Notícias | 12 de junho de 2026 | Fonte: CQCS | Gabrielly Marqueton

Copa do Mundo 2026 mostra como o seguro protege uma cadeia bilionária dentro e fora dos gramados

Além da disputa pelo título mundial, a Copa do Mundo também coloca em evidência uma complexa estrutura de proteção financeira que envolve atletas, clubes, patrocinadores, emissoras e organizadores. Em um cenário marcado por contratos milionários, direitos de transmissão e acordos comerciais globais, os seguros assumem papel fundamental na mitigação de riscos capazes de gerar impactos financeiros expressivos durante a competição.

Segundo Dorival Alves de Sousa, delegado representante da Fenacor, a Seleção Brasileira é muito mais do que uma equipe esportiva.

“A Seleção Brasileira é, simultaneamente, equipe esportiva e ativo econômico. Atletas com contratos elevados, receitas dependentes de imagem e transmissões, acordos comerciais e uma cadeia de fornecedores formam uma concentração de valor imensa.”

O especialista explica que essa estrutura movimenta valores bilionários e está exposta a uma série de riscos capazes de gerar perdas diretas e indiretas para clubes, patrocinadores, transmissoras e demais envolvidos no ecossistema do futebol. Segundo ele, um incidente relevante durante o torneio pode resultar em prejuízos que alcançam dezenas de milhões de dólares.

Nesse cenário, o mercado de seguros assume papel estratégico na proteção dos diversos interesses envolvidos. Conforme explica o especialista, seguradoras e resseguradoras realizam um processo detalhado de avaliação que começa pelo inventário dos ativos, incluindo jogadores, comissão técnica, contratos de patrocínio e direitos de transmissão. Em seguida, são feitas projeções financeiras sobre receitas futuras e análises de exposição ao risco, permitindo a definição de limites de cobertura, franquias e, quando necessário, o compartilhamento das responsabilidades com grandes mercados internacionais de resseguro.

Uma das principais ferramentas de proteção existentes durante o Mundial é o Club Protection Programme (CPP), mantido pela FIFA. O programa foi criado para indenizar clubes quando atletas convocados para seleções nacionais sofrem lesões durante competições contempladas pela entidade e ficam afastados das atividades esportivas.

Para Liciane da Luz, fundadora e CEO da Atleta Seguro, a iniciativa representa um importante mecanismo de proteção, mas não esgota os riscos financeiros envolvidos.

“O Programa de Proteção de Clubes da FIFA é uma importante ferramenta de amparo financeiro, mas sua finalidade é específica: indenizar os clubes quando um atleta convocado para uma seleção nacional sofre uma lesão que o afaste das atividades durante competições previstas pelo programa.”

Segundo a executiva, atletas de alto valor de mercado costumam exigir soluções complementares, já que os impactos de uma lesão grave podem ultrapassar o período de afastamento do jogador, afetando negociações futuras, contratos de transferência e até o planejamento esportivo das equipes.

“Por esse motivo, muitos clubes contratam seguros complementares com cobertura para invalidez profissional permanente, tendo o próprio clube como beneficiário. Nesses casos, a apólice tem como objetivo proteger o investimento realizado naquele atleta, garantindo uma indenização caso ele fique definitivamente incapacitado para exercer sua atividade profissional.”

Embora a FIFA mantenha mecanismos de proteção para os clubes durante a competição, especialistas destacam que a gestão de riscos envolvendo atletas vai além das coberturas vinculadas ao torneio. Questões relacionadas à proteção financeira de longo prazo também vêm ganhando espaço nas discussões sobre o esporte de alto rendimento.

Segundo a MAG Seguros, muitos atletas contam com seguros, assistência médica e programas de apoio oferecidos por clubes, federações e entidades esportivas enquanto mantêm vínculo profissional. No entanto, essas proteções costumam estar diretamente ligadas à atividade esportiva e tendem a deixar de existir quando a carreira chega ao fim, seja por aposentadoria, lesão ou mudança de profissão.

Para Rodrigo Cunha, gerente de Produtos e Inteligência de Mercado da MAG Seguros, a mesma disciplina aplicada pelos atletas na preparação esportiva deve ser incorporada ao planejamento financeiro.

“O atleta sabe que a preparação é fundamental para alcançar resultados dentro do esporte. Essa mesma lógica vale para a vida financeira. Ter mecanismos de proteção adequados permite enfrentar imprevistos sem comprometer projetos pessoais, familiares e profissionais.”

Nesse contexto, o Seguro de Vida vem ampliando sua relevância dentro do planejamento patrimonial dos atletas. Segundo Rodrigo Cunha, o produto evoluiu significativamente nos últimos anos e passou a oferecer coberturas capazes de atender situações que vão além da proteção tradicional.

“Hoje, o produto vai muito além da indenização por morte. As coberturas em vida passaram a oferecer suporte financeiro em situações que podem afetar diretamente a capacidade de gerar renda e executar projetos de longo prazo.”

Entre as principais coberturas disponíveis para profissionais do esporte estão a Invalidez Permanente por Acidente (IPA), que garante indenização em casos de perda total ou parcial da capacidade física decorrente de acidentes; a Invalidez Funcional Permanente Total por Doença (IFPD), destinada a situações que provoquem perda permanente da autonomia funcional; e as coberturas para Doenças Graves, que oferecem suporte financeiro diante de diagnósticos de enfermidades como câncer, AVC, infarto e doenças neurológicas.

Mas os riscos de uma Copa do Mundo vão muito além da integridade física dos atletas. Dorival Alves de Sousa explica que programas de seguros estruturados para grandes eventos esportivos costumam envolver coberturas para acidentes pessoais, vida e incapacidade, cancelamento ou interrupção de eventos, responsabilidade civil, proteção de imagem e direitos de transmissão, transporte de equipamentos, logística internacional, riscos cibernéticos e proteção de dados.

A realização da Copa do Mundo em três países aumenta a complexidade da operação, exigindo programas coordenados internacionalmente para evitar lacunas de cobertura decorrentes de diferentes legislações, exigências regulatórias e responsabilidades civis.

Nesse processo, o corretor de seguros assume protagonismo. De acordo com Dorival Alves de Sousa, sua atuação vai muito além da simples intermediação de apólices, abrangendo desde o mapeamento das exposições até a coordenação de programas complexos de seguros e resseguros.

“O corretor de seguros como peça-chave deixa de ser apenas intermediário: torna-se consultor estratégico.”

Segundo o delegado representante da Fenacor, cabe ao profissional estruturar programas multilinha, negociar coberturas adequadas, assessorar medidas de mitigação de riscos e coordenar eventuais sinistros durante grandes eventos internacionais.

O especialista destaca ainda que a Copa do Mundo representa uma importante oportunidade para o mercado de seguros. A demanda por soluções relacionadas a pessoas, responsabilidade civil, transporte internacional, proteção patrimonial, riscos cibernéticos e proteção de receitas tende a crescer à medida que aumenta a exposição financeira de patrocinadores, organizadores e demais participantes do evento.

Na avaliação de Liciane da Luz, grandes eventos esportivos ampliam a percepção dos riscos envolvidos na indústria do esporte e impulsionam a busca por soluções especializadas. Além dos seguros voltados aos atletas, cresce a demanda por coberturas para eventos esportivos, responsabilidade civil, acidentes pessoais, proteção patrimonial, equipamentos esportivos, viagens, delegações e prestadores de serviço, além de soluções relacionadas à interrupção ou cancelamento de eventos.

“Para os corretores especializados, períodos como a Copa do Mundo representam uma oportunidade importante de demonstrar que o seguro não atua apenas como mecanismo de indenização, mas como uma ferramenta estratégica de gestão de riscos para todo o ecossistema esportivo.”

A dimensão econômica envolvida ajuda a explicar essa necessidade. Segundo Dorival Alves de Sousa, a Seleção Brasileira possui valor de mercado estimado em cerca de 1,07 bilhão de euros, aproximadamente R$ 6,7 bilhões, figurando entre as seleções mais valiosas do planeta. Para proteger patrimônios dessa magnitude, seguradoras e resseguradoras internacionais compartilham responsabilidades financeiras e estruturam mecanismos capazes de absorver perdas decorrentes de lesões incapacitantes, acidentes ou outros eventos de grande impacto.

“Proteger a Seleção é proteger uma cadeia econômica e simbólica que vai muito além do gramado.”

Em um cenário de tamanha exposição financeira, os seguros se consolidam como ferramenta fundamental para garantir a continuidade das operações e proteger uma cadeia econômica que movimenta bilhões de dólares em todo o mundo.

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