Ao estruturar a gestão de riscos, as empresas brasileiras precisam ir além da preservação do patrimônio físico. O indicador mais crítico hoje é mensurar quanto tempo o negócio levaria para voltar a operar e faturar após uma paralisação imprevista.
O alerta é de André Cabral, gerente de Habitat e Competitividade da Seguros SURA Brasil. Segundo ele, bloqueios em rodovias, tempestades severas ou falhas em serviços essenciais mostram que uma fábrica pode permanecer com suas paredes intactas, mas completamente inoperante por falta de matéria-prima ou energia.
“O maior perigo raramente está contido nos limites físicos da empresa, mas em pontos vulneráveis que sequer foram mapeados”, afirma Cabral. Ele aponta que muitas companhias acreditam ter cadeias diversificadas, mas descobrem na crise que seus fornecedores dependem do mesmo porto, fabricante ou infraestrutura. “Não lidamos necessariamente com riscos inéditos, mas com o efeito cascata de ameaças conhecidas.”
Nesse cenário, Cabral destaca a diferença entre o fôlego financeiro da organização e o prazo real de recuperação: se a empresa tem caixa para resistir por dois meses, mas a reposição de um maquinário leva nove, a sobrevivência do negócio fica em xeque.
É aí que o seguro assume função estratégica. Em vez de apenas cobrir a reconstrução de bens, o programa de proteção deve contemplar coberturas como lucros cessantes e interrupção contingente de negócios (que protege contra paralisações originadas em terceiros, como fornecedores e clientes essenciais).
“A questão deixa de ser apenas quanto custa reconstruir um ativo e passa a ser quanto tempo a empresa leva para voltar a operar com normalidade”, resume o executivo.
Para mitigar a vulnerabilidade, a recomendação é abandonar análises pautadas apenas no passado e rodar simulações de estresse de 30, 60 e 90 dias sem insumos ou conexões vitais. Essas estimativas permitem desenhar planos de contingência realistas e dimensionar apólices com Limites Máximos de Garantia (LMG) alinhados à real necessidade de caixa da operação.

