A decisão do astro inglês Jude Bellingham de estruturar sua carreira por meio de empresas administradas pela própria família vai além da gestão de contratos e direitos de imagem. O modelo, cada vez mais comum entre atletas, artistas e influenciadores, transforma a carreira em um negócio e amplia a exposição a riscos jurídicos, financeiros, cibernéticos e patrimoniais. Para especialistas, essa nova realidade abre espaço para que o corretor deixe de atuar apenas na venda de seguros e assuma um papel estratégico na proteção de patrimônios milionários.
A carreira de Jude Bellingham não é administrada apenas dentro dos gramados. Um dos principais jogadores do futebol mundial passou a gerenciar seus negócios por meio de uma estrutura empresarial formada pela Bello & Bello Ltd. e pela recém-criada Bellingham Media, ambas com participação direta da família na administração.
Cada vez mais comum entre atletas de elite, esse modelo permite centralizar contratos publicitários, gestão da imagem, investimentos e planejamento patrimonial em empresas próprias. Em contrapartida, cria uma série de riscos corporativos que exigem um olhar especializado sobre gestão de riscos e proteção securitária.
Para o presidente do Sincor-MG, Gustavo Bentes, quando um atleta deixa de atuar apenas como pessoa física contratada por um clube e passa a operar por meio de uma estrutura societária complexa, ele passa a carregar riscos típicos do ambiente empresarial, potencializados pela enorme exposição pública.
Segundo ele, um dos principais desafios está na responsabilidade civil. As empresas do atleta passam a assinar contratos comerciais, contratar prestadores de serviços, organizar eventos e administrar funcionários. Nesse contexto, “falhas na prestação desses serviços, acidentes com terceiros ou quebras involuntárias de contratos de imagem podem gerar processos de indenização milionários”.
Outro ponto destacado pelo especialista envolve a atuação dos familiares na administração dessas empresas. De acordo com Bentes, é comum que pais e parentes ocupem cargos de direção, assumindo decisões estratégicas relacionadas a investimentos, gestão tributária e contratações.
Essas escolhas, explica, podem expor o patrimônio pessoal dos administradores. “Os pais e familiares frequentemente assumem cargos de diretores e administradores dessas empresas”, afirma, acrescentando que decisões equivocadas podem resultar em processos movidos por credores ou parceiros comerciais.
A segurança digital também entra na lista de preocupações. Segundo Gustavo Bentes, empresas responsáveis pela gestão da imagem de atletas de alto rendimento trabalham diariamente com “dados altamente confidenciais, contratos sob sigilo de mercado e senhas de redes sociais com milhões de seguidores”.
Na avaliação do presidente do Sincor-MG, um vazamento de informações, um ataque de ransomware ou o sequestro de contas oficiais pode causar “prejuízos financeiros e de reputação devastadores”, comprometendo tanto os negócios quanto a imagem construída pelo atleta.
Outro risco apontado por Bentes é a dependência da empresa em relação ao próprio jogador.
Segundo ele, toda a operação empresarial gira em torno de uma única pessoa. “Uma invalidez temporária ou permanente, ou mesmo uma fatalidade com o homem-chave, paralisa imediatamente a geração de receita da empresa, enquanto os custos fixos, salários de funcionários e contratos de longo prazo continuam ativos.”
Proteção vai muito além do seguro de vida
Para Gustavo Bentes, proteger uma estrutura empresarial como a de Bellingham exige um conjunto de soluções integradas, envolvendo seguros corporativos e pessoais.
Entre elas, ele destaca o seguro D&O (Directors & Officers), considerado “indispensável para proteger o patrimônio pessoal dos familiares” que atuam como representantes, empresários ou gestores da holding familiar, resguardando seus bens diante de processos decorrentes de decisões administrativas.
O especialista também cita o seguro de Responsabilidade Civil Profissional (E&O), que protege a empresa contra reclamações relacionadas a “erros profissionais, difamação involuntária, violação de direitos autorais ou uso indevido de propriedade intelectual” em contratos de publicidade.
Já o seguro Cyber, explica Bentes, cobre os custos de recuperação de sistemas, lucros cessantes decorrentes da interrupção das operações digitais e despesas relacionadas a investigações e multas ligadas à legislação de proteção de dados.
Outra ferramenta considerada essencial é o seguro Homem-Chave.
Segundo o presidente do Sincor-MG, trata-se de “um seguro de vida estruturado em nome da empresa, onde o atleta é o segurado e a empresa é a beneficiária”. Caso ocorra uma invalidez ou morte, a indenização permite que a empresa honre compromissos financeiros, cumpra contratos e se reorganize sem comprometer sua continuidade.
Bentes também chama atenção para a importância dos seguros de vida resgatáveis associados ao planejamento sucessório.
“Atletas têm carreiras curtas e acumulam patrimônio rapidamente”, afirma. Por isso, segundo ele, estruturar apólices que garantam uma sucessão patrimonial rápida e evitem que os bens fiquem bloqueados em longos inventários “é a base de uma transição de riqueza saudável para as futuras gerações”.
Novo espaço para os corretores
Na avaliação de Gustavo Bentes, esse movimento representa “um oceano azul para o mercado de seguros” e exige uma mudança no posicionamento dos profissionais.
“O corretor de seguros tradicional precisa evoluir para a figura do consultor de gerenciamento de riscos”, afirma.
Segundo ele, existe uma grande oportunidade para profissionais especializados em family offices e holdings de imagem, já que ainda há poucos corretores preparados para atuar em conjunto com advogados e contadores na construção de programas de seguros personalizados.
“O corretor que consegue sentar com advogados e contadores de um atleta para desenhar um programa de seguros sob medida se torna um parceiro estratégico vitalício”, destaca.
Bentes observa ainda que muitos atletas e seus familiares chegam ao sucesso financeiro sem experiência prévia em gestão patrimonial.
Nesse cenário, o corretor também assume um papel educativo. “O corretor tem a oportunidade de educá-los sobre a diferença entre ter dinheiro e proteger o dinheiro”, mostrando que perdas decorrentes de contratos de patrocínio, processos de imagem ou outras disputas podem ser mitigadas por meio do seguro.
O presidente do Sincor-MG ressalta que essa realidade já não se limita ao futebol.
“O modelo do Bellingham não se restringe mais ao futebol. Influenciadores digitais, gamers e artistas hoje faturam milhões e operam exatamente sob a mesma estrutura”, afirma. Para ele, trata-se de “um mercado gigante e muito desassistido de proteção profissional”.
Por fim, Bentes destaca que a atuação consultiva gera novas oportunidades de negócios para os corretores. “Ao blindar a empresa do atleta, o corretor ganha a confiança para estruturar a vida pessoal de toda a família”, abrindo espaço para soluções como previdência privada, planejamento sucessório internacional e seguros de saúde de alto padrão para todo o ecossistema familiar.

