Segundo informações publicadas pelo Valor Econômico, as cooperativas de crédito ganharam um novo espaço no mercado de seguros após a regulamentação do marco que permite a constituição de cooperativas de seguros. A mudança abre caminho para que instituições que tradicionalmente atuam como canais de distribuição passem também a assumir riscos e estruturar operações próprias, ampliando a disputa — e também as oportunidades de parceria — no setor.
Segundo Clara Maffia, gerente-geral da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), a publicação das resoluções pelo Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP) e pela Superintendência de Seguros Privados (Susep) eliminou a lacuna regulatória que impedia o início efetivo desse mercado. Agora, as cooperativas interessadas precisam estruturar seus projetos e obter autorização da Susep, que avaliará aspectos como viabilidade, capacidade de capital e requisitos prudenciais.
“Mesmo antes de existir formalmente uma cooperativa de seguros, a possibilidade de elas existirem já está movimentando fortemente o mercado segurador”, diz Clara.
A OCB já percebe aumento nas consultas, mas não espera uma expansão imediata do número de novas operações. Além da necessidade de capital, as cooperativas terão de desenvolver conhecimento técnico, estrutura atuarial, capacidade de subscrição, tecnologia e redes de prestadores. Por isso, a expectativa é que os primeiros movimentos sejam realizados em parceria com seguradoras tradicionais, inclusive por meio de operações de cosseguro.
O potencial desse mercado está diretamente relacionado à escala já alcançada pelo cooperativismo de crédito. Segundo dados divulgados pelo Valor Econômico, as instituições reúnem cerca de 22 milhões de cooperados, dos quais aproximadamente 10 milhões já consomem seguros, incluindo produtos como prestamista, vida, automóvel, residencial e patrimonial oferecidos por seguradoras parceiras.
A capilaridade também é um diferencial. De acordo com informações publicadas pelo Valor Econômico, em mais de mil municípios as cooperativas são a única instituição financeira com presença física. Para a OCB, essa estrutura pode contribuir para ampliar a educação securitária e levar produtos de proteção a consumidores que ainda têm pouco acesso ao mercado.
Entre os grupos que acompanham as possibilidades abertas pela regulamentação está o Sicoob, que distribui seguros em parceria com seguradoras há mais de 30 anos. Segundo Marcelo Carneiro, diretor de desenvolvimento comercial e de negócios da instituição, estão em avaliação oportunidades em ramos como automóvel, propriedade, agropecuário, máquinas e equipamentos.
O Sicoob também considera a possibilidade de estabelecer parcerias estratégicas e operações de cosseguro, combinando conhecimento técnico, inovação e escala.
O Sicredi também acompanha o novo ambiente regulatório e avalia as oportunidades, sem antecipar qual modelo poderá adotar. Para Leonardo Silva de Menezes, superintendente de produtos do Sicredi, a regulamentação abre espaço para novos formatos de atuação e pode contribuir para ampliar a inclusão securitária e estimular a concorrência.
“Entendemos que o diferencial está na capacidade de oferecer soluções adequadas às necessidades reais das pessoas e empresas associadas, sustentadas por relacionamento próximo, escuta ativa e conhecimento das realidades locais”, diz.
A possibilidade de as cooperativas avançarem na cadeia de seguros, entretanto, não significa necessariamente o afastamento das seguradoras tradicionais. Pelo contrário. A combinação entre a capilaridade das cooperativas e a estrutura técnica das companhias pode criar novas oportunidades de negócios.
A MAG Seguros, que mantém parcerias com Sicoob, Bancoob e Unicred, prepara uma frente para oferecer tecnologia, suporte atuarial, desenvolvimento de produtos e estrutura operacional às futuras cooperativas de seguros. Leonardo Lourenço, vice-presidente da companhia, afirma que a MAG pretende participar também de operações de cosseguro.
A Mapfre, por sua vez, mantém há mais de 30 anos uma área dedicada ao segmento. Para Luciano Bezas, diretor comercial de canais estratégicos, as cooperativas oferecem capilaridade, conhecimento e confiança dos associados, enquanto as seguradoras contribuem com capacidade de subscrição, solidez financeira e portfólio.
Na AXA, Matheus Fontanelli, diretor comercial de cooperativas e agronegócios, avalia que os sistemas de crédito que já distribuem seguros devem liderar os primeiros movimentos. A companhia mantém uma estrutura dedicada ao segmento e pretende participar desse novo ciclo como parceira.
Com a regulamentação, as cooperativas de crédito passam a ter a possibilidade de avançar de distribuidoras para protagonistas também na estruturação de seguros. Para as seguradoras, o novo cenário abre uma disputa por espaço, mas também reforça o potencial de parcerias com instituições que já possuem escala, relacionamento e presença em diferentes regiões do país.

