Ciência Atuarial - Transformando o risco em proteção | 2 de julho de 2026 | Fonte: Marco Pontes

Edmond Halley: o cientista que ajudou a criar a Ciência Atuarial moderna

Por Marco Pontes (*)

Quando se fala em Edmond Halley, a maioria de nós lembramos do famoso cometa que leva seu nome. Entretanto, poucos sabem que o famoso astrônomo inglês deixou uma contribuição extraordinária para a Ciência Atuarial. Seu trabalho estabeleceu um dos pilares sobre os quais a ciência atuarial moderna foi construída.

Para compreender a importância de sua contribuição, torna-se necessário voltar ao final do século XVII. Época em que a Europa vivia um período de intensa efervescência intelectual. A Revolução Científica havia consolidado a ideia de que os fenômenos da natureza poderiam ser compreendidos por meio da observação, da experimentação e da matemática. Paralelamente, o comércio se expandia, os seguros marítimos ganhavam relevância e surgiam os produtos financeiros, cuja viabilidade dependia diretamente da expectativa de vida dos indivíduos, como as rendas vitalícias.

A grande questão era que ninguém sabia, com um mínimo de precisão, quanto tempo um indivíduo viveria. Os governos comercializavam rendas vitalícias e instituições assumiam compromissos financeiros de longo prazo com base, exclusivamente em estimativas intuitivas e, invariavelmente imprecisas. Em muitos casos, cobrava-se o mesmo valor de uma pessoa de 30 anos de idade e de outra com 60 anos, ignorando completamente as diferenças de expectativa de vida entre elas. Tratava-se, portanto, de um sistema sujeito a erros e distorções que causavam desequilíbrios financeiros.

Foi nesse contexto que Halley produziu um trabalho que transformou a realidade da época. Mais precisamente em 1693, utilizando registros de nascimentos de Breslau, hoje conhecida como Wroclaw, na Polônia que ele organizou dados por idade e construiu uma das primeiras tábuas de mortalidade efetivamente útil para aplicações financeiras. Assim, pela primeira vez, tornou-se possível estimar, de forma objetiva, a probabilidade de sobrevivência dos indivíduos em cada idade.

Hoje a sua ideia pode parecer simples, mas, para aquela época, foi revolucionária. Ele demonstrou que, embora fosse impossível prever quanto tempo um indivíduo viveria, era perfeitamente possível identificar padrões quando se observava uma população como um todo, tal qual, a Ciência Atuarial, faz hoje. Trocando em miúdos, ele mostrou que a incerteza individual poderia ser transformada em previsões precisas por meio da análise estatística.

Esse conceito alterou profundamente a forma de lidar com o risco. A partir daquele momento, seguros de vida, pensões e rendas vitalícias passaram a ser calculados com base em probabilidades e evidências quantitativas, e não mais em simples intuição. Nascia, desta forma, um dos fundamentos da matemática atuarial.

Mais de trezentos anos se passaram desde a publicação daquele estudo. Nesse período, a ciência evoluiu de maneira impressionante. As tábuas de mortalidade tornaram-se muito mais sofisticadas, incorporando diferenças por sexo, condições socioeconômicas, hábitos de vida, avanços da medicina e projeções de aumento da longevidade. Os computadores substituíram os cálculos manuais, modelos estocásticos passaram a integrar a rotina profissional e, mais recentemente, a inteligência artificial e o aprendizado de máquina ampliaram ainda mais a capacidade de análise e previsão dos atuários.

Apesar de toda essa evolução tecnológica, o princípio fundamental permanece essencialmente o mesmo que Halley apresentou no século XVII: utilizar dados para compreender e mensurar os riscos futuros.

Essa herança está presente diariamente na rotina de trabalho do atuário de vida e pensões. Sempre que um profissional calcula reservas técnicas de uma seguradora, avalia um plano de previdência de um fundo de pensão, estima o custo futuro de benefícios, projeta a longevidade de uma população ou desenvolve modelos de solvência e gestão de riscos, está aplicando a mesma lógica inaugurada por Halley. Mudaram as ferramentas, aumentou a quantidade de informações disponíveis e cresceram as exigências regulatórias, mas a essência continua sendo a mesma, ou seja, transformar dados em conhecimento para apoiar decisões.

Na verdade, a influência de Halley vai além dos cálculos de mortalidade. Seu trabalho ajudou a consolidar uma forma de pensar que caracteriza a própria Ciência Atuarial: a convicção de que os riscos não devem ser tratados apenas como ameaças imprevisíveis, mas como fenômenos que podem ser estudados, quantificados e administrados de maneira racional.

Essa visão é particularmente relevante no mundo contemporâneo. Os desafios enfrentados pelos atuários são muito diferentes daqueles do século XVII. Hoje estamos em um patamar mais elevado, discutimos envelhecimento populacional, mudanças climáticas, riscos cibernéticos, sustentabilidade dos sistemas previdenciários, inteligência artificial e novas formas de proteção financeira. São problemas consideravelmente mais complexos, mas que continuam exigindo exatamente a mesma capacidade de interpretar dados, construir modelos e avaliar incertezas.

Talvez esse seja o maior legado de Edmond Halley. Seu trabalho demonstrou que a matemática não serve apenas para explicar o mundo, mas também para torná-lo mais seguro e previsível. Ao transformar registros de mortalidade em conhecimento útil para decisões econômicas, ele abriu caminho para o desenvolvimento de uma profissão que, até hoje, tem como missão compreender os riscos para promover estabilidade, sustentabilidade e segurança financeira.

Nem todo atuário conhece em detalhes a história de Halley. Ainda assim, todos convivem diariamente com seu legado. Em cada tábua biométrica utilizada, em cada avaliação atuarial realizada e em cada modelo de precificação desenvolvido, permanece viva a ideia que ele introduziu há mais de três séculos: por trás das incertezas da vida existem padrões que podem ser compreendidos, mensurados e gerenciados. E é justamente essa capacidade de transformar incertezas em conhecimento que continua definindo a essência da Ciência Atuarial.

É importante destacar que os artigos escritos para a coluna deste veículo, expressam opiniões pessoais e não devem ser confundidas, sob qualquer hipótese com o posicionamento das instituições ou grupos de trabalho dos quais, eventualmente, faço parte.

Marco Pontes

Marco Pontes é atuário, com formação em Estatística e APG em Administração e Liderança. Possui mais de 30 anos de experiência profissional, tendo atuado em diversos segmentos nos quais a Ciência Atuarial está presente, como seguros, previdência e auditoria, entre outros. Ao longo de sua carreira, passou por empresas de consultoria nacionais e internacionais, tendo liderado a implantação (start-up) da área atuarial em duas Big Four. Atualmente, é diretor da LGP Soluções Atuariais Ltda., membro do Comitê de Pronunciamentos Técnicos do Instituto Brasileiro de Atuária (IBA) e integrante do Actuarial Standards Committee (ASC) da International Actuarial Association (IAA).

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