A expansão da energia solar no Brasil amplia a quantidade de equipamentos e receitas expostos a perdas. Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), o país alcançou 74,3 gigawatts de capacidade solar instalada em julho de 2026, somando usinas de grande porte e sistemas de geração própria. De janeiro a agosto, outras 75 centrais solares começaram a operar, acrescentando 3,52 gigawatts à geração centralizada, conforme a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Por trás dos painéis instalados em telhados ou em grandes áreas, há uma cadeia que inclui transporte, montagem, testes e operação. Cada etapa traz exposições diferentes: um módulo pode chegar avariado à obra; uma falha elétrica pode provocar incêndio depois da instalação; e a parada de um inversor pode interromper a geração por semanas.
No transporte, painéis, transformadores, pás eólicas e baterias estão sujeitos a avarias. Por isso, é necessário definir quem responde pela carga em cada trecho e verificar a contratação do seguro de transportes. A cobertura de responsabilidade civil da transportadora tem finalidade diferente da proteção do interesse do proprietário dos equipamentos.
Durante a construção e a montagem, entram em análise os seguros de riscos de engenharia, que podem amparar danos materiais à obra e aos equipamentos, conforme as coberturas contratadas. Também devem ser avaliadas a responsabilidade civil por danos a terceiros e, em projetos cuja entrada em operação sustenta receitas futuras, a proteção contra prejuízos decorrentes de atraso causado por um evento coberto.
Um ponto sensível é a passagem da obra para os testes e, depois, para a operação comercial. Alexandre Federman, CEO do Grupo Exalt, menciona a importância da análise de todo o projeto, para a contratação do seguro. “Um projeto de energia renovável pode sofrer perdas antes mesmo de começar a gerar eletricidade. Uma avaria no transporte, um incêndio durante a instalação ou uma tempestade na fase de operação podem comprometer o investimento e interromper a receita. Contratar o seguro desde o planejamento permite avaliar as coberturas necessárias em cada etapa e evitar que uma ocorrência coloque em risco o planejamento de todo o funcionamento das placas solares”
Em relatório sobre seguros e transformação ecológica, a Superintendência de Seguros Privados (Susep) registra que apólices tradicionais podem apresentar limitações justamente nesse intervalo. O documento também relata dificuldades apontadas por investidores na contratação de proteção adaptada a projetos de minigeração solar que acompanhe instalação, testes e operação.
Com a usina em funcionamento, a análise passa a incluir painéis, inversores, transformadores, estruturas e demais componentes. Incêndio, danos elétricos, quebra de máquinas, vendaval, granizo e alagamento estão entre os eventos que podem causar danos materiais, desde que previstos nas condições da apólice. Estudos técnicos da IEA PVPS mostram que cabos e conectores danificados podem produzir arcos elétricos e iniciar incêndios; a entidade também aponta efeitos de tempestades e granizo sobre equipamentos e desempenho de usinas fotovoltaicas.
A incorporação de baterias acrescenta outro risco ao projeto. Sistemas de armazenamento precisam ser declarados e avaliados de acordo com sua tecnologia, capacidade, localização e medidas de segurança. Entre os cenários possíveis está a fuga térmica, reação que pode levar ao superaquecimento e ao incêndio de células de íons de lítio. Segundo Federman, cabe examinar a exposição a danos a terceiros e os custos de resposta a um acidente com consequências ambientais. “A proteção de um projeto de energia renovável precisa acompanhar todo o seu ciclo de vida. Não basta segurar os equipamentos. É necessário entender quem assume o risco no transporte, o que acontece durante os testes e como a operação será amparada se um sinistro interromper a geração”.
A conta não termina no reparo. Se uma ocorrência coberta impede a geração, o empreendedor pode perder receita durante o período de recuperação. A Susep destaca que o seguro de interrupção de negócios precisa estabelecer claramente como serão calculados a energia não produzida, seu preço e o tempo de paralisação. Uma queda de produção, por si só, não significa indenização automática: é preciso verificar o evento que a causou e as condições contratadas. Nos parques eólicos, a avaliação deve considerar ainda pás, caixas de engrenagens e cabos. Relatos de sinistros reunidos pela Allianz apontam, entre outros eventos, falhas mecânicas, incêndios, descargas atmosféricas e danos provocados pelo vento.
Antes da contratação, investidores e operadores devem conferir os bens declarados, os limites de indenização, as franquias, as exclusões e a vigência de cada cobertura. Essa leitura é decisiva para identificar possíveis intervalos sem proteção entre o transporte, a obra e a operação. A Susep recomenda a consulta às condições gerais e especiais do seguro antes da assinatura da proposta.

