Notícias | 6 de janeiro de 2026 | Fonte: CNseg

Quase duas décadas para brilhar: a longa construção do microsseguro no Brasil

As lentes regulatórias demoraram a mirar o território distante da população de baixa renda. Quando se voltaram finalmente para a base da pirâmide social, a construção da proteção da população pobre ganhou escala gradual em quase duas décadas. A regulamentação do microsseguro, formalizada em 2011, não foi, porém, o ponto de partida, mas o resultado de um processo contínuo iniciado ainda no começo dos anos 2000. Passo a passo, um arcabouço regulatório, institucional e cultural permitiu transformar uma ideia de inclusão financeira em política pública estruturada e, mais tarde, em um segmento com identidade própria. Resultado: hoje a arrecadação de prêmios dos microsseguros de danos e de pessoas supera a casa de R$ 1 bilhão (no acumulado até setembro R$ 1,2 bi), com liderança das proteções pessoais (receita de R$ 996,7 milhões).

As primeiras ações da Superintendência de Seguros Privados (Susep) voltadas ao público de baixa renda remontam a 2003, em consonância com diretrizes governamentais de ampliação do acesso a serviços financeiros. A estratégia inicial foi pragmática: estimular produtos mais simples, de menor custo e com regras padronizadas, capazes de dialogar com um público até então excluído do mercado segurador.

O marco inaugural foi a Circular Susep nº 267/2004, a primeira norma sobre seguro de vida em grupo popular. Na sequência, a Circular nº 306/2005, dedicada ao seguro popular de automóvel, reforçou o movimento. Ambas tiveram um efeito simbólico e prático: despertaram o interesse da indústria seguradora para um novo nicho e sinalizaram que havia espaço regulatório para inovação com foco social.

No mesmo período, medidas complementares ajudaram a criar um ambiente mais favorável. O Decreto nº 5.172/2004, ao reduzir o IOF do ramo Vida — de 7% para 2%, chegando a zero em 2006 —, teve impacto direto na atratividade dos produtos. Já a Resolução CNSP nº 110/2004, ao instituir ouvidorias nas seguradoras, fortaleceu a proteção do consumidor, especialmente dos segmentos mais vulneráveis.

O microsseguro entra na agenda institucional

O ano de 2008 marca a virada conceitual. Em abril, o ato do CNSP nº 10/2008 criou a Comissão Consultiva de Microsseguros, reunindo governo, regulador, mercado, corretores e academia. A missão era clara: estudar o tema em profundidade e assessorar o Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP) na construção de uma regulação adequada à realidade brasileira.

Pouco depois, em junho, a Susep instituiu o Grupo de Trabalho de Microsseguros (GT Susep), por meio da Portaria nº 2.960. Formado por técnicos de diferentes áreas da Autarquia, o GT produziu relatórios técnicos decisivos e contribuiu, inclusive, para o debate legislativo, com proposta de substitutivo ao PL nº 3.266/2008, que tratava do tema no Congresso Nacional.

A estratégia de escuta e diálogo se ampliou com a realização dos Workshops de Microsseguros, em 2009, no Rio de Janeiro e em Brasília. Os encontros reuniram reguladores, mercado, formuladores de políticas públicas e especialistas internacionais, consolidando uma visão compartilhada sobre os desafios fiscais, sociais e operacionais do microsseguro no País.

2011: a regulamentação possível

Diante da demora na tramitação do projeto de lei, a Susep concluiu que poderia avançar dentro de sua esfera de competência. Em setembro de 2011, foi criado um grupo de trabalho para elaborar regras específicas para o desenvolvimento do microsseguro. O resultado foi a Resolução CNSP nº 244/2011, verdadeiro divisor de águas.

A norma estabeleceu diretrizes gerais para o segmento, com foco na regulação de produtos, na regulação prudencial e na conduta de mercado, delegando à Susep a normatização técnica e operacional. Nos meses seguintes, uma série de circulares detalhou o funcionamento do sistema — desde a autorização de sociedades até a atuação de corretores e correspondentes de microsseguro, além da possibilidade de contratação por meios remotos.

Em 2021, em linha com a agenda de simplificação regulatória, a Resolução nº 244 foi substituída pela Resolução CNSP nº 409, que consolidou princípios e características gerais do microsseguro, com maior flexibilidade para o desenho de produtos e estímulo à inovação.

Influência internacional e protagonismo brasileiro

Paralelamente à agenda doméstica, o Brasil assumiu protagonismo no debate internacional. Desde 2006, a Susep participa de fóruns globais sobre microsseguros, com destaque para o Grupo de Trabalho Conjunto IAIS–Microinsurance Network (JWG-MI). Entre 2007 e 2012, o País presidiu o grupo — um feito inédito — e ajudou a formular documentos de referência mundial sobre regulação e supervisão de microsseguros e seguros inclusivos.

Esse intercâmbio internacional influenciou diretamente o modelo regulatório brasileiro, alinhado aos Princípios Básicos de Seguros da IAIS e às diretrizes do G20 para inclusão financeira. A realização, no Rio de Janeiro, da 7ª Conferência Internacional de Microsseguro, em 2011, simbolizou esse reconhecimento.

O balanço: inclusão gradual e desafios persistentes

Passados quase 20 anos desde as primeiras iniciativas, o microsseguro se consolidou como instrumento de inclusão financeira, ainda que longe de atingir todo o seu potencial. Dados setoriais indicam uma trajetória de crescimento gradual desde 2012, com expansão do número de apólices, diversificação de produtos — especialmente em vida, acidentes pessoais e assistência — e maior uso de canais alternativos de distribuição.

Ao longo da década passada, o segmento acumulou dezenas de milhões de coberturas ativas, com evolução ano a ano acompanhando o avanço regulatório, a digitalização e as parcerias com instituições financeiras, varejistas e programas sociais. O volume de prêmios ainda representa uma fração modesta do mercado total, mas o impacto social — em proteção financeira básica para famílias de baixa renda e microempreendedores — é o principal indicador de sucesso.

Mais do que números, o microsseguro deixou como legado uma mudança de paradigma: a ideia de que o seguro pode — e deve — ser desenhado a partir das necessidades reais da população. Entre ajustes normativos, aprendizado institucional e cooperação internacional, o Brasil levou quase duas décadas para fazer o microsseguro brilhar. O próximo desafio é ampliar escala, inovação e educação securitária, para que essa luz alcance ainda mais brasileiros.

FAÇA UM COMENTÁRIO

Esta é uma área exclusiva para membros da comunidade

Faça login para interagir ou crie agora sua conta e faça parte.

FAÇA PARTE AGORA FAZER LOGIN

Valorizamos sua privacidade

O CQCS utiliza cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência, personalizar conteúdos e analisar o nosso tráfego. Ao continuar navegando, você concorda com o uso dessas tecnologias, de acordo com a nossa Política de Privacidade.

Personalizar preferências de consentimento

NecessárioSempre ativo

Estes cookies são essenciais para o funcionamento adequado do site, garantindo recursos básicos de segurança e acessibilidade. Eles não armazenam nenhuma informação pessoal identificável.

Funcional

Permitem que o site lembre das suas escolhas e forneça funcionalidades aprimoradas e personalizadas, como compartilhamento em redes sociais e integração de recursos de terceiros.

Sem cookies para exibir.

Analítico

Ajudam a entender como os visitantes interagem com o site, coletando e relatando informações de forma anônima. Fornecem dados sobre número de visitantes, tempo na página e fontes de tráfego.

Desempenho

Utilizados para compreender e analisar os principais índices de desempenho do site, ajudando a proporcionar uma experiência de navegação otimizada para os usuários.

Sem cookies para exibir.

Anúncio

Usados para fornecer anúncios mais relevantes aos visitantes com base em suas navegações anteriores, além de ajudar a medir a eficácia das campanhas publicitárias.

Sem cookies para exibir.