O cancelamento do show de Bad Bunny em Milão, na Itália no dia 18 de julho, após uma forte tempestade, reacendeu uma discussão importante para o setor de entretenimento: como produtores e organizadores conseguem lidar com os prejuízos financeiros quando um espetáculo precisa ser interrompido ou cancelado por motivos alheios à sua vontade? Em situações como essa, o seguro para cancelamento de eventos pode ser uma importante ferramenta para reduzir impactos financeiros e garantir que decisões tomadas em nome da segurança não comprometam toda a operação.
Segundo Mauricio Masferrer, diretor executivo de Negócios Corporativos da Allianz Seguros e Managing Director da Allianz Commercial Brasil, existe uma modalidade específica para proteger organizadores, promotores e empresas contra prejuízos decorrentes de situações que impeçam a realização de um evento. A cobertura pode contemplar cancelamento, adiamento, interrupção ou transferência do espetáculo, desde que a causa esteja prevista na apólice.
Além do cancelamento, o seguro pode incluir coberturas para situações como não comparecimento de pessoas fundamentais ao evento, Responsabilidade Civil, danos a estruturas temporárias, instrumentos musicais e cenografia.
“Este produto foi criado para proteger organizadores, promotores e empresas contra prejuízos financeiros decorrentes de imprevistos que possam comprometer a realização de um evento, seja um show, apresentação artística ou um festival”, explica Masferrer.
Fenômenos climáticos também estão entre os riscos que podem ser considerados na contratação. Segundo Masferrer, dependendo das condições da apólice, eventos como ventos fortes, tempestades, chuvas intensas, inundações e outros fenômenos naturais podem ter cobertura. “Em eventos realizados ao ar livre, essa proteção ganha ainda mais importância, já que uma tempestade, por exemplo, pode comprometer a estrutura montada para o evento e até mesmo impedir que ele seja realizado com segurança”, afirma.
O executivo ressalta, porém, que a cobertura depende das condições contratadas e da análise das características de cada evento.
A preocupação com eventos climáticos severos também vem ganhando espaço na indústria de entretenimento. Para Masferrer, os organizadores estão mais atentos à necessidade de avaliar os riscos antes da realização dos espetáculos. “O seguro passa a ser um instrumento estratégico para mitigar perdas e proporcionar maior segurança aos envolvidos”, destaca.
Segundo Ricardo Minc, diretor de Esportes, Mídia e Entretenimento da Howden Brasil, o seguro de cancelamento protege os interesses financeiros do promotor, produtor, organizador, patrocinador e demais envolvidos quando o espetáculo precisa ser cancelado, interrompido, adiado ou reduzido por uma causa prevista na apólice.
De acordo com Minc, a cobertura pode incluir despesas que não podem ser recuperadas, perda da receita esperada e gastos adicionais realizados para evitar o cancelamento. A indenização, entretanto, depende das condições contratadas.
O momento do cancelamento também influencia diretamente no tamanho da perda. “Quando o cancelamento acontece no dia do evento, praticamente todo o investimento já foi realizado. O palco foi montado, os equipamentos instalados, as equipes mobilizadas e o artista já chegou ao local. Ao mesmo tempo, pode ser necessário devolver integralmente a receita da bilheteria”, afirma.
Outro ponto relevante é que o cancelamento do espetáculo não significa necessariamente que o artista deixará de receber o cachê.
Segundo Minc, contratos internacionais podem estabelecer que, se o artista estiver presente, disponível e pronto para se apresentar, ele mantenha o direito à remuneração mesmo quando o show é cancelado por uma condição climática severa.
“O artista cumpriu sua obrigação contratual ao reservar a data, viajar e mobilizar toda a equipe. Em muitos casos, a cláusula de força maior não elimina automaticamente o direito ao pagamento”, explica.
Por isso, contratos de grandes eventos podem exigir a contratação do seguro de cancelamento justamente para garantir recursos para essas obrigações caso o espetáculo não seja realizado.
Para Masferrer, o corretor tem papel fundamental na estruturação dessa proteção. Além de identificar os riscos, o profissional precisa compreender as características do evento, os investimentos previstos e as condições necessárias para a contratação.
“É necessário, por exemplo, respeitar a antecedência mínima de 15 dias para o recebimento da ordem de emissão do seguro, além de fornecer informações precisas sobre os investimentos e as despesas previstas para o evento”, destaca o executivo da Allianz.
Minc também reforça a importância de analisar os contratos envolvidos na produção. “O corretor precisa compreender toda a cadeia financeira e contratual do evento, identificando quais riscos estão cobertos, quais permanecem excluídos e quais extensões precisam ser negociadas.”
Na avaliação do especialista, uma diferença na redação da apólice pode representar a cobertura, ou não, de prejuízos milionários. “O seguro deixou de ser uma formalidade e passou a integrar o gerenciamento de riscos do evento”, conclui Minc.
Cancelamento de show de Bad Bunny destaca importância do seguro para grandes eventos
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