Eventos climáticos extremos, vulnerabilidades dos mercados financeiros e escassez de mão de obra serão os principais desafios para o setor global de construção nos próximos anos. A conclusão é do estudo “Beyond 2030: The Future of Construction”, elaborado pelo Zurich Insurance Group, que aponta uma mudança na forma como os riscos impactam os empreendimentos: eles surgem cada vez mais cedo, estão mais conectados e podem comprometer desde o planejamento até a conclusão das obras.
O levantamento reúne a visão de mais de 30 especialistas das áreas de subscrição, sinistros, engenharia de riscos e construção, ouvidos entre dezembro de 2025 e março de 2026. Segundo o relatório, os riscos deixaram de atuar de forma isolada e passaram a influenciar fatores como cronograma, custos, financiamento e a própria viabilidade dos projetos.
Os eventos climáticos extremos e desastres naturais aparecem como a principal ameaça para o setor, com nota 6,2 em uma escala de 7. De acordo com a pesquisa, fenômenos mais intensos e ocorrendo em regiões onde historicamente eram menos frequentes já impactam cronogramas, provocam danos em obras em andamento e reduzem o tempo disponível para recuperação dos empreendimentos.
Na sequência, aparecem as vulnerabilidades dos mercados financeiros, com pontuação de 5,7. O estudo destaca que, embora exista capital disponível para investimentos, a tolerância a atrasos e imprevistos está menor, pressionando projetos que normalmente já trabalham com cronogramas reduzidos.
O terceiro principal risco apontado é relacionado às dinâmicas do mercado de trabalho, com nota 5,6. O relatório chama atenção não apenas para a escassez de profissionais, mas também para a concentração de funções estratégicas e decisões, especialmente diante do avanço da digitalização no setor.
Segundo a Zurich, esses fatores estão cada vez mais interligados. Um evento climático pode interromper cadeias de suprimentos, elevar custos, provocar atrasos e dificultar o acesso ao financiamento. Da mesma forma, limitações de infraestrutura, falta de profissionais especializados e restrições financeiras passaram a influenciar decisões ainda na fase de concepção dos empreendimentos.
“Nossos clientes estão entregando projetos cada vez mais complexos em um ambiente de risco mais volátil, sob prazos cada vez mais apertados. Nossa pesquisa mais recente deixa claro que, se um projeto não for segurável, ele não será financiado. Por isso, incorporar resiliência já no desenho do projeto, com a participação das seguradoras desde o início, é fundamental para viabilizar os empreendimentos”, afirma Kelly Kinzer, Global Head of Construction & Surety da Zurich.
O estudo também destaca que a construção está no centro de grandes transformações globais, como digitalização, descarbonização, segurança energética e renovação da infraestrutura. Apesar da demanda crescente por novos ativos, a execução de projetos complexos se torna mais desafiadora diante da combinação entre clima, tecnologia, capital, infraestrutura e mão de obra.
Entre os pontos de atenção, o relatório aponta ainda a disrupção de infraestruturas e sistemas críticos, que aparece na sexta posição em severidade, com nota 5,1. Embora não esteja entre os três principais riscos, o fator é considerado o mais conectado da rede analisada, podendo ser provocado por outros eventos e também ampliá-los.
O impacto é especialmente relevante em projetos de alta complexidade, como data centers, sistemas de energia, unidades de saúde e estruturas de manufatura avançada. Nesses casos, fatores como disponibilidade de energia, água, licenças, equipamentos especializados e capacidade de rede podem determinar a viabilidade do projeto antes mesmo do início das obras.
Desafios no Brasil
No Brasil, os riscos apontados pelo estudo encontram paralelo em desafios já presentes na agenda de infraestrutura. O país atravessa um ciclo de investimentos em áreas como concessões, energia, saneamento, transportes e infraestrutura digital, mas enfrenta dificuldades relacionadas à disponibilidade de mão de obra qualificada, custo de capital, cenário econômico e aumento dos eventos climáticos.
Segundo a segunda edição do Termômetro do Setor da Construção Civil de 2025, elaborado pela Falconi em parceria com a Siange, 71% dos profissionais de construtoras e incorporadoras apontaram a falta de mão de obra como o principal fator de impacto nos negócios atualmente.
A digitalização, embora represente uma oportunidade de ganho de eficiência, também traz novos desafios, com aumento da dependência de profissionais especializados e maior concentração de responsabilidades em determinadas funções.
O cenário financeiro também aparece como ponto de atenção. Ainda segundo o levantamento, juros elevados e custos de materiais e serviços foram citados por 48% e 37% das empresas, respectivamente, entre os fatores que mais impactam o setor.
Além disso, os eventos climáticos extremos têm ampliado os desafios para obras e operações no país. De acordo com o relatório “Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil em 2025”, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), esses eventos causaram prejuízos econômicos de aproximadamente R$ 3,9 bilhões e afetaram mais de 330 mil pessoas no país no último ano.
Para a Zurich, esse cenário reforça a necessidade de incorporar a gestão de riscos desde o planejamento dos projetos.
“O maior desafio atual da infraestrutura brasileira não parece ser a falta de projetos, mas a capacidade de executá-los com previsibilidade de prazo, custo e risco. Quando fatores como clima, financiamento, cadeia de suprimentos e mão de obra se combinam, a gestão de riscos precisa fazer parte da viabilidade do empreendimento, ou seja, ser considerada desde o início”, afirma Sven Feistel, diretor executivo de Seguros Corporativos e Subscrição de Ramos Elementares da Zurich Seguros.
Nesse contexto, soluções como seguros de engenharia, seguro garantia, seguros de responsabilidade civil profissional, D&O, riscos cibernéticos e serviços de engenharia de riscos passam a ter papel estratégico na identificação, mitigação e transferência de riscos.
“O estudo defende que a segurabilidade seja tratada ao lado de custo, prazo e segurança no planejamento de grandes projetos. Alterações em preço, capacidade, exclusões ou condições de cobertura podem sinalizar, de forma antecipada, pontos de atenção relacionados à execução, à qualidade técnica, ao cronograma ou à resiliência do empreendimento”, detalha Sven. “As empresas devem utilizar o feedback das seguradoras e os insights de engenharia de risco para identificar fragilidades desde cedo, antes que se materializem em perdas”, aconselha.
A conclusão do relatório é que empresas capazes de antecipar restrições, administrar interdependências e incorporar capacidade de recuperação desde o início estarão mais preparadas para enfrentar o futuro da construção. Em um ambiente pressionado por clima, tecnologia, capital e infraestrutura, a resiliência deixa de ser um diferencial e passa a ser uma condição para que projetos sejam financiados, segurados e entregues com maior previsibilidade.

