A intensificação dos eventos climáticos extremos vem criando novos desafios para o seguro habitacional e exigindo mudanças na forma como o mercado de seguros avalia, administra e se prepara para os riscos. Esse foi um dos principais pontos debatidos no evento “Seguro Habitacional e Eventos Climáticos: Desafios e Oportunidades”, promovido pela Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), com apoio da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e da Escola de Negócios e Seguros (ENS). Realizado na última terça-feira (29), de forma presencial na sede da ENS, em São Paulo, e com transmissão virtual pelo canal da FenSeg, o encontro reuniu especialistas em painéis para discutir os impactos das mudanças climáticas sobre o seguro habitacional e as alternativas para ampliar a prevenção, a proteção e a capacidade de resposta do setor.
Na abertura, Danilo Silveira, diretor-executivo da FenSeg, destacou a importância do debate dentro da Comissão de Seguros Habitacional e chamou atenção para a amplitude das coberturas do produto. “Particularmente, o seguro habitacional tem uma característica encantadora: ele é um seguro amplo, cobre danos físicos, inclui todos os riscos e, além disso, cobre a morte e a invalidez permanente do mutuário. Então, é muito importante aprender com a gestão desse seguro, e esse seguro talvez seja um dos mais impactados diretamente pela mudança climática”, afirmou Silveira.
Segundo o diretor-executivo da FenSeg, a experiência acumulada na gestão do seguro pode contribuir para aprofundar a análise dos riscos e desenvolver novos modelos de proteção. A avaliação ganha relevância diante da exposição do segmento aos efeitos das mudanças climáticas.
Pedro Farme d’Amoed, CEO Brasil da Guy Carpenter, ressaltou que a própria característica de longo prazo do seguro habitacional amplia a importância da discussão climática. Os imóveis podem permanecer protegidos por décadas, período em que os padrões de exposição aos riscos naturais podem sofrer mudanças significativas.
“Seguro habitacional é a nossa apólice mais massificada, que tem a cobertura de todos os grandes vieses de exposição no Brasil e é fundamental, com maior amplitude de cobertura. Falar de mudanças climáticas, falar dos impactos do clima para esse tipo de seguro é fundamental, especialmente porque a gente está protegendo, por vinte, trinta anos, em alguns casos, essas residências”, destacou Farme d’Amoed.
O CEO Brasil da Guy Carpenter também defendeu o desenvolvimento de modelos capazes de ampliar a proteção diante das novas condições climáticas, considerando não apenas os riscos atuais, mas também aqueles que podem surgir durante a vigência das apólices. A utilização de ferramentas de análise, segundo Farme d’Amoed, pode contribuir para aumentar a resiliência de capital e de risco.
A utilização de informações climáticas para apoiar decisões de curto e longo prazo foi abordada por Mateus de Oliveira Lima, oceanógrafo, cofundador e CEO da i4sea. O especialista explicou que o acompanhamento dos riscos pode partir de previsões para os próximos dias e chegar a projeções de ameaças climáticas para os próximos anos.
“Temos 10 anos no mercado de resiliência climática, trabalhando desde o curto prazo, dias à frente, até o longo prazo, que são anos à frente. A apresentação hoje foi sobre os riscos operacionais, levando até o estratégico e até o longo prazo”, explicou Lima.
De acordo com o oceanógrafo, a identificação das principais ameaças climáticas e a construção de uma matriz de risco podem ajudar seguradoras a compreender melhor a exposição e a vulnerabilidade das carteiras. A análise também pode contribuir para aprimorar o atendimento aos clientes e as estratégias de proteção.
Nathalia Fonseca, especialista atuarial na Gala Guerrer, destacou a importância de incorporar as projeções climáticas à gestão de riscos. Durante o evento, a especialista apresentou conceitos relacionados aos modelos climáticos e às possíveis mudanças nos padrões de frequência e severidade dos eventos extremos.
“A gente está vendo cada vez mais o efeito dessas mudanças, a incidência de eventos extremos no Brasil e em todo o mundo, e é importante que o mercado de seguros consiga entender e se adaptar a partir disso. Então, eu trouxe hoje um pouco do conhecimento de como funcionam os modelos climáticos”, afirmou Fonseca.
A especialista ressaltou que a utilização dessas informações pode permitir uma gestão mais prospectiva dos riscos, considerando não apenas o histórico de ocorrências, mas também as transformações esperadas para os próximos anos. A abordagem pode contribuir para aumentar a resiliência das carteiras de seguros e resseguros e para a construção de um mercado mais sustentável.
O debate também abordou os impactos sociais e urbanos das mudanças climáticas. Élcio Batista, sociólogo, professor e coordenador do programa Cidade +2°C, do Insper, destacou que os eventos extremos afetam a economia e a população, especialmente as pessoas e os locais onde vivem.
“Cada vez mais, a gente está convivendo com eventos extremos. Esses eventos extremos têm impacto em toda a economia, têm impacto na vida das pessoas, mas sobretudo na vida das pessoas e onde elas moram. É muito importante que a gente tenha um mercado robusto para enfrentar essas mudanças climáticas”, afirmou Batista.
O sociólogo apresentou exemplos internacionais de adaptação aos riscos naturais, citando o Japão como referência. O país desenvolveu, ao longo do tempo, mecanismos de convivência com terremotos, ampliando a resiliência e criando condições para a atuação de um mercado de seguros diante de eventos de difícil previsibilidade.
Batista destacou que a experiência japonesa pode servir como referência para o enfrentamento das mudanças climáticas. “Eu procurei dar uma dimensão, trazendo exemplos não só do Brasil, mas também de fora, como do Japão, que construiu toda uma história relacionada à convivência com os terremotos, aumentando a resiliência e criando um mercado de seguros possível diante da imprevisibilidade dos terremotos. A gente pode fazer o mesmo com as mudanças climáticas”, concluiu.
Veja o evento completo:

