Mercado & Fomento | 31 de outubro de 2025

Seguros para pandemias e catástrofes – Lições que não podemos esquecer

A COVID-19 e as recentes tragédias climáticas, como a que atingiu o Rio Grande do Sul, entre outras mundo afora deixaram marcas profundas na sociedade, e também no mercado de seguros. Essas situações escancararam o quanto o mundo ainda está despreparado para lidar com riscos de grande escala, aqueles que ultrapassam fronteiras e desafiam a capacidade de resposta dos governos e das empresas.

Durante a pandemia, ficou evidente que o risco sistêmico é real e que os modelos tradicionais de precificação não estavam preparados para lidar com algo que afeta simultaneamente pessoas, empresas e governos. Os contratos de interrupção de negócios, por exemplo, mostraram-se ineficazes diante de um evento global dessa magnitude. Isso gerou, em alguns casos, frustração, perda de confiança e um debate profundo sobre o papel social do seguro.

Por outro lado, o período também evidenciou o valor da prevenção, da digitalização e dos seguros voltados à saúde e à renda. Corretores e seguradoras que já investiam em canais digitais conseguiram manter o atendimento, enquanto produtos com foco em bem-estar e telemedicina mostraram-se fundamentais para apoiar famílias e empresas em meio à crise. A principal lição foi clara: pandemias exigem modelos híbridos de proteção, com fundos público-privados e produtos paramétricos, capazes de oferecer indenização automática e rápida quando o evento é declarado.

Já no caso das catástrofes climáticas, a realidade brasileira revelou uma vulnerabilidade ainda maior. No desastre de 2024 no Rio Grande do Sul, menos de 15% das residências estavam seguradas, e apenas uma pequena parte contava com cobertura para enchentes ou deslizamentos. O resultado foi devastador: mais de R$ 10 bilhões em prejuízos e milhares de famílias desamparadas, dependendo exclusivamente da ajuda estatal ou da solidariedade social.

O problema vai além da falta de cultura securitária: o risco climático, antes tratado como exceção, tornou-se rotina. As bases atuariais precisam incorporar novas frequências e severidades, e o país deve investir em pools de resseguro climático, fundos de catástrofe regionais e produtos paramétricos que acelerem a reconstrução. Sem seguros, o tempo de recuperação de uma região se mede em anos, e não em meses.

As lições são inegáveis. É hora de o seguro ser tratado como infraestrutura essencial, assim como a energia, a saúde e o saneamento. O setor tem diante de si uma oportunidade histórica: criar fundos de pandemia e catástrofe com capital público e privado, desenvolver soluções paramétricas baseadas em dados meteorológicos e epidemiológicos, e propor incentivos fiscais que estimulem a contratação de seguros com função social.

Mais do que um produto, o seguro precisa ser visto como política pública de resiliência. E isso passa por educação financeira, campanhas de conscientização e integração de tecnologias como inteligência artificial e dados climáticos, capazes de tornar a precificação mais justa e a prevenção mais eficaz.
O futuro da proteção coletiva depende da capacidade de aprendermos com as crises. As pandemias e as catástrofes nos lembram, de forma dolorosa, que o seguro não é um custo — é um investimento na continuidade da vida, da economia e da esperança.

Marco Antonio Gonçalves

Atualmente, o especialista é presidente do Fórum Mário Petrelli, além de presidir o Conselho Consultivo da MAG Seguros. Desempenha ainda atividades como conselheiro no Conselho de Administração da SICOOB Seguradora e como diretor do Sindicato das Empresas de Seguros e Resseguros de São Paulo (SindsegSP). Formado em Direito, Marco já foi diretor na Câmara Americana de Comércio do Brasil (Amcham) e atuou como vice-presidente da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg). Também esteve no cargo de diretor da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ) e presidiu o Conselho Empresarial de Seguro e Resseguro da mesma instituição. No Grupo Bradesco Seguros, atuou por 40 anos, ocupando diversos cargos de direção, sendo que, quando se aposentou, ocupava o cargo de Diretor Geral da Bradesco Seguros.

FAÇA UM COMENTÁRIO

Esta é uma área exclusiva para membros da comunidade

Faça login para interagir ou crie agora sua conta e faça parte.

FAÇA PARTE AGORA FAZER LOGIN

Valorizamos sua privacidade

O CQCS utiliza cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência, personalizar conteúdos e analisar o nosso tráfego. Ao continuar navegando, você concorda com o uso dessas tecnologias, de acordo com a nossa Política de Privacidade.

Personalizar preferências de consentimento

NecessárioSempre ativo

Estes cookies são essenciais para o funcionamento adequado do site, garantindo recursos básicos de segurança e acessibilidade. Eles não armazenam nenhuma informação pessoal identificável.

Funcional

Permitem que o site lembre das suas escolhas e forneça funcionalidades aprimoradas e personalizadas, como compartilhamento em redes sociais e integração de recursos de terceiros.

Sem cookies para exibir.

Analítico

Ajudam a entender como os visitantes interagem com o site, coletando e relatando informações de forma anônima. Fornecem dados sobre número de visitantes, tempo na página e fontes de tráfego.

Desempenho

Utilizados para compreender e analisar os principais índices de desempenho do site, ajudando a proporcionar uma experiência de navegação otimizada para os usuários.

Sem cookies para exibir.

Anúncio

Usados para fornecer anúncios mais relevantes aos visitantes com base em suas navegações anteriores, além de ajudar a medir a eficácia das campanhas publicitárias.

Sem cookies para exibir.