A inteligência artificial deixou de ser uma aposta de futuro e passou a ocupar espaço central nas estratégias de seguradoras e operadoras de saúde. O movimento, identificado pelo Valor Econômico a partir do levantamento que fundamenta o ranking Valor Inovação Brasil 2026, mostra empresas utilizando IA, ciência de dados e automação para reduzir custos, aumentar a produtividade e tornar processos mais eficientes.
Em um cenário de margens pressionadas pelo aumento dos custos assistenciais, envelhecimento da população, avanço das fraudes, eventos climáticos e mudanças no comportamento dos consumidores, a tecnologia vem ganhando espaço em diferentes etapas da operação. No segmento de seguros e planos de saúde, Bradesco Seguros, Athena Saúde, Brasilprev, Unimed-BH e Junto Seguros aparecem entre as companhias de destaque em inovação.
Segundo dados apresentados pelo Valor Econômico, levantamento da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) aponta que 80% das empresas brasileiras já utilizam inteligência artificial, principalmente IA generativa. Embora o impacto direto sobre a receita ainda seja limitado — 84% das empresas registram aumento inferior a 1% —, os ganhos de produtividade variam entre 30% e 50%, fazendo da eficiência operacional um dos principais retornos dos investimentos em tecnologia.
Na saúde suplementar, a pressão sobre os custos aumenta a importância dessas ferramentas. Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram que a sinistralidade das operadoras voltou a superar 80% em diversas carteiras, enquanto estudos do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) apontam que os custos médicos continuam avançando acima da inflação. Nesse ambiente, soluções capazes de reduzir desperdícios, melhorar a experiência dos pacientes e elevar a produtividade das equipes ganham relevância.
No Bradesco Seguros, líder da categoria, a inovação passou a fazer parte de um processo permanente de gestão. Segundo Edilson Reis, diretor de tecnologia da informação, digital, CRM, inovação e customer experience do grupo, tecnologia, experiência do cliente, CRM, inteligência de dados e operações foram integrados em uma estrutura voltada à solução de problemas do negócio.
A estratégia já se reflete na escala dos canais digitais. O aplicativo da companhia reúne 141 jornadas, envolvendo contratação de produtos, atendimento, reembolsos e sinistros, com média de 8,2 milhões de transações mensais e aproximadamente 1,3 milhão de usuários únicos por mês.
No seguro de automóveis, a inteligência artificial passou a apoiar a análise de imagens para orçamentação e regulação de sinistros, reduzindo em aproximadamente 15% o tempo necessário para devolver o veículo ao cliente. Na área de saúde, 95% dos pedidos de reembolso já são realizados pelos canais digitais.
“Em cenários de maior incerteza é justamente quando a inovação precisa estar ainda mais conectada às prioridades da companhia. O desafio não é escolher entre eficiência operacional e inovação, mas desenvolver a capacidade de fazer as duas coisas simultaneamente”, afirma Reis.
A companhia também aposta na cultura interna para acelerar a adoção de novas tecnologias. O programa Desbrava reúne equipes multidisciplinares para desenvolver soluções para desafios reais do negócio, enquanto o Programa Beta Testers conta com mais de sete mil clientes e colaboradores para validar novos serviços antes da implantação.
“Tecnologia só gera vantagem competitiva quando melhora a experiência dos clientes e aumenta a eficiência do negócio”, resume Reis.
Na Athena Saúde, a tecnologia foi direcionada para um dos principais desafios das operadoras: o combate às fraudes e ao desperdício assistencial. A empresa implantou um sistema de biometria facial associado à geolocalização para confirmar a identidade e a presença do beneficiário no momento do atendimento.
A iniciativa gerou R$ 22 milhões em economia em um ano, reduziu em 16 pontos percentuais a diferença entre terapias autorizadas e efetivamente realizadas e diminuiu em 9,7% os custos dessa linha assistencial. Mais de 500 mil beneficiários já utilizam a tecnologia.
“A inovação precisa resolver problemas concretos da operação. É assim que ela contribui para a sustentabilidade e para a competitividade da empresa”, afirma Breno Rios Sá, vice-presidente de tecnologia, digital, inovação e experiência do cliente da Athena Saúde.
A companhia destinou cerca de R$ 109 milhões para tecnologia e inovação no último ano, aproximadamente 3% da receita operacional líquida. Atualmente, 85% dos atendimentos são realizados pelos canais digitais. Entre os próximos passos estão a ampliação do uso de IA no faturamento hospitalar, na análise de grandes volumes de dados e no apoio à decisão médica, além da expansão da biometria facial para consultas, exames e outros procedimentos críticos.
Na Brasilprev, a estratégia de inovação está voltada à aproximação da previdência com o cotidiano dos clientes. A companhia passou a permitir a contratação de planos diretamente pelo WhatsApp, com pagamentos recorrentes via Pix, simplificando um processo tradicionalmente concentrado nas agências bancárias.
A empresa também ampliou o uso de IA na personalização de ofertas, prevenção de fraudes, cibersegurança e automação do atendimento. Em 2025, cerca de 80% dos atendimentos ocorreram pelos canais digitais, movimentando R$ 3,15 bilhões em arrecadações e realocações financeiras.
O volume de negócios influenciado por modelos analíticos alcançou R$ 16 bilhões, enquanto o atendimento automatizado via WhatsApp chegou a 95% de índice de resolução.
“Nosso objetivo é usar dados e inteligência artificial para democratizar o acesso à previdência e oferecer soluções mais aderentes ao momento de vida de cada cliente”, afirma Bruno Venceslau, superintendente de dados da Brasilprev.
A empresa também investiu na preparação de suas equipes. Mais de 85% dos colaboradores passaram por treinamentos em inteligência artificial.
Na saúde suplementar, a Unimed-BH utiliza a tecnologia para reorganizar a jornada do paciente e reduzir desperdícios assistenciais. Um dos principais exemplos é o Onde Ir, plataforma que orienta o beneficiário sobre o nível mais adequado de atendimento — teleconsulta, consulta presencial ou pronto atendimento — a partir dos sintomas informados.
Desde sua implantação, a solução registrou mais de 100 mil acessos, realizou 45 mil jornadas completas, alcançou 99% de assertividade nas recomendações e 81% de adesão às orientações fornecidas pela inteligência artificial. O projeto apresentou retorno sobre o investimento superior a 110% e contribuiu para reduzir a sinistralidade ao direcionar o paciente ao atendimento mais adequado.
“O maior valor da tecnologia não está apenas em automatizar processos, mas também em orientar o paciente para o cuidado correto, fortalecendo a coordenação assistencial e a sustentabilidade do sistema de saúde”, afirma Frederico Peret, diretor-presidente da Unimed-BH.
O projeto integra o Horizontes Hub, estrutura criada para desenvolver novos negócios, investir em startups e transformar soluções internas em produtos para outras organizações de saúde. Entre as iniciativas estão a plataforma Cogfy Saúde e o programa Consultório 2030, voltado à modernização da prática médica por meio de inteligência artificial e telemedicina.
Já a Junto Seguros, especializada em seguro garantia, concentrou os investimentos em tecnologia na simplificação da análise de contratos e documentos técnicos. A companhia desenvolveu a Llobo Plataforma, baseada em inteligência artificial generativa, capaz de interpretar automaticamente editais e contratos para apoiar a emissão de apólices.
A ferramenta já foi utilizada por cerca de 30% da base de corretores, apoiando a cotação de mais de R$ 11 milhões em prêmios e alcançando índice superior a 90% de assertividade na extração das informações.
Atualmente, aproximadamente 60% dos códigos produzidos pela companhia contam com apoio de inteligência artificial, contribuindo para um crescimento de 30% na emissão de documentos no primeiro semestre de 2026.
“Nossa estratégia é utilizar a inteligência artificial como um copiloto para apoiar decisões complexas, mantendo o especialista no centro do processo”, afirma Karine Chaves, CTIO da Junto Seguros.
Para a executiva, o avanço tecnológico não elimina a importância do conhecimento técnico. “As empresas que lideraram esse novo ciclo serão aquelas capazes de combinar inteligência artificial, especialização e proximidade com clientes e corretores”, conclui.
Os exemplos mostram que, no mercado de seguros e saúde, a inteligência artificial já ultrapassou a fase de experimentação e passou a ser aplicada em processos diretamente ligados à operação. De regulação de sinistros e prevenção de fraudes à distribuição, atendimento e análise de riscos, a tecnologia vem sendo utilizada principalmente para ampliar a eficiência, reduzir desperdícios e apoiar decisões, mantendo profissionais especializados no centro das atividades que exigem conhecimento técnico.

