Ciência Atuarial - Transformando o risco em proteção | 7 de outubro de 2026

A Matemática por Trás da Indústria de Seguros

Seguros

A Ciência Atuarial nasceu de uma das mais antigas inquietações humanas: como  tomar decisões hoje diante de acontecimentos que somente o futuro poderá  revelar? Durante séculos, morte, doença, acidente, incêndio e naufrágio  pertenciam ao território da fatalidade. O indivíduo estava sujeito ao acaso, e a  sociedade pouco podia fazer além de aceitar suas consequências. 

A mudança começou quando a matemática passou a oferecer uma nova maneira  de olhar para esses acontecimentos. O acaso, embora imprevisível em cada  ocorrência particular, poderia revelar padrões quando observado de forma  sistemática. Essa transformação intelectual está intimamente associada a Jacob  Bernoulli que nasceu em 1655 e faleceu em 1705.  

Por meio de sua contribuição foi possível responder a seguinte pergunta: Como  algo imprevisível pode ganhar um preço? 

Dito isso, vamos falar um pouco desse importante matemático e de sua  contribuição para a ciência do seguro moderno. 

Bernoulli viveu em uma época em que a teoria da probabilidade ainda dava seus  primeiros passos. Pascal e Fermat haviam lançado as bases matemáticas para  o estudo dos jogos de azar; Bernoulli avançou decisivamente ao investigar como  observações repetidas poderiam produzir conhecimento sobre eventos futuros.  Sua obra Ars Conjectandi ( A Arte de Conjecturar), publicada postumamente em  1713, tornou-se um marco dessa evolução. 

Sua contribuição mais importante nesse contexto foi a formulação e  demonstração de uma primeira versão daquilo que hoje conhecemos como Lei  dos Grandes Números. Bernoulli mostrou que, em uma sequência de  experimentos independentes com a mesma probabilidade de ocorrência, a frequência observada de determinado resultado tende a se aproximar de sua  probabilidade à medida que o número de observações aumenta. 

É importante fazer uma distinção histórica. Bernoulli não formulou a Lei dos  Grandes Números em toda a generalidade com que a conhecemos atualmente.  Seu resultado correspondia a uma primeira versão, posteriormente identificada  como a Lei Fraca dos Grandes Números de Bernoulli. Ao longo dos séculos  seguintes, outros matemáticos como Poisson, Markov e Kolmogorov, sóm para  citar alguns ampliaram e generalizaram esse resultado, estabelecendo as bases  da moderna teoria da convergência de médias de variáveis aleatórias. Mas o  verdadeiro alcance dessa contribuição aparece quando a transportamos para a  prática atuarial. 

Imagine uma seguradora que comercializa um seguro de vida coletivo com  capital segurado de R$ 300 mil por participante e uma carteira de 100 mil  segurados. Suponha, para simplificar o exemplo, que a experiência atuarial  indique uma probabilidade média anual de morte de 0,30%, ou seja, três mortes  esperadas para cada mil segurados. 

Isso não significa que exatamente 300 pessoas morrerão durante o ano. Significa  que, dadas as características da população e as hipóteses adotadas, 300 mortes  representam a quantidade esperada de eventos. 

Se cada morte gerar uma indenização de R$ 300 mil, o custo esperado dos  benefícios seria de aproximadamente R$ 90 milhões no ano. 

É aqui que a ideia de Bernoulli ganha uma tradução concreta para o trabalho  atuarial. A seguradora não precisa saber quais serão os 300 segurados que  morrerão. Precisa administrar uma carteira na qual, segundo o modelo,  aproximadamente esse número de eventos é esperado. 

Mas a prática atuarial não termina nesse cálculo. 

Suponha que a seguradora tenha despesas administrativas e comerciais  equivalentes a R$ 12 milhões e precise considerar ainda R$ 8 milhões como  margem para oscilações, riscos não modelados e remuneração do capital, em  um exemplo simplificado. O volume necessário para financiar a operação não  seria mais de R$ 90 milhões, mas de R$ 110 milhões.

Se a carteira for composta por 100 mil segurados, isso corresponderia, nesse  exemplo simplificado, a um prêmio médio anual de R$ 1.100 por segurado, antes  de outros ajustes de natureza comercial, tributária ou regulatória. 

Esse exemplo mostra uma característica essencial da ciência atuarial: o prêmio  não é simplesmente a probabilidade de morte multiplicada pelo capital segurado.  Essa é apenas a base do risco esperado. O preço final incorpora despesas,  estrutura financeira, margem de risco, capital, condições contratuais e outras  variáveis relevantes. 

Agora imagine que, em determinado ano, ocorram 330 mortes, em vez das 300  inicialmente esperadas. O custo dos benefícios passaria para R$ 99 milhões. A  seguradora teria, portanto, um resultado pior do que o esperado. 

Se, no ano seguinte, ocorrerem apenas 180 mortes, o custo seria de R$ 54 milhões. 

É justamente essa oscilação em torno do valor esperado que interessa ao  atuário. 

A Lei dos Grandes Números ajuda a compreender por que uma carteira grande  tende, sob condições apropriadas, a apresentar maior estabilidade relativa do  resultado agregado. Se a seguradora tivesse apenas 100 segurados, uma única  morte representaria um impacto muito maior sobre a experiência da carteira.  Com 100 mil participantes, o efeito relativo de uma única ocorrência é muito  menor. 

Mas isso não significa que a seguradora possa simplesmente confiar na média. 

Suponha agora que uma pandemia provoque 1.000 mortes na carteira em  determinado período. O número de eventos seria cinco vezes superior ao  inicialmente esperado, levando as indenizações a R$ 300 milhões. A estabilidade  proporcionada pelo tamanho da carteira não seria suficiente para absorver  sozinha uma ocorrência dessa magnitude. 

É justamente aqui que entram outros instrumentos da ciência atuarial e da gestão  de riscos: capital de solvência, resseguro, modelos de cenários, testes de  estresse, análise de dependência e avaliação de eventos extremos.

O exemplo também ajuda a compreender a diferença entre frequência esperada  e risco. 

A expectativa de 300 mortes não significa que 300 mortes ocorrerão. A  seguradora precisa estar financeiramente preparada para 300, mas também  para resultados significativamente superior. É essa diferença entre o resultado  esperado e os resultados adversos que está no centro da gestão atuarial  moderna. 

Em um seguro de vida de longo prazo, o problema torna-se ainda mais  sofisticado. O atuário precisa considerar a idade dos segurados, mortalidade  futura, evolução da longevidade, entradas e saídas da carteira, reajustes dos  capitais segurados, despesas, taxas de juros e o momento exato dos  pagamentos. 

Nesse caso, o trabalho atuarial deixa de ser uma simples estimativa anual de  sinistros e passa a ser uma projeção de fluxos financeiros contingentes ao longo  de muitos anos. 

O mesmo raciocínio pode ser transportado para outros ramos. 

Imagine uma carteira de 50 mil veículos. Se a frequência anual esperada de  sinistros for de 8%, o modelo indicaria aproximadamente 4 mil sinistros. Se o  custo médio esperado fosse R$ 6 mil, o custo esperado dos sinistros seria de  aproximadamente R$ 24 milhões. 

Mas a seguradora não deveria precificar a carteira supondo que  necessariamente terá exatamente 4 mil sinistros de R$ 6 mil cada. Na realidade,  tanto a frequência quanto a severidade variam. Poderiam ocorrer 3.700 sinistros  com custo médio de R$ 5.800, ou 4.300 com custo médio de R$ 6.500. Poderiam  ainda ocorrer poucos sinistros de grande severidade capazes de alterar  significativamente o resultado. 

O atuário precisa, portanto, modelar não apenas quanto se espera perder, mas  como as perdas podem se distribuir em torno desse valor. 

Essa é uma evolução fundamental em relação à visão mais simples da Lei dos  Grandes Números. O problema atuarial moderno não consiste apenas em estimar uma média. Consiste em compreender a distribuição dos resultados e  suas consequências para o preço, a provisão, o capital e a solvência. 

É nesse ponto que a contribuição histórica de Bernoulli se conecta com a prática  atuarial contemporânea. A teoria fornece a base para compreender por que a  repetição de eventos permite identificar regularidades. A estatística permite  estimar essas regularidades a partir dos dados. O atuário acrescenta hipóteses,  experiência profissional e modelos financeiros. E a seguradora transforma o  resultado em decisões concretas de subscrição, tarifação, provisão, resseguro,  capital e gestão de riscos. 

O processo pode ser resumido de maneira muito simples: 

dados históricos → hipóteses ou premissas atuariais → modelo de risco → perda  esperada → distribuição das perdas → prêmio, provisão técnica e capital. É  nessa cadeia que a teoria encontra sua aplicação econômica. 

A contribuição de Bernoulli foi anterior a tudo isso. Ele não criou o seguro, não  criou a profissão atuarial e tampouco desenvolveu os modelos utilizados pelas  seguradoras modernas. Sua importância está em ter demonstrado, de forma  pioneira, que a repetição de fenômenos aleatórios permite extrair informação  sobre suas probabilidades. 

A partir dessa ideia, a matemática passou a oferecer instrumentos para enfrentar  economicamente acontecimentos que antes eram tratados essencialmente  como fatalidades. 

Halley levaria essa lógica para a mortalidade humana, utilizando dados  populacionais para construir uma das primeiras tábuas de vida com aplicação  em anuidades. Posteriormente, a matemática financeira, a estatística e a teoria  da probabilidade ampliariam esse caminho, formando as bases da moderna  ciência atuarial. 

O atuário passou, então, a ocupar uma posição singular: entre a experiência  observada e o futuro projetado. 

O trabalho do atuário não consiste em prever exatamente o que acontecerá.  Consiste em construir uma representação quantitativa suficientemente robusta  para que uma seguradora possa tomar decisões responsáveis diante de diferentes possibilidades. É por isso que a atividade atuarial está presente em  praticamente todas as decisões relevantes de uma seguradora. 

Na tarifação, procura determinar quanto deve ser cobrado pelo risco assumido. 

Nas provisões técnicas, estima os recursos necessários para fazer frente a  obrigações futuras relacionada às perdas esperadas e, finalmente no capital  baseado em risco, em que avalia a capacidade de absorver resultados adversos ou inesperados. 

No resseguro, auxilia na definição de quanto risco deve permanecer retido e  quanto deve ser transferido. 

Na solvência, contribui para avaliar se os recursos disponíveis são compatíveis  com os compromissos assumidos. 

Na previdência, transforma hipóteses demográficas e financeiras em valores  presentes de obrigações que poderão se estender por décadas. 

Essa amplitude demonstra que a ciência atuarial é muito mais do que a aplicação  mecânica de probabilidades. Ela é uma disciplina de tomada de decisão sob  condições de incerteza, na qual matemática, estatística, finanças, economia e  julgamento profissional se encontram. 

Bernoulli está no início dessa trajetória. 

Mais de três séculos depois, o atuário trabalha com grandes bases de dados,  modelos estocásticos, teoria dos valores extremos, simulação de Monte Carlo,  técnicas de credibilidade, aprendizado de máquina e inteligência artificial. Os  instrumentos mudaram radicalmente, mas permanece a mesma questão  essencial: como utilizar a experiência disponível para mensurar riscos futuros e  tomar decisões financeiras responsáveis no presente? 

A resposta está no próprio desenvolvimento histórico da profissão. 

Do acaso à probabilidade; da probabilidade à mensuração do risco; da  mensuração à precificação; da precificação à provisão e ao capital; e, finalmente,  da gestão do risco à proteção econômica. 

É nessa trajetória que Bernoulli encontra a ciência atuarial.

Sua grande contribuição não foi ensinar a prever o futuro, mas ajudar a  demonstrar que o comportamento de fenômenos aleatórios poderia ser estudado  de forma sistemática. A ciência atuarial transformou essa descoberta em prática  profissional: utiliza dados para estimar probabilidades, probabilidades para  modelar riscos, modelos para valorar compromissos e valores para sustentar  decisões. 

O futuro continuou imprevisível. Mas passou a ter probabilidade, preço, provisão  e capital. 

E talvez seja essa a melhor síntese da contribuição de Bernoulli para a indústria  de seguros: ele ajudou a criar as condições intelectuais para que o acaso  deixasse de ser apenas uma ameaça e passasse a ser também um objeto de  mensuração, gestão e decisão econômica. 

É importante destacar que os artigos escritos para a coluna deste veículo,  expressam opiniões pessoais e não devem ser confundidas, sob qualquer  hipótese com o posicionamento das instituições ou grupos de trabalho dos quais,  eventualmente, faço parte. 

(*) Marco Pontes é membro do Instituto Brasileiro de Atuária – IBA, do Comitê de  Padrões Atuariais (ASC) da International Actuarial Association (IAA), membro do  Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e sócio-fundador da LGP  Soluções Atuariais Ltda. 

E-mail: [email protected]

Marco Pontes

Marco Pontes é atuário, com formação em Estatística e APG em Administração e Liderança. Possui mais de 30 anos de experiência profissional, tendo atuado em diversos segmentos nos quais a Ciência Atuarial está presente, como seguros, previdência e auditoria, entre outros. Ao longo de sua carreira, passou por empresas de consultoria nacionais e internacionais, tendo liderado a implantação (start-up) da área atuarial em duas Big Four. Atualmente, é diretor da LGP Soluções Atuariais Ltda., membro do Comitê de Pronunciamentos Técnicos do Instituto Brasileiro de Atuária (IBA) e integrante do Actuarial Standards Committee (ASC) da International Actuarial Association (IAA).

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