O mercado de seguros pode assumir um papel cada vez mais estratégico na preparação do Brasil para os impactos das mudanças climáticas, indo além da indenização após a ocorrência de um sinistro. Essa foi uma das mensagens apresentadas por Erika Medici, CEO da AXA no Brasil, durante o painel “Infraestrutura resiliente, gestão de riscos climáticos e seguros em concessões públicas”, realizada na última quinta-feira (06), no Museu de Arte de São Paulo (MASP), em São Paulo.
O painel integrou o encontro “Riscos Climáticos e o Setor Segurador: Como ampliar a resiliência do Brasil?”, promovido pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) e pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), no âmbito da World Climate Summit São Paulo, parte da Climate Week, iniciativa internacional dedicada às discussões sobre clima.
O evento reuniu representantes do setor segurador, governo, mercado financeiro, setor produtivo e especialistas para discutir como transformar os riscos climáticos em medidas concretas de prevenção, proteção financeira e adaptação. A programação foi estruturada em três painéis, com debates sobre proteção financeira diante do El Niño, infraestrutura resiliente em concessões públicas e seguro rural.
Na mesa em que participou Erika Medici, também estiveram André Dabus, diretor de Infraestrutura da Marsh; Luciene Machado, superintendente de Estruturação de Projetos do BNDES; e Melina Amoni, gerente de Mudança do Clima na WayCarbon. A moderação ficou a cargo de Cláudia Prates, diretora de Sustentabilidade da CNseg.
Seguro deixa de atuar apenas depois do risco
Durante o debate, Erika Medici destacou a transformação pela qual passa o setor segurador diante da intensificação dos eventos climáticos e da necessidade de preparar a infraestrutura brasileira para um cenário de maior exposição a riscos.
Segundo a CEO da AXA no Brasil, o mercado vem acompanhando a evolução das discussões sobre infraestrutura e mudanças climáticas e ampliando sua atuação para além do modelo tradicional de indenização. “O mercado de seguros tem se transformado e evoluído junto a todas as discussões de infraestrutura e o impacto climático”, afirmou.
Para a executiva, essa mudança significa uma participação mais ativa das seguradoras na identificação dos riscos e na adoção de medidas capazes de reduzir os impactos de eventos extremos. “A gente deixou de ser um mercado de indenização, de pagamento de sinistro, para ter um papel muito fundamental e relevante na prevenção e na mitigação dos riscos”, destacou Erika Medici.
A discussão ganha importância diante da necessidade de ampliar a resiliência de projetos de infraestrutura, especialmente em concessões públicas. Empreendimentos de longo prazo estão expostos a riscos que podem comprometer operações, gerar perdas financeiras e afetar a prestação de serviços essenciais à população.
Nesse cenário, a avaliação e a gestão dos riscos climáticos podem se tornar elementos importantes desde a estruturação dos projetos, permitindo que medidas de prevenção e mecanismos de proteção sejam considerados antes mesmo da ocorrência de eventos extremos.
Seguro como indutor de investimentos
Além da proteção patrimonial, o setor segurador pode exercer uma função relevante na criação de condições para novos investimentos em infraestrutura. Ao contribuir para a identificação e mitigação de riscos, as seguradoras podem aumentar a previsibilidade e a resiliência dos projetos.
Na avaliação de Erika Medici, essa evolução amplia a importância econômica do seguro e permite que o setor participe diretamente da agenda de desenvolvimento do país. “Para que a gente possa ser cada vez mais um viabilizador de investimentos na infraestrutura do Brasil”, afirmou a CEO da AXA no Brasil.
A discussão realizada no MASP também reforçou a necessidade de aproximar diferentes setores na construção de respostas aos impactos climáticos. A proposta do encontro promovido pelo iCS e pela CNseg foi justamente conectar ciência, políticas públicas e mercado para transformar o conhecimento sobre riscos climáticos em ações concretas.
A agenda ganha relevância diante da intensificação de eventos extremos e de seus impactos econômicos e sociais. Para o setor segurador, o desafio envolve não apenas ampliar a capacidade de proteção financeira, mas também contribuir para a prevenção, adaptação e redução das perdas.
Ao colocar infraestrutura, concessões públicas e seguros no centro da discussão climática, o evento mostrou que a resiliência depende de uma atuação coordenada entre governo, empresas, instituições financeiras, especialistas e mercado segurador. Nesse processo, o seguro passa a ocupar uma posição que vai além da resposta ao dano: torna-se também uma ferramenta de planejamento, mitigação e viabilização de investimentos de longo prazo.

