seria a probabilidade de vitória do jogador A e do jogador B?
Suponha que o jogo seja interrompido antes do fim. Como dividir de forma justa o prêmio entre os dois jogadores, dado o placar parcial no momento da interrupção?
Considere que o jogador A tenha 2 vitórias e o jogador B tenha 1 vitória. O jogo precisa ser interrompido. Como dividir o prêmio?
Analisando as possibilidades futuras, temos que:
• Se A vencer a próxima partida, ganha tudo;
• Se B vencer a próxima partida, ambos ficarão empatados em 2 a 2, e o último jogo decidirá o vencedor.
Analisando as probabilidades, temos:
• Chance de A ganhar imediatamente: 50%;
• Chance de B vencer a próxima e levar a disputa ao último jogo: 50%;
• No último jogo, A ainda terá 50% de chance de vencer.
Logo, a probabilidade total de vitória de A é:
P(A) = 0,5 + (0,5 × 0,5) = 0,75, ou seja, 75%.
A probabilidade de vitória de B é:
1 − P(A) = 0,25, ou seja, 25%.
Assim sendo, a divisão justa da aposta seria:
• Jogador A: 75% do prêmio;
• Jogador B: 25% do prêmio.
Esse raciocínio marcou uma verdadeira mudança de paradigma: a passagem da intuição para a mensuração objetiva da incerteza. Foi nesse momento que surgiu o conceito que hoje chamamos de valor esperado — uma ideia fundamental para o trabalho atuarial.
Para ilustrar, imagine um seguro em que exista 40% de chance de ocorrer um evento que gere um prejuízo de 1.000 unidades monetárias. Qual seria, então, o “custo médio” desse risco?
A resposta não está no valor total da perda, mas na sua probabilidade: 40% de 1.000 resulta em 400. Esse valor é denominado valor esperado da perda — e representa a base técnica sobre a qual o seguro é precificado nos tempos atuais.
Foi a partir desse problema simples de cálculo que se definiu o prêmio puro. Sobre ele, a seguradora adiciona custos operacionais, remuneração do capital, lucro e margens de segurança, chegando ao preço final cobrado do consumidor.
Esse mesmo princípio se aplica, por exemplo, aos seguros de vida. Se existe uma probabilidade anual de 0,3% de uma pessoa falecer e o valor segurado é de US$ 100.000, o custo esperado desse risco é de US$ 300. A partir daí, o atuário ajusta esse valor considerando o tempo — já que o dinheiro hoje vale mais do que no futuro — e outros fatores técnicos.
Mas o trabalho do atuário não para na precificação.
Ele também é responsável por garantir que as empresas tenham recursos suficientes para honrar seus compromissos no futuro. Isso envolve o cálculo das chamadas reservas ou provisões técnicas, que são valores guardados hoje para pagar eventos que ainda vão acontecer — como aposentadorias, indenizações ou despesas médicas.
Vale lembrar que essas provisões servem para cobrir as perdas esperadas, ou seja, aquelas que se aproximam da média e da mediana em uma distribuição normal. Porém, existem outros eventos cuja probabilidade de ocorrência é muito pequena, mas que, caso ocorram, podem causar grandes impactos. São os chamados eventos extremos, localizados nas caudas da distribuição estatística, nos quais as provisões técnicas podem não ser suficientes para suportar as perdas. Esses eventos raros são cobertos pelo capital de risco, cuja apuração também é responsabilidade dos atuários.
E essas estimativas não são estáticas. À medida que o tempo passa e novas informações surgem, as probabilidades mudam — e os cálculos também precisam ser ajustados. Trata-se de um processo contínuo de atualização, sempre baseado na melhor informação disponível.
Trocando em miúdos, o valor esperado é utilizado não apenas para o cálculo do prêmio puro, mas também para projetar provisões técnicas, operações de resseguro e a gestão de solvência e de capital regulatório.
Do ponto de vista da sociedade, o papel do atuário é ainda mais amplo do que parece.
O mercado de seguros funciona como um grande sistema de solidariedade: muitas pessoas contribuem com pequenos valores para proteger aquelas poucas que, eventualmente, sofrerão perdas. Portanto, para que esse sistema seja justo e sustentável, é essencial que os preços reflitam, de forma equilibrada, os riscos envolvidos — sem favorecer excessivamente nem a empresa, nem o consumidor.
É exatamente isso que o atuário busca fazer: transformar incerteza em números, risco em preço e promessas futuras em compromissos viáveis.
Mais do que isso, o trabalho atuarial permite que indivíduos e empresas planejem o futuro com maior segurança. Sem essa base técnica, seria muito mais difícil oferecer seguros acessíveis, planos de previdência confiáveis ou sistemas de saúde financeiramente sustentáveis.
Em última análise, a contribuição iniciada por Pascal e Fermat vai muito além da matemática. Eles deram origem a uma forma de pensar que permite lidar racionalmente com a incerteza — algo essencial em um mundo cada vez mais complexo.
Hoje, séculos depois, essa mesma lógica continua viva no trabalho dos atuários. Mesmo longe dos holofotes, são eles que ajudam a sustentar decisões que impactam empresas, governos e milhões de pessoas.
Talvez por isso a profissão seja, ao mesmo tempo, silenciosa e essencial.
E, embora pouco visível, seu impacto está presente em algo que todos valorizamos profundamente: a capacidade de enfrentar o futuro com mais segurança.
É importante destacar que os artigos escritos para este veículo, bem como as opiniões expressas nesta coluna, são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, o posicionamento das instituições ou grupos de trabalho dos quais, eventualmente, faço parte.
(*) Marco Pontes é membro do IBA, do Comitê de Padrões Atuariais (ASC) da International Actuarial Association (IAA), membro do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e sócio-fundador da LGP Soluções Atuariais Ltda.

