Enchentes, secas prolongadas, vendavais, deslizamentos e ondas de calor deixaram de ser eventos excepcionais na agenda econômica brasileira. Além da perda de vidas e dos impactos sociais, os desastres climáticos representam uma conta crescente que, na ausência de mecanismos prévios de proteção financeira, acaba sendo dividida principalmente entre famílias, empresas e governos.
O cenário mostra que a pressão continua. Em 2025, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden, emitiu 2.505 alertas de riscos geo-hidrológicos para 1.133 municípios e registrou 1.493 ocorrências associadas principalmente a inundações, enxurradas e deslizamentos. O país também enfrentou sete ondas de calor, sete ondas de frio e uma seca que, em determinado momento do ano, atingiu níveis severos ou extremos em até 503 municípios.
Ao citar o gerenciamento de riscos nas catástrofes climáticas, o vice-presidente de Automóvel, Massificados e Vida da Allianz, Fábio Morita, afirmou que é fundamental adequar tecnicamente o cálculo do risco. “A mitigação de riscos começa pelo conhecimento. Com dados georreferenciados e séries históricas, conseguimos identificar a incidência de eventos como alagamentos, vendavais e granizo, medir melhor a exposição e desenvolver soluções mais adequadas de proteção. A Allianz contribui em diferentes camadas de proteção. Além da análise de riscos com bases globais de dados, oferecemos seguros para residências, condomínios e empresas, além de soluções de resseguro para eventos de maior impacto.”
No primeiro semestre de 2026, aproximadamente R$ 15,27 bilhões em prêmios emitidos pelas seguradoras brasileiras foram cedidos ao resseguro, segundo a Susep. Essa transferência é especialmente relevante em catástrofes porque impede que perdas concentradas em uma única região comprometam excessivamente a capacidade financeira de uma seguradora.
Em um sistema de proteção mais abrangente, portanto, a conta pode ser distribuída entre segurados, seguradoras, resseguradores e Estado, em vez de permanecer concentrada nas vítimas e nos orçamentos públicos depois que o desastre já ocorreu.
O Brasil já possui a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil, criada pela Lei 12.608/2012. Em novembro de 2025, durante a COP30, o governo federal lançou o primeiro Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil 2025-2035, com 163 metas distribuídas pelos eixos de prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação.
Para Morita, o seguro é uma parte importante da proteção, mas a primeira camada é sempre a prevenção. Segundo o executivo, a tecnologia também auxilia com dados atenuantes para o gerenciamento de riscos. “Medidas urbanísticas, infraestrutura adequada e ações do poder público podem reduzir a exposição aos eventos climáticos. Depois entram o seguro e o resseguro. A tecnologia é fundamental para entendermos os riscos climáticos. O uso de big data, informações georreferenciadas e longas séries históricas permite cruzar grandes volumes de dados e produzir análises mais profundas sobre a ocorrência e a intensidade desses eventos.”
O desafio adicional é transformar essa estrutura de prevenção e defesa civil em uma verdadeira estratégia de proteção financeira nacional contra catástrofes. Sem essa arquitetura, cada nova enchente, seca ou vendaval tende a repetir o mesmo roteiro, com patrimônios destruídos, empresas interrompidas, famílias descapitalizadas e governos obrigados a arcar com bilhões de reais depois que o desastre já aconteceu

