A adequação à terceira versão do Sistema de Registro de Operações (SRO v3), da Superintendência de Seguros Privados (Susep), pode representar mais do que o cumprimento de uma exigência regulatória para as seguradoras. Na avaliação da Salesforce, a organização e a unificação dos dados necessários para atender ao novo modelo também podem criar uma base para melhorar operações, conhecer melhor os segurados e ampliar oportunidades de negócios.
O movimento ocorre em um momento de maior demanda por informações confiáveis e estruturadas no mercado de seguros. Ao revisar processos, integrar sistemas e aprimorar a governança dos dados para atender ao SRO, as companhias podem aproveitar essa mesma estrutura em outras áreas, como vendas, atendimento e retenção.
Leonardo Boaventura, vice-presidente regional da Salesforce, avalia que esse é um dos principais ganhos que podem surgir a partir da adequação regulatória. “O maior valor está em transformar uma obrigação regulatória em ativo estratégico por meio de uma plataforma digital única e integrada. Com ela, uma seguradora que se torna agêntica traz agentes de IA aos seus processos para potencializar colaboradores e ampliar o entendimento sobre o segurado. Ao unificar os dados para atender ao SRO, a seguradora constrói, como subproduto, uma visão 360º do cliente que alimenta vendas, atendimento e retenção.”
Na prática, uma base de dados mais organizada permite que informações antes distribuídas em diferentes sistemas sejam utilizadas de forma integrada. Isso pode facilitar a identificação de necessidades dos segurados, apoiar decisões comerciais e contribuir para uma comunicação mais personalizada.
A Salesforce também relaciona essa estrutura à evolução do Open Insurance. Para a empresa, a organização dos dados exigida pelo SRO e os princípios de dados transparentes e portáveis presentes no Open Insurance podem criar uma preparação comum para as seguradoras.
Boaventura destaca que a organização dos dados pode gerar benefícios que ultrapassam a esfera regulatória e alcançar diferentes áreas da operação. “A partir daí, abrem-se ganhos concretos: personalização de ofertas e comunicação com base em dados confiáveis; eficiência operacional com automação via agentes de IA em atendimento, sinistros e vendas; agilidade para lançar produtos e responder a novas exigências regulatórias sem retrabalho de arquitetura; e diferenciação competitiva, ao usar a inteligência de dados para antecipar necessidades do segurado.”
A visão de que o SRO pode produzir efeitos positivos sobre a gestão das seguradoras também aparece na avaliação da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). A entidade aponta que a estruturação das informações pode contribuir para controles internos mais robustos e para um conhecimento mais aprofundado das próprias carteiras.
Alexandre Leal, diretor técnico de Estudos e de Relações Regulatórias da CNseg, destaca que o resultado pode ir além do cumprimento da obrigação regulatória.
“Quando adequadamente estruturadas, as informações produzidas para o SRO deixam de representar apenas o cumprimento de uma obrigação regulatória e passam também a contribuir para o fortalecimento dos controles internos, para o melhor conhecimento da carteira e para o aumento da eficiência operacional das próprias seguradoras. Pelo lado da Susep, certamente uma importante ferramenta para a melhoria da qualidade regulatória e da política pública.”, explica
A utilização dos dados para melhorar processos internos também depende da capacidade das companhias de identificar inconsistências antes que elas avancem no fluxo de transmissão. Nesse sentido, as seguradoras vêm aperfeiçoando regras internas e mecanismos de validação para reduzir erros próximos à origem da informação.
Para a CNseg, essa evolução é particularmente importante porque as companhias possuem diferentes níveis de maturidade tecnológica, estruturas operacionais e características de carteira. Dessa forma, a transformação ocorre de maneira progressiva e exige integração entre sistemas, processos e equipes.
Governança como legado do SRO
A experiência da implementação também já produz reflexos na governança das companhias. Segundo a Susep, seguradoras relataram mudanças em procedimentos operacionais, contratos com fornecedores e controles internos a partir da necessidade de atender ao sistema.
A autarquia também destaca que a incorporação de regras de negócio ao leiaute contribuiu para melhorar a qualidade das informações enviadas e reduzir a necessidade de reenvios provocados por problemas nos registros.
O impacto ganha dimensão ainda maior diante do volume de informações processadas pelo sistema. Desde março de 2026, quando teve início a obrigatoriedade da versão 3, o SRO já registrou cerca de 1,3 bilhão de operações, segundo a Susep, com picos de aproximadamente 400 milhões de registros em um único mês.
Nesse cenário, a estruturação dos dados deixa de ser apenas uma resposta à regulação e passa a integrar a estratégia de transformação das seguradoras. Para a Salesforce, companhias que conseguirem aproveitar essa base poderão avançar na automação, na inteligência artificial e na personalização das relações com seus clientes.
A perspectiva é que o investimento realizado para atender ao SRO v3 tenha efeitos que permaneçam na operação mesmo depois da consolidação da nova rotina regulatória. Com dados mais confiáveis, integrados e governados, as seguradoras podem criar condições para responder com mais agilidade às mudanças do mercado e transformar informação em vantagem competitiva.

