A entrada da Geração Z no mercado de trabalho acontece em um cenário diferente daquele que deu origem ao modelo tradicional de Previdência. Trajetórias profissionais menos lineares, crescimento do empreendedorismo e novas formas de contratação podem mudar a maneira como esses trabalhadores contribuem e planejam a renda para o futuro. O tema foi discutido por especialistas durante o XII Fórum Nacional de Seguro de Vida e Previdência Privada da FenaPrevi, realizado em São Paulo.
A economista Ana Paula Vescovi destacou que as novas gerações representam um desafio adicional para o sistema baseado na solidariedade entre trabalhadores ativos e aposentados. Segundo ela, jovens que têm uma relação diferente com emprego e carreira podem também buscar outras formas de construir sua renda futura.
A preocupação, de acordo com Vescovi, é que parte dessa geração priorize a formação de uma poupança própria ou produtos de previdência complementar e deixe de contribuir para o sistema de solidariedade intergeracional. Com menos contribuintes no futuro, a estrutura atual pode sofrer uma pressão adicional.
“Temos uma geração que chega ao mercado de trabalho com uma relação diferente com o emprego, com mais vontade de empreender e com novas formas de trabalhar. Precisamos considerar que esses jovens podem também ter uma relação diferente com a Previdência e buscar outras formas de construir sua proteção para o futuro”, afirmou.
A mudança no comportamento dos jovens ocorre paralelamente à expansão de atividades que não seguem o modelo de emprego formal. Motoristas de aplicativos, entregadores e microempreendedores individuais foram citados pelo diretor-presidente da Abrapp, Devanir Silva, como exemplos de trabalhadores que podem ficar fora das estruturas tradicionais de proteção.
Para ele, o desafio é criar mecanismos que permitam a esses profissionais acumular recursos mesmo com uma trajetória de renda mais irregular.
“Temos uma população de trabalhadores que está fora dos modelos tradicionais de proteção. São pessoas que trabalham, geram renda e movimentam a economia, mas muitas vezes não conseguem construir uma reserva para o futuro. A nova Previdência precisa olhar para esse público e criar mecanismos de inclusão e proteção”, afirmou.
Entre as possibilidades discutidas estão modelos de contribuição mais flexíveis, incluindo iniciativas de micropensões e o uso de tecnologia para acompanhar os depósitos.
O economista e escritor Eduardo Giannetti defendeu que a formação de reservas comece ainda no início da vida profissional. Para ele, esperar a proximidade da aposentadoria reduz o tempo disponível para acumulação e torna mais difícil alcançar uma renda adequada no futuro.
Uma das alternativas apresentadas foi a adesão automática a planos de previdência, com possibilidade de saída. A contribuição poderia começar em um percentual menor e aumentar conforme a renda do trabalhador crescesse.
Giannetti relacionou a estratégia à economia comportamental, segundo a qual decisões de longo prazo costumam perder espaço diante de necessidades e desejos imediatos.
“A dificuldade é que todos sabem que deveriam poupar mais, mas, quando o dinheiro está disponível, a satisfação imediata costuma prevalecer. Por isso, mecanismos de compromisso antecipado podem ajudar o trabalhador a tomar hoje uma decisão que proteja sua renda no futuro”, explicou.
Capitalização para as novas gerações
A discussão também envolveu a possibilidade de uma mudança estrutural no sistema. O professor sênior da FEA/USP, Hélio Zylberstajn, defendeu uma transição que considere a idade dos participantes e combine diferentes modelos.
Na proposta apresentada no fórum, trabalhadores mais jovens teriam maior participação em um sistema de capitalização, enquanto as gerações mais velhas permaneceriam no modelo atual durante a transição. Para quem já está no mercado de trabalho, haveria uma combinação entre os dois sistemas.
A proposta busca diferenciar as regras de acordo com o momento de vida de cada grupo e permitir que as novas gerações acumulem parte da própria renda futura.
Zylberstajn também apontou a possibilidade de separar benefícios programados daqueles relacionados a riscos, como morte e invalidez. Nesse desenho, determinados riscos poderiam ter maior participação do mercado de seguros.
As mudanças geracionais também colocam desafios para o mercado de seguros e previdência complementar. Produtos voltados a carreiras lineares podem não atender da mesma forma trabalhadores que alternam emprego formal, empreendedorismo e atividades autônomas.
Nesse cenário, tecnologia, educação financeira e personalização podem ajudar a aproximar os produtos das necessidades de cada público. Ana Paula Vescovi também destacou o potencial da interoperabilidade de dados para desenvolver soluções mais adequadas aos diferentes perfis de renda e momentos de vida, respeitando os requisitos de segurança e sigilo.
A discussão mostra que o desafio da Previdência não está apenas nas regras do sistema, mas também na capacidade de acompanhar uma sociedade em que as formas de trabalhar, ganhar dinheiro e planejar o futuro estão mudando.
Para as novas gerações, previdência complementar, seguros e mecanismos de poupança podem ganhar espaço como instrumentos de construção de renda futura, ao lado da proteção oferecida pelo Estado.

