Longevidade transforma a aposentadoria em um desafio que vai muito além de parar de trabalhar; especialistas defendem planejamento financeiro antecipado, diversificação de fontes de renda e uma nova relação com o futuro. Viver mais é uma das maiores conquistas da humanidade. Mas, para milhões de brasileiros, o avanço da longevidade traz uma pergunta que ainda não entrou de forma definitiva no planejamento financeiro: quem vai pagar pela vida depois do trabalho?
A questão parece simples, mas envolve uma conta que pode durar duas ou três décadas. Em 2024, a expectativa de vida ao nascer no Brasil chegou a 76,6 anos, segundo o IBGE. Para quem alcançava os 60 anos, a expectativa era de mais 22,6 anos de vida, em média. Entre as mulheres, esse período chegava a 24,2 anos.
Isso significa que a aposentadoria deixou de ser necessariamente um curto capítulo no final da trajetória profissional. Para uma parcela crescente da população, ela pode representar 20, 30 anos ou mais período em que continuarão existindo despesas com moradia, alimentação, lazer, projetos pessoais e, principalmente, saúde.
É uma mudança que exige rever uma ideia antiga: a de que aposentadoria é simplesmente o momento em que a renda do trabalho acaba. O desafio agora é fazer com que os recursos acompanhem uma vida que continua.
Para Maria Izabel Pedrosa, superintendente da Bradesco Vida e Previdência, a longevidade rompeu o antigo roteiro de estudar, trabalhar e se aposentar. A vida passou a ser composta por diferentes fases, com recomeços, mudanças profissionais e novos projetos. “A aposentadoria, que já foi uma etapa curta no fim da vida, hoje pode durar tanto quanto a própria carreira”, afirma.
A consequência é direta: não basta pensar em quanto dinheiro será acumulado até a aposentadoria. É necessário projetar quanto tempo esse patrimônio terá de sustentar a pessoa e como os gastos irão se comportar ao longo dessa jornada.
A própria dinâmica do consumo muda com o envelhecimento. Os primeiros anos da aposentadoria podem concentrar gastos maiores com viagens, lazer e realização de projetos adiados durante a vida profissional. Depois, o consumo tende a se acomodar. Mais adiante, porém, despesas relacionadas à saúde e aos cuidados podem ganhar peso.
É justamente essa trajetória que torna os primeiros anos da aposentadoria especialmente importantes. Uma retirada excessiva de recursos no início pode comprometer a sustentabilidade financeira dos anos seguintes.
A dificuldade começa muito antes da aposentadoria. Segundo a Bradesco Vida e Previdência, um dos erros mais frequentes é deixar a poupança para depois, partindo da ideia de que ainda existe tempo suficiente para recuperar o atraso.
O problema é que o tempo é justamente um dos principais aliados da formação de patrimônio.
Quanto mais cedo começam as contribuições, maior é o período disponível para acumulação e para que os rendimentos trabalhem sobre os recursos já investidos. Isso não significa que quem começou tarde perdeu a oportunidade, mas muda a dimensão do esforço necessário.
Outro erro é subestimar a duração da aposentadoria. Uma pessoa que chega aos 60 ou 65 anos pode estar diante de décadas de despesas. Projetar o futuro considerando apenas uma expectativa média de vida, portanto, pode produzir uma falsa sensação de segurança.
Há ainda uma terceira armadilha: imaginar que o dinheiro acumulado será consumido de maneira linear.
Na prática, renda e despesas mudam. A saúde pode exigir recursos adicionais, os projetos podem mudar e o cenário econômico pode alterar o poder de compra. Por isso, o planejamento precisa ser revisto ao longo do tempo.
Para a Bradesco Vida e Previdência, a previdência privada pode funcionar como uma ferramenta para transformar a disciplina de poupança durante a vida ativa em uma fonte de renda complementar no futuro. A estratégia pode ser ajustada conforme a renda, os objetivos e o momento de vida do participante.
A lógica é menos sobre encontrar um valor mágico para a aposentadoria e mais sobre construir uma estrutura financeira capaz de acompanhar uma vida que não tem mais uma duração previsível.
A conta da longevidade também é uma conta de saúde
Essa discussão ganha outra dimensão quando se observa o envelhecimento populacional.
Luciano Silva, head de previdência da Seguros Unimed, chama atenção para o fato de que o envelhecimento deixou de ser uma tendência distante e passou a ser uma realidade estrutural do país.
Projeções citadas pela empresa apontam que os idosos poderão representar cerca de 30% da população brasileira até 2050. Nesse cenário, planejar a aposentadoria significa também pensar onde a pessoa vai morar, como terá acesso à saúde e de que maneira conseguirá preservar seu padrão de vida.
O ponto é especialmente relevante porque saúde e longevidade caminham juntas e a segunda pode tornar a primeira mais cara.
Um indivíduo pode chegar à terceira idade com uma reserva aparentemente confortável e, ainda assim, descobrir que ela não é suficiente para uma vida muito mais longa do que aquela originalmente imaginada.
Esse risco é agravado pela falta de educação financeira. Segundo Silva, muitos brasileiros reconhecem que não gostariam de depender exclusivamente do governo na velhice, mas acabam adiando a formação de uma reserva porque as urgências do presente parecem mais importantes.
O resultado é uma contradição: as pessoas sabem que precisam se preparar, mas continuam postergando justamente a decisão que poderia reduzir sua dependência futura.
A previdência privada entra nesse espaço como instrumento de longo prazo e complementação de renda. A Seguros Unimed também destaca características como a possibilidade de estabelecer contribuições regulares e adaptar a estratégia ao longo do tempo.
Mais do que um produto financeiro, porém, a discussão revela uma necessidade de mudança de comportamento: a aposentadoria precisa deixar de ser tratada como um problema para ser resolvido quando estiver próxima.
A geração que chega aos 60 não quer necessariamente parar
A transformação não acontece apenas no bolso. Ela também está mudando a própria definição de aposentadoria.
Antônio Leitão, especialista em longevidade do Instituto de Longevidade MAG, observa que o envelhecimento contemporâneo já não pode ser interpretado a partir da imagem de uma pessoa que chega a determinada idade, deixa o mercado de trabalho e passa a viver exclusivamente de uma renda acumulada.
O Brasil já tinha, em 2024, 34,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, segundo os dados apresentados pelo especialista.
Nesse cenário, a aposentadoria pode representar duas ou três décadas de vida. E isso significa que o planejamento financeiro precisa conversar com trabalho, saúde, moradia, relações sociais, lazer e propósito. “Viver mais é uma conquista, mas também muda profundamente a forma como precisamos planejar o futuro”, afirma Leitão.
A mudança é perceptível na própria relação das pessoas com o trabalho. Parte delas continua trabalhando depois da idade tradicional de aposentadoria, seja por necessidade financeira, seja por escolha, realização pessoal ou desejo de permanecer ativa.
A longevidade, portanto, não significa necessariamente uma saída definitiva do mercado. Pode significar uma segunda carreira, empreendedorismo, consultoria, trabalho em jornadas diferentes ou a combinação entre renda do trabalho e renda de investimentos.
Essa possibilidade altera também a forma de calcular a aposentadoria. Em vez de uma linha reta acumular até determinada idade e depois consumir, o planejamento pode precisar considerar diferentes fontes de renda em diferentes momentos da vida.
O risco de apostar contra a própria longevidade
Para João Batista Mendes Ângelo, diretor-estatutário da Fenaprevi, um dos maiores erros no planejamento é justamente superestimar o patrimônio acumulado e subestimar a quantidade de anos que ele precisará financiar.
O problema pode aparecer quando uma pessoa chega aos 60 ou 65 anos com uma reserva relevante e passa a gastar como se tivesse poucos anos pela frente. “Eu acho que um erro que pode ser cometido é você superestimar a reserva que você acumulou ao longo dos anos”, explica.
O raciocínio é particularmente perigoso porque a longevidade não é uma variável estática. Avanços médicos, novas tecnologias, medicamentos e tratamentos têm contribuído para ampliar a duração da vida.
Ângelo chama atenção para uma consequência que costuma ficar fora das planilhas: alguém que começou a trabalhar aos 20 anos e encerrou sua trajetória profissional aos 60 acumulou renda durante aproximadamente quatro décadas. Se viver outros 30 ou 35 anos, precisará fazer com que os recursos acumulados sustentem uma etapa que pode se aproximar do período inteiro em que esteve economicamente ativo.
É uma conta difícil.
E ajuda a explicar por que cada vez mais pessoas estão prolongando sua vida produtiva. Alguns continuam trabalhando porque precisam complementar a renda. Outras porque percebem, aos 60 ou 62 anos, que ainda têm capacidade e disposição para produzir. “Hoje, de alguma maneira, elas estão buscando formas de esticar o período produtivo, de alongar o período produtivo”, afirma o diretor da Fenaprevi.
A previdência privada pode desempenhar, nesse contexto, outro papel além da simples acumulação: ajudar a transformar patrimônio em renda.
Segundo Ângelo, a disciplina é um dos principais desafios da formação de poupança. A lógica de retirar primeiro o valor destinado ao futuro e organizar depois o orçamento ajuda a transformar a contribuição em hábito.
E há uma segunda etapa: a flexibilidade. Uma pessoa pode começar a contribuir com um valor compatível com sua renda e aumentar os aportes conforme sua carreira evolui, além de realizar contribuições adicionais em momentos de maior disponibilidade financeira.
Na fase de aposentadoria, essa lógica muda novamente. Em vez de simplesmente retirar valores de maneira aleatória, o participante pode estruturar uma renda para organizar os gastos.
É uma mudança importante: o objetivo deixa de ser apenas acumular dinheiro e passa a ser criar uma estratégia para não ficar sem ele. Essa mudança coloca também uma responsabilidade sobre o mercado de seguros e, especialmente, sobre o corretor de seguros.
Durante décadas, o planejamento financeiro de boa parte dos brasileiros esteve associado principalmente ao INSS, à compra do imóvel e, quando possível, à formação de alguma reserva. A nova realidade demográfica exige uma combinação mais ampla de soluções.
John Liu, diretor de Investimentos e Previdência da Zurich Santander, resume o desafio ao lembrar que o brasileiro está diante de uma situação pouco comum nas gerações anteriores: sair do mercado de trabalho e permanecer aposentado por 20, 30 anos ou mais.
Dados do IBGE apontam que uma pessoa que chegava aos 60 anos em 2024 tinha, em média, mais 22,6 anos de vida pela frente.
Para Liu, isso exige antecipar a acumulação de recursos e diversificar as fontes de renda futura.
A dependência exclusiva da aposentadoria pública aparece entre os principais riscos. Mas não é o único. Começar tarde, ignorar o aumento potencial dos gastos de saúde e subestimar o tempo de vida após a aposentadoria também podem comprometer a sustentabilidade financeira.
Nesse sentido, a previdência privada não deve ser apresentada como uma solução isolada, mas como parte de uma estratégia de longo prazo. O produto permite contribuições regulares, aplicação dos recursos em fundos compatíveis com diferentes perfis e, na fase de utilização, flexibilidade na forma de recebimento.
O princípio é simples: quanto mais longa a vida, maior a necessidade de diversificar não apenas os investimentos, mas também as fontes de renda que irão sustentá-la.
Durante muito tempo, o planejamento para a aposentadoria foi tratado como uma questão de idade: “Quando vou parar de trabalhar?”. A longevidade obriga a substituí-la por uma questão muito mais complexa: “Que vida eu quero ter depois que o trabalho deixar de ser minha principal fonte de renda e como vou pagar por ela?.”
A resposta envolve patrimônio, previdência, investimentos, seguros, saúde e, em muitos casos, a possibilidade de continuar trabalhando.
Também exige reconhecer que não existe um único perfil de aposentadoria. Para alguns, será o momento de viajar. Para outros, cuidar da família. Haverá quem queira empreender, estudar, mudar de profissão ou simplesmente trabalhar menos.
Por isso, o planejamento não pode ser baseado apenas em uma idade de saída do mercado. “O principal conselho é encarar a longevidade como uma conquista que exige preparação”, afirma Liu.
Leitão, da MAG, amplia essa visão ao defender que autonomia não significa necessariamente parar de trabalhar. Para ele, autonomia é ter condições de decidir.
Essa talvez seja a melhor tradução do novo desafio da longevidade: o objetivo do planejamento não é garantir que uma pessoa nunca mais precise trabalhar. É garantido que ela possa escolher se quer continuar trabalhando.
Para o corretor de seguros, abre-se aí uma oportunidade que vai além da comercialização de um produto. Entender a longevidade permite transformar uma conversa sobre previdência em uma conversa mais ampla sobre proteção, renda, saúde, patrimônio e futuro.
A vida pode estar ficando mais longa. A pergunta é se o planejamento financeiro está crescendo na mesma velocidade.
Porque os últimos 20 ou 30 anos da vida não são apenas uma estatística demográfica. São anos que precisarão ser financiados e, para milhões de brasileiros, a conta começa a ser construída muito antes de chegar aos 60.

