O envelhecimento da população brasileira e o aumento da expectativa de vida impõem novos desafios para a previdência e exigem mudanças na forma como a sociedade se prepara para o futuro. O tema foi discutido no painel “Como proteger uma sociedade que envelhece e vive por mais tempo?”, realizado durante o XII Fórum Nacional de Seguro de Vida e Previdência Privada da FenaPrevi, nesta quarta-feira (16), em São Paulo.
O debate reuniu Edson Franco, presidente da FenaPrevi e CEO da Zurich Brasil; Eduardo Giannetti, economista e escritor; Ana Paula Vescovi, economista; Dyogo Oliveira, presidente da CNseg; Devanir Silva, diretor-presidente da Abrapp; e Nilton Molina, presidente do Instituto de Longevidade e Fundos de Pensão MAG.
Na abertura, Edson Franco afirmou que a velocidade das transformações demográficas torna necessário tratar o tema como uma agenda de longo prazo, mas com senso de urgência. Para ele, o setor precisa contribuir para transformar a discussão em propostas concretas.
“A grande questão é como provocar um senso de urgência em um tema em que existe uma janela de oportunidade para fazer uma reforma que tenha a possibilidade de uma transição. Essa janela está se fechando rapidamente. As mudanças demográficas e nas relações de trabalho estão acelerando a necessidade de uma reforma, mas precisamos combinar inclusão, viabilidade política e sustentabilidade técnica e atuarial”, afirmou.
Eduardo Giannetti destacou que a transição demográfica é um dos principais acontecimentos que marcarão a atual geração de brasileiros. Segundo ele, a combinação entre o crescimento populacional observado no passado e a queda acelerada da taxa de fecundidade está alterando a estrutura etária do país.
O economista explicou que o Brasil passou de uma estrutura semelhante a uma pirâmide, com grande concentração de jovens, para uma configuração que caminha para o formato de um “cogumelo”, com uma base menor e uma população idosa cada vez maior.
“O grande desafio da nossa geração, da próxima e da seguinte vai ser como financiar a transferência de renda para uma vida digna, segura e saudável do topo do cogumelo que está em formação. Não dá para falar em previdência sustentável sem falar em produtividade. Precisamos aumentar a produtividade do trabalho, formar capital, investir em capital humano e criar instituições que direcionem recursos para inovação”, afirmou.
Para Giannetti, também é necessário diferenciar a proteção social oferecida pelo Estado da formação de uma poupança previdenciária individual. Na avaliação dele, a preparação para a aposentadoria deve começar desde a entrada no mercado de trabalho.
Ana Paula Vescovi também chamou atenção para a velocidade da mudança demográfica e para as transformações no mercado de trabalho. Segundo ela, a nova geração pode apresentar uma relação diferente com a previdência, especialmente diante do crescimento do empreendedorismo e de novas formas de trabalho.
“A reforma de 2019 foi muito importante, mas já sabíamos que não seria suficiente. Descobrimos que estamos crescendo mais rápido, que ainda existem muitas assimetrias e que o mundo do trabalho está mudando. Isso pode levar uma parcela dos jovens a preferir fazer sua própria poupança complementar e deixar de contribuir para um sistema que ainda depende da solidariedade intergeracional”, afirmou.
A economista defendeu ainda maior uso da tecnologia, da interoperabilidade de dados e da educação financeira para desenvolver produtos mais adequados às diferentes realidades dos consumidores.
Dyogo Oliveira ressaltou que a mudança demográfica torna necessário repensar a relação da sociedade com a aposentadoria. Segundo ele, o modelo atual foi criado para uma realidade muito diferente da que o Brasil enfrenta hoje, quando havia mais contribuintes para cada beneficiário.
“O sistema foi desenhado de forma adequada para a realidade daquela época. Em 1980, tínhamos 15 habitantes para cada aposentado e quatro contribuintes para cada aposentado. Hoje temos cinco habitantes e 1,8 contribuintes por aposentado. Em 2032, teremos 1,5 contribuintes. Isso mostra que precisamos construir um novo sistema de previdência para essa sociedade”, afirmou.
Oliveira também defendeu a criação de uma estrutura permanente para conduzir o debate previdenciário, envolvendo academia, comunicação e diferentes setores da sociedade. Para ele, a discussão precisa ir além do impacto fiscal e mostrar os efeitos da formação de poupança de longo prazo sobre investimentos e crescimento econômico.
Devanir Silva propôs uma mudança na própria forma de apresentar o tema. Em vez de tratar apenas de uma reforma, ele defendeu a construção de uma nova previdência, capaz de alcançar trabalhadores que atualmente estão fora dos sistemas de proteção.
“O Brasil não precisa de uma reforma. O Brasil precisa de uma nova previdência. Temos hoje uma população de invisíveis, pessoas que trabalham, produzem, mas não pensam no futuro, não poupam e não têm uma previdência que lide com essa proteção. Precisamos transformar isso em um projeto de inclusão social e levar proteção e dignidade para essas pessoas”, afirmou.
Silva citou trabalhadores de plataformas, microempreendedores e outras categorias que atuam fora dos modelos tradicionais de emprego e contribuição. Segundo ele, tecnologia, educação e comunicação podem ajudar a criar produtos de previdência de menor valor e adaptados a esses públicos.
Nilton Molina reforçou que o desafio também passa pela capacidade de comunicação do setor e pela compreensão da sociedade sobre como funciona o sistema previdenciário. Para ele, a falta de entendimento sobre o modelo de repartição contribuiu para dificultar o debate sobre mudanças estruturais.
“Nós fomos incapazes, até hoje, nós e a indústria, de transmitir essas mensagens. Hoje temos poucas crianças e, amanhã, teremos poucos homens e mulheres trabalhando e contribuindo para pagar uma montanha de velhos. Nós temos que ser os arautos dessa mudança. Se não fizermos nada, vai vir um tsunami social”, afirmou.
Molina também defendeu a criação de uma entidade independente para conduzir a discussão previdenciária, evitando que propostas sejam interpretadas apenas como defesa de interesses do mercado. Para ele, a comunicação precisa tornar mais simples a compreensão do funcionamento da previdência e da necessidade de formação de poupança ao longo da vida.
Ao longo do painel, os participantes convergiram na avaliação de que a longevidade exige uma mudança estrutural na forma como o brasileiro se prepara financeiramente para o futuro. O desafio envolve não apenas o equilíbrio das contas públicas, mas também a inclusão de trabalhadores, a educação financeira, a criação de produtos adequados e o fortalecimento da previdência complementar como parte da proteção de longo prazo.

