Notícias | 7 de agosto de 2026 | Fonte: Globo Rural

Empresas ensaiam volta do seguro de renda ao produtor

Enquanto governo e especialistas debatem mudanças na estrutura do seguro rural para ampliar o mecanismo, seja nos níveis de subvenção ou nos formatos de produtos ofertados, as seguradoras estão buscando alternativas. E uma das modalidades que estão na mesa é o seguro de renda. Isso porque, a queda nos preços das commodities é um dos fatores responsáveis pela crise no setor agropecuário atualmente, ao lado de eventos climáticos adversos, custos elevados, juros altos e restrição ao crédito.

“O mercado tem que voltar a ter seguro de renda”, disse Daniel Nascimento, presidente da comissão rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg) e gerente executivo de seguros rurais da BrasilSeg, ontem durante o evento World Climate Summit.

Ao Valor, o executivo afirmou que essa modalidade de seguro foi interrompida desde a safra 2020/21, quando muitas seguradoras decidiram sair do segmento após pagarem níveis elevados de indenização. Agora, a retomada do seguro de renda é vista como uma forma de diversificação de produtos.

“Algumas seguradoras já estão se aventurando e passaram a ofertar o seguro de renda em projetos-pilotos. Pode não ter uma massificação deste tipo de produto, mas é uma forma de diversificar o risco, diante da necessidade de ter novos produtos, novos serviços”, afirmou.

“É uma forma de não colocar todos os ovos na mesma cesta”, enfatizou Nascimento, citando que o seguro paramétrico é outra modalidade que tem crescido pelo mesmo motivo — a diversificação de produtos de seguro.

O representante da FenSeg defendeu que é necessário melhorar as parcerias público-privadas e que é fundamental a construção de um banco de dados agropecuários mais robusto para dar suporte ao desenvolvimento de novos produtos de seguro rural.

“Hoje, o grande desafio do mercado segurador é fazer o seguro por talhão, por exemplo. As seguradoras têm que se apropriar de informações para dar melhores condições ao produtor e, de fato, tratar diferente e não igual a todo mundo”, ponderou.

Coordenador do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro), Guilherme Bastos, que também participou do debate, defendeu que este pode ser um momento oportuno para que a inteligência artificial cumpra o papel de “granularizar essas informações” de bases de dados.

Dessa forma, seria possível ampliar as apostas em outras culturas para além de grãos e tornar o seguro rural mais atrativo aos produtores que estão espalhados pelo Brasil, uma vez que as contratações de apólices ainda estão concentradas na Região Sul.


Para os especialistas, a falta de previsibilidade de recursos do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) e os sucessivos contingenciamentos de verbas do programa são considerados grandes gargalos que poderiam ser superados com a aprovação do projeto de lei 2951, em tramitação no Congresso, que, entre outros pontos, garante um fundo de catástrofe e blinda os recursos do PSR de eventuais contingenciamentos.

O orçamento do PSR para 2026 era de R$ 1,01 bilhão. Teve dois cancelamentos, de R$ 25,7 milhões e de R$ 56,3 milhões, e a verba caiu para R$ 935,5 milhões. Em junho, houve ainda o bloqueio de R$ 461,7 milhões.

Por outro lado, Bastos acredita que as discussões devem ir além da viabilidade de recursos para subvenção de prêmio de seguro. “Precisamos parar de pensar somente no orçamento do PSR”, afirmou. “[Precisamos] começar a mudar o olhar sobre o Plano Safra e olhar com mais devoção para a expansão da utilização de instrumentos de gestão de risco, começando por seguro rural. Isso tem que estar no DNA do governo”, disse o especialista.

No formato atual, sem a verba completa para a subvenção federal, que paga cerca de 30% da apólice, o acesso ao mecanismo de proteção das lavouras fica limitado. O cenário de alto endividamento e margens apertadas também afetam a adesão ao seguro. De janeiro a maio deste ano, as contratações de seguro rural caíram 13,9% em relação ao mesmo período de 2025, conforme dados da Fenseg.

O head de ESG Agro do Itaú BBA, João Adrien, destacou durante o World Climate Summit a necessidade de expansão da mitigação de riscos no campo e de mudança no formato do Plano Safra. “Se tivéssemos focados em seguro [no Plano Safra], não estaríamos como estamos agora [com inadimplência no campo]”, afirmou o executivo.

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