A proposta de substituição da escala 6×1 por jornadas de até 40 horas semanais, atualmente em debate no Brasil, vem sendo analisada principalmente sob seus impactos econômicos e trabalhistas. No entanto, a mudança também pode transformar a forma como empresas administram seus programas de benefícios, seguros corporativos e gestão de riscos, ampliando o papel consultivo do corretor de seguros junto aos departamentos de Recursos Humanos.
Segundo a consultora em seguros e finanças e presidente do CVG-RJ, Sonia Marra, a redução da jornada tende a produzir reflexos positivos na saúde ocupacional dos trabalhadores e, consequentemente, na utilização das coberturas securitárias.
“Estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que jornadas excessivas aumentam significativamente os riscos de doenças cardiovasculares, depressão, ansiedade, esgotamento físico e mental, além de acidentes de trabalho. A redução da exposição ao trabalho pode diminuir a incidência de acidentes graves e reduzir acionamentos de coberturas por invalidez permanente ou morte acidental”, explica.
Segundo ela, o impacto também alcança outras modalidades bastante utilizadas pelas empresas, como os seguros que oferecem cobertura para doenças graves, afastamentos temporários e internações hospitalares. “A melhora da saúde integral reduz o adoecimento ocupacional, como Síndrome de Burnout, doenças cardiovasculares e LER/DORT, diminuindo a frequência de utilização dos benefícios relacionados à incapacidade temporária e internações”, detalha.
Apesar dos possíveis ganhos em saúde, Sonia destaca que a mudança exige uma revisão da estratégia de gestão de riscos das empresas, especialmente nas apólices de responsabilidade civil patronal. “Sob a ótica da gestão de riscos, essa avaliação deve ser imediata. As decisões judiciais vêm ampliando o valor das indenizações e novas exigências da NR-1 aumentam a responsabilidade dos empregadores ao incluir riscos psicossociais e saúde mental dentro da gestão ocupacional.”
Na área da saúde suplementar, a especialista observa que operadoras e empresas vêm mudando o foco do atendimento reativo para uma atuação preventiva, utilizando tecnologia para reduzir a sinistralidade dos planos corporativos.
Entre as principais iniciativas estão a expansão da telemedicina, o monitoramento remoto de pacientes crônicos, programas de saúde mental, ergonomia e plataformas de inteligência artificial capazes de identificar riscos antes que eles evoluam para casos de maior gravidade. “O controle de custos tem exigido que os departamentos de Recursos Humanos utilizem estratégias orientadas por dados para reduzir o uso desnecessário do sistema privado de saúde e melhorar a gestão da saúde dos colaboradores”, afirma.
Nesse novo cenário, Sonia Marra acredita que o corretor de seguros deixa de atuar apenas na comercialização de produtos e passa a ocupar uma posição estratégica dentro das empresas. “O corretor deve atuar como consultor estratégico, focando em conformidade jurídica, adequação fiscal e mitigação dos riscos relacionados à sinistralidade. É necessário dominar os impactos da Reforma Tributária, compreender a nova sistemática de créditos de CBS e IBS e orientar as empresas sobre a estruturação adequada dos benefícios”, orienta.
Segundo ela, essa consultoria também envolve avaliar os custos corporativos e propor soluções que preservem a competitividade das empresas sem comprometer a proteção dos colaboradores. “O corretor precisa demonstrar o impacto financeiro líquido das mudanças e auxiliar o RH na construção de planos co-participativos ou pacotes flexíveis de benefícios.”
Para a presidente do CVG-RJ, as discussões sobre o fim da escala 6×1 mostram que a atuação do corretor corporativo tende a se tornar cada vez mais multidisciplinar, aproximando o mercado de seguros das áreas de Recursos Humanos, jurídico, contabilidade e gestão financeira.
“Os benefícios e os serviços agregados às apólices de seguro de vida podem atender parte das novas exigências legais às quais as empresas precisarão se adequar. Nesse contexto, o corretor tem condições de prestar uma consultoria completa, ajudando o RH a reestruturar os programas de benefícios, mitigar novos riscos trabalhistas e readequar os contratos de saúde coletiva e seguro de vida em grupo. Esse entendimento resulta em decisões mais eficientes e redução de custos para as organizações.”

