Os próximos três anos que separarão adaptação de obsolescência
De acordo com uma matéria do Insurance Business, os próximos três anos serão decisivos para os corretores de seguros. Com a digitalização massiva, esses profissionais precisarão incorporar capacidades digitais ao coração do negócio, caso contrário terão de lidar com desvantagens estruturais em custo, agilidade e experiência do cliente. Para lideranças globais, o período será um divisor de águas: empresas que souberem integrar tecnologia, dados e IA à sua estrutura sairão na frente.
Pressão simultânea sobre consumo, regulação e concorrência
A pressão vai se intensificar em múltiplas frentes: no comportamento do consumidor, cada vez mais habituado a serviços sob demanda; no campo regulatório, que expande o escrutínio sobre algoritmos, tratamento de dados e segurança cibernética; e na estrutura competitiva do mercado, que incorpora operadores digitais com modelos mais leves e orientados por tecnologia.
De que forma isso acontece? Consumidores demandando jornadas personalizadas e respostas em tempo real e órgãos supervisores aprofundando a fiscalização sobre o uso de inteligência artificial, governança de dados e proteção contra incidentes cibernéticos. Ao mesmo tempo, insurtechs, corretoras digitais e plataformas de IA, como a OpenAI, estão expandindo o leque de soluções disponíveis, alterando o ritmo da concorrência. Dado todo esse cenário, a prevalência dos corretores está e estará ainda mais conectada à sua maturidade tecnológica.
No Brasil, entidades representativas estão reforçando alianças e capacitação para sustentar o protagonismo da categoria, mostrando a necessidade de qualificação diante do contexto digital.
Tecnologia, o destino das profissões e onde o corretor se encaixa
Ao longo da história, transformações tecnológicas mudaram o mundo do trabalho. Profissões como operadores de telefonia, telegrafistas e datilógrafos foram substituídas por sistemas automatizados e ferramentas digitais. Com a reorganização das relações entre trabalho e tecnologia, algumas carreiras desapareceram, outras nasceram e muitas precisaram se adaptar para continuar sobrevivendo no mercado. Por outro lado, a mesma evolução que extinguiu certas ocupações criou oportunidades inéditas, dando origem a uma série de profissões que eram impensáveis há poucas décadas. Especialistas em dados, desenvolvedores de software, arquitetos de soluções em nuvem, analistas de cibersegurança e designers digitais são apenas alguns exemplos de carreiras que surgiram em resposta às novas demandas digitais. Dentre as profissões que permanecem, mas exigem adaptação, tem-se, por exemplo, os trabalhadores de áreas administrativas, jornalistas, contadores e operadores, que passaram a incorporar habilidades tecnológicas e analíticas para atender às exigências de um mercado mais dinâmico.
O corretor de seguros se encaixa justamente nesse último grupo. Sua função de orientar clientes, analisar riscos e construir confiança permanece relevante, mas as ferramentas mudaram, com a chegada da IA, plataformas digitais, pagamentos integrados e atendimento automatizado ocuparam as operações. Porém, em vez de temer a tecnologia, o corretor deve incorporá-la à rotina e fortalecer seu papel consultivo em um ambiente que combina conhecimento humano e recursos digitais.
Reação do mercado ao avanço das plataformas de IA
De acordo com uma divulgação do Insurance Innovation Reporter, o lançamento do aplicativo “Insurify” integrado ao ChatGPT, que permite pesquisar e comparar seguros de automóvel diretamente na plataforma de IA, provocou reação imediata no mercado, com queda nas ações de grandes corretoras como a Marsh McLennan, Aon e WTW. Apesar do impacto inicial, a iniciativa parece um sinal de aceleração da transformação digital no setor. Essas companhias concentram sua receita principalmente em consultoria e soluções corporativas complexas, não na venda massificada de seguros pessoais. O debate levantado, portanto, está em como ferramentas como OpenAI (ChatGPT), Anthropic (Claude) ou Google (Gemini) podem, no médio prazo, disputar espaços na intermediação e consultoria empresarial.
Se esse panorama evoluir, a resposta tende a ser a intensificação do uso de IA preditiva, generativa e agentes inteligentes dentro das próprias corretoras. Com isso, ao automatizar cotações e atendimentos, soluções baseadas em IA reduzem etapas e ajudam a melhorar o padrão de experiência do consumidor. Para os corretores, processos mais simples podem desaparecer, mas a demanda por atuação consultiva em seguros empresariais e soluções personalizadas devem continuar.
Pagamento integrado: Corretor precisa coordenar toda a experiência do cliente
A modernização dos meios de pagamento também mexeu com a atuação das corretoras. Conforme destacou o portal Finance Magnates, a integração da Paysafe à plataforma aberta da Spreedly, que conecta comerciantes a mais de 140 gateways, ilustra essa transição para modelos mais flexíveis e conectados. A estrutura reduz a dependência de um único provedor e permite o roteamento inteligente das transações. Se houver altas taxas de recusa ou instabilidade em determinada região, os pagamentos podem ser direcionados a outro operador, diminuindo riscos e aumentando a eficiência. Para o corretor, esse cenário exige integração tecnológica mais encorpada, capaz de unificar cotação, contratação e liquidação financeira em uma jornada contínua. Estruturas fragmentadas perdem competitividade diante da demanda por rapidez, estabilidade e transparência. O papel do profissional, portanto, se amplia e, além de intermediar apólices, ele precisa coordenar toda a experiência do cliente em um ambiente digital integrado.
Parcerias e representação institucional como estratégia de permanência
No Brasil, a articulação entre entidades representativas têm ganhado peso como estratégia de sustentação do corretor no novo ambiente regulatório e tecnológico. Em encontro promovido pela Aconseg-SP, o presidente do Sincor-SP, Boris Ber, destacou que a cooperação com as assessorias amplia a escala, eficiência e acesso a mercados, além de fortalecer o diálogo institucional em torno de temas como inovação, inteligência artificial e mudanças legislativas. A mensagem central foi de que a transformação digital é irreversível e exige preparo contínuo.
As entidades têm investido em estudos, projetos e iniciativas para apoiar os corretores na adaptação a um cenário em que tecnologia e IA reconfiguram práticas e modelos de negócio. Nesse movimento, a Fenacor também apoia ações de capacitação, como a cartilha técnica desenvolvida pela ENS. O conjunto dessas iniciativas reforça que a permanência no mercado depende de estrutura coletiva, atualização constante e representação institucional ativa diante de um setor cada vez mais complexo.
Inteligência artificial: ameaça ou aliada do corretor?
A adoção da inteligência artificial na distribuição de seguros é uma mudança estrutural no modelo de intermediação. Recursos como chatbots, análise preditiva e automação tornam cotações mais rápidas, ofertas mais personalizadas e decisões baseadas em dados mais precisas. Ainda assim, a digitalização não substitui o corretor, exige uma mudança na sua atuação. O foco deixa de ser competir com a tecnologia e passa a ser utilizá-la como suporte estratégico. Ao assumir tarefas operacionais, organizar informações e apontar oportunidades de negócios, a IA libera o corretor para fortalecer o relacionamento, ampliar a consultoria e atuar com mais profundidade em soluções complexas. Proximidade com o cliente, leitura do contexto regional e capacidade de transformar cláusulas técnicas em orientação clara continuam sendo diferenciais relevantes. A confiança, pilar do setor, não é automatizável. Nesse cenário, a permanência no mercado dependerá da combinação entre recursos digitais e expertise humana, em uma atuação que une dados, sistemas e aconselhamento qualificado.
O corretor diante da própria atualização
A história mostra que a tecnologia não pede licença, ela realmente muda estruturas, elimina funções e cria novas possibilidades. No mercado de seguros, essas mudanças já estão em curso através de plataformas baseadas em inteligência artificial, jornadas digitais integradas e sistemas financeiros mais sofisticados que estão reconfigurando a lógica da distribuição. No entanto, diferentemente de profissões que desapareceram ao longo do tempo, o corretor não está diante de uma sentença de extinção, mas de um teste de evolução. No Brasil, entidades representativas já estão se mobilizando para fortalecer a base profissional e preservar o protagonismo da categoria.
Os corretores que combinarem tecnologia, capacitação e relacionamento tendem a transformar esses elementos em oportunidade de evolução do próprio trabalho. Fica claro que a era digital não elimina o corretor, ela exige uma versão mais preparada, analítica, conectada e consciente do seu papel na engrenagem da proteção.

