O uso estratégico de dados está transformando a maneira como as seguradoras avaliam riscos, estruturam produtos e se relacionam com os clientes. A qualidade das informações, a integração entre sistemas e a capacidade de transformar dados em decisões mais precisas foram alguns dos pontos discutidos na palestra “Dados Modelando o Futuro do Seguro”, realizada nesta quarta-feira (4), durante o CQCS Inovação 2026, no Transamerica Expo Center, em São Paulo. Participaram do debate Josemilson Silva, CIO da Allianz; Angelica Tozetti, superintendente de Produtos de Seguros da Trillia; e Tatiana Sanches, vice-presidente de Vendas Brasil da FICO.
Josemilson Silva apresentou a evolução do uso de dados a partir de sua experiência profissional e destacou como a organização das informações pode fazer diferença em projetos de transformação tecnológica. Ao relembrar processos de migração de sistemas, citou a integração com a SulAmérica, em 2020, como exemplo de um projeto bem-sucedido graças ao mapeamento das informações e à utilização de APIs.
Na ocasião, foram migradas cerca de 2 milhões de apólices em aproximadamente um ano, além da desativação de mais de 120 aplicações. O projeto, que tinha prazo de 30 meses estabelecido pelo grupo, foi concluído antecipadamente.
Para o executivo, a experiência demonstrou que a estruturação dos dados é fundamental para viabilizar mudanças tecnológicas e melhorar os resultados das companhias. Ele também ressaltou que os investimentos em tecnologia precisam ir além da produtividade, contribuindo para identificar novas oportunidades de negócio.
“Essa experiência reforçou a importância de ter dados estruturados e qualificados. Olhando para o futuro, vemos que as seguradoras estão investindo cada vez mais em tecnologia, não apenas para aumentar a produtividade e a eficiência dos funcionários, mas também para encontrar novas oportunidades e melhorar os resultados”, afirmou.
Angelica Tozetti destacou que a qualidade das informações é o ponto de partida para desenvolver modelos analíticos capazes de apoiar as seguradoras. À frente da área de Produtos de Seguros da Trillia, linha de negócios de dados e analytics da B3, ela explicou que a companhia trabalha com informações próprias e de parceiros para complementar as bases das empresas e aprimorar a avaliação de riscos.
A executiva chamou a atenção para dois aspectos: os dados acessíveis e os exclusivos. Segundo ela, não basta ter informações disponíveis; é necessário avaliar sua origem, qualidade, atualização e finalidade. Também ressaltou o potencial de bases com abrangência nacional sobre registros de veículos e imóveis para ampliar o conhecimento das seguradoras sobre seus clientes.
“Não basta ter os dados: é preciso trabalhá-los de maneira adequada para alcançar o objetivo desejado. Nossa proposta é complementar o conhecimento que a seguradora já possui, enriquecer sua base de informações e permitir uma segmentação mais precisa, respeitando o conhecimento que a própria companhia tem do seu negócio”, explicou.
Entre as soluções apresentadas, Angelica citou o Super Score, que reúne informações do ecossistema da B3 e de parceiros, incluindo dados de crédito, para complementar os modelos de avaliação de risco das seguradoras. Também apresentou o produto de ancestralidade, que oferece uma camada adicional de inteligência para apoiar ajustes na precificação.
Integração de dados permite decisões mais consistentes
Tatiana Sanches abordou a importância de integrar informações para que diferentes sistemas e agentes de inteligência artificial trabalhem com o mesmo contexto do cliente. Para ilustrar o desafio, apresentou um cenário em que um consumidor solicita a renovação do seguro do automóvel por meio de uma mensagem no WhatsApp, pedindo que a seguradora atualize a contratação e o avise caso o preço aumente.
Segundo a executiva, uma solicitação aparentemente simples envolve diferentes etapas, como localização da apólice, análise de risco, atualização de endereço, precificação e comunicação com o cliente. O problema surge quando os sistemas envolvidos não compartilham as mesmas informações ou trabalham com bases desatualizadas.
Tatiana alertou que um dos riscos da inteligência artificial é justamente quando ela executa corretamente uma tarefa, mas utiliza informações incompletas ou desconectadas de outros processos da empresa.
“Quando pensamos em inteligência artificial, é natural que nossa primeira preocupação seja com situações em que a IA erra ou faz algo que não deveria. Mas o erro mais importante, talvez o mais difícil de identificar e para o qual precisamos estar cada vez mais atentos, é aquele que acontece quando a IA faz exatamente o que deveria fazer”, destacou.
A executiva explicou que a solução passa pela construção de uma visão transversal dos dados, capaz de reunir informações sobre endereço, histórico de relacionamento, comportamento e perfil financeiro do consumidor. Dessa forma, as decisões deixam de considerar apenas informações isoladas e passam a levar em conta o contexto de cada cliente.
Como exemplo, citou a possibilidade de identificar padrões de comportamento durante as renovações, como clientes que deixam de contratar quando o preço aumenta mais de 10%. Com esse conhecimento disponível nos diferentes processos, a seguradora pode oferecer respostas mais coerentes e personalizadas.
Tatiana ressaltou que essa integração beneficia toda a cadeia de relacionamento: o consumidor recebe uma experiência mais adequada, o corretor conta com informações consistentes para orientar o atendimento e a seguradora reduz ruídos entre seus processos.
A discussão evidenciou que o futuro da análise de riscos e da tomada de decisões no mercado de seguros depende não apenas da quantidade de informações disponíveis, mas da capacidade de organizá-las, integrá-las e transformá-las em inteligência para o negócio.

