O aumento da frequência e dos impactos das catástrofes climáticas coloca o mercado de seguros diante de um desafio que vai além da capacidade de indenizar perdas. A necessidade de ampliar a proteção da sociedade, estruturar mecanismos de financiamento e fortalecer a prevenção esteve no centro da segunda edição do Conversas do Fórum – Mário Petrelli, realizada nesta quarta-feira (19), na sede da Escola de Negócios e Seguros (ENS), em São Paulo.
Promovido pelo Fórum Mário Petrelli de Fomento do Mercado de Seguros, o encontro reuniu representantes do setor para discutir os impactos dos eventos extremos e alternativas para aumentar a capacidade de proteção do Brasil.
Na abertura, Marco Antônio Gonçalves, diretor-presidente do Fórum Mário Petrelli, destacou que a discussão ganhou ainda mais relevância diante das perdas provocadas por eventos recentes, especialmente no Rio Grande do Sul. Segundo ele, foram mais de R$ 89 bilhões em prejuízos, enquanto cerca de R$ 6 bilhões foram indenizados pelo mercado de seguros.
“Hoje, vamos falar de um tema muito importante para o mundo, mas principalmente para o Brasil, que tem sofrido muitas catástrofes. O mercado de seguros não conseguiu prover a solução que o estado do Rio Grande do Sul e a comunidade precisam. Precisam e continuam precisando.”
Gonçalves também defendeu uma aproximação maior entre o mercado e a sociedade, com o Fórum atuando como espaço de diálogo sobre as necessidades de proteção da população. “Nós, do mercado de seguros, estamos sempre falando para nós mesmos. O que queremos no Fórum é coletar todas as informações que conhecemos e levar aquilo que a população precisa conhecer. Então, é falar para a sociedade, dialogar com a sociedade.”
Entre os destaques do encontro esteve a participação de Dario Luna Pra, líder regional de Soluções Estratégicas de Resseguro da Lockton Re para a América Latina e o Caribe. Com experiência na estruturação de políticas de gestão de riscos de desastres no México, ele apresentou mecanismos utilizados para antecipar recursos e distribuir os impactos financeiros de eventos extremos.
Luna chamou atenção para o crescimento do número de pessoas afetadas por desastres e para os impactos que cenários de mudanças climáticas podem provocar. “A mudança climática está sendo refletida no número de pessoas afetadas. Se subirem as temperaturas e os oceanos em 2% ou 3%, essas perdas podem crescer em 28% ou 50%. São números suficientemente importantes para que a política de financiamento de desastres comece a se estruturar.”
Na avaliação do especialista, governos acabam assumindo o papel de “seguradores de última instância” quando não existe proteção suficiente. Por isso, defendeu a combinação de recursos públicos, seguros, fundos, linhas de crédito contingentes e instrumentos do mercado de capitais, como os Cat Bonds.
Ele também ressaltou a importância de dados e modelos de catástrofe para antecipar perdas e estruturar financeiramente os riscos. “O que não fazer? O que sim fazer? Investir no conhecimento, em dados e modelos. Quanto mais incerteza há no que se quer alcançar, mais difícil conseguir a capacidade. É importante construir essa base para avançar.”
Ao comparar a experiência mexicana com a realidade brasileira, Luna afirmou que o país pode acelerar esse processo. “Não é necessário que o caminho do Brasil seja tão longo, dada a grande economia que é e dadas as grandes instituições que temos. Acho que é mais uma questão de enfoque e vontade de como começamos a construir isso bloco por bloco.”
Proposta para compartilhar riscos
A discussão sobre financiamento também envolveu uma proposta de estrutura para compartilhamento de riscos entre governo, seguradoras, resseguradoras, mercado de capitais e corretores. Apresentada por Rodrigo Botti, vice-presidente da Fenaber, a ideia prevê cobertura para eventos como enchentes, alagamentos e deslizamentos, com divisão regional dos riscos e diferentes camadas de proteção.
“O sonho, o objetivo, é que essa proposta seja discutida mais a fundo entre seguradoras e resseguradoras e que nós tenhamos, no setor privado, uma proposta para compartilhar com o governo. Se o governo tiver os recursos, o setor de seguros está disposto a contribuir.”
Pelo modelo apresentado, seguradoras assumiriam parte dos riscos, enquanto mecanismos de resseguro e um fundo seriam acionados conforme a severidade dos eventos. A proposta ainda prevê critérios técnicos de precificação e participação de um ente governamental na regulação dos sinistros.
A necessidade de melhorar a compreensão da sociedade sobre os riscos também foi destacada por Robert Bittar, vice-presidente da Escola de Negócios e Seguros (ENS).
Ao relatar um caso ocorrido no Rio Grande do Sul, Bittar mostrou como a identificação incorreta de um evento pode gerar dúvidas sobre a existência de cobertura. “Tornado é risco previsto, é contemplado na cobertura de vendaval, na cobertura de granizo. Mas aquele evento não era. Toda a imprensa tratou de tornado. Esse é um ponto que nós temos que cuidar daqui para frente.”
Ariel Couto, CEO da MDS Brasil e Americas Regional Manager da Brokerslink, destacou que a percepção sobre o risco climático mudou no Brasil, especialmente após eventos como as enchentes no Rio Grande do Sul, as secas recorrentes e ocorrências no Rio de Janeiro e no litoral de São Paulo.
“No Brasil, essa percepção cresceu. Hoje é o terceiro risco nesse estudo com risk managers aqui no Brasil, a parte climática, a parte de catástrofe, crescendo no ranking, porque começou a chegar perto da gente.”
Couto também chamou atenção para o tamanho do gap de proteção. A partir dos dados apresentados sobre o Rio Grande do Sul, estimou que aproximadamente 7% das perdas estavam cobertas pelo seguro.
“A realidade é que temos, no Brasil, 93% das perdas catastróficas não cobertas. Quando você olha para a América Latina, o gap de proteção é de 81%. Quando olha para o mundo, é 51%, segundo todos os países.”
Na avaliação do executivo, a baixa penetração também está relacionada à falta de uma cultura de proteção. Ele citou os seguros residencial e rural como exemplos de segmentos que ainda enfrentam esse desafio.
“A cultura no Brasil não é uma cultura de proteção. É uma cultura em que você compra o seguro ou quando é obrigado, ou quando tem um benefício a seu lado para comprar esse seguro. A gente precisa fazer um esforço para que o seguro penetre na economia brasileira.”
Henrique Jorge Duarte Brandão Júnior, presidente do Conselho do Grupo Assure e vice-presidente da Fenacor, defendeu o avanço da proposta apresentada por Botti e uma articulação maior com o poder público.
“Por mais boa intenção que nós tenhamos, acho que o meu desafio principal aqui no Fórum é fazer com que tudo que estamos falando chegue politicamente, com uma conversa que tenha a verdade, para que possamos fazer com que a sociedade se sinta protegida.”
Para Brandão Júnior, a distribuição também terá papel importante para ampliar o acesso às soluções, considerando as diferenças regionais do país e a necessidade de levar proteção a áreas mais expostas.
“Para mim, a questão dos tipos de catástrofes começa na água. Temos um desafio relevante em relação a isso. Por mais que se fale sobre o produto e sua viabilidade, existe um problema de acesso, de poder alcançar áreas e lugares para oferecer essa proteção.”
Prevenção ganha espaço na estratégia do mercado
A prevenção e a redução dos riscos foram reforçadas durante o debate sobre a visão de seguradoras e resseguradoras diante dos eventos catastróficos.
Antonio Penteado, presidente da Academia Paulista de Letras, advogado e jornalista especializado em seguros, destacou que a transferência de risco deve vir depois de medidas capazes de eliminar ou reduzir a exposição.
“Seguro é caro. Tudo que você puder tirar do risco de seguro é mais barato do que fazer seguro. Você faz seguro daquilo que não consegue eliminar ou reduzir dentro de um patamar aceitável.”
Penteado também alertou para a falta de avanços suficientes em prevenção após as tragédias registradas no país e afirmou que o mercado de seguros não conseguirá, sozinho, absorver todos os riscos.
“O último remédio vai ser o engole da ressaca monstruosa que o país vai passar. E, se não houver o resto, nós, seguradores, nós, mercado de seguros, não vamos conseguir resolver esse problema.”
Na mesma linha, Paulo Eduardo Botti, diretor-secretário e membro do conselho administrativo da Enova Holding S.A., apresentou conclusões do Insurance Development Forum (IDF) sobre o futuro da proteção contra catástrofes.
“O futuro do seguro está na redução do risco. Se os riscos não forem reduzidos, não será possível transferi-los, não será possível ter seguro. Esse é o ponto que eu queria trazer para vocês.”
Botti defendeu uma atuação integrada entre governo, reguladores, instituições financeiras, mercado de seguros e sociedade. Para ele, o seguro deve fazer parte de uma estrutura mais ampla de proteção.
“O seguro deve ser parte de uma estrutura integrada de proteção a riscos catastróficos. Então, não é o seguro sozinho que vai resolver o problema. O seguro é um elemento dentro de uma cadeia de várias providências.”
O executivo também destacou o potencial dos instrumentos ligados ao mercado de capitais, como o ILS, para ampliar a capacidade de financiamento dos riscos. “O sucesso do ILS depende da conquista de investidores. É uma notícia muito boa, que vem agregar uma capacidade advinda do mercado de capitais ao mercado de seguros. Essa é uma notícia promissora e acho que podemos investir muito nela.”
Ao final, Botti ressaltou que a construção de soluções dependerá da transformação das discussões em medidas concretas. “A inspiração nunca é o bastante. Se a gente tiver uma inspiração, estivermos todos aqui com a boa vontade de fazer tudo isso que estamos falando aqui, não é o bastante. É o componente de ação e de implementação que faz a diferença.”
Camila Calais, sócia da Mattos Filho, chamou atenção para os impactos das mudanças regulatórias sobre a estruturação de soluções para grandes riscos. Ela citou a revogação da Resolução 407, que tratava de grandes riscos e estabelecia maior liberdade contratual para determinadas operações.
“A gente vai ter que esperar algum tempo e ver o que isso vai impactar também na nossa discussão a respeito dos riscos catastróficos. A gente tem que lidar com essas questões, debruçar, ver o que elas impactam efetivamente nas nossas discussões e como, eventualmente, elas estão dificultando alguma coisa que deveria ser o caminho mais adequado.”
Segundo Camila, o mercado terá de acompanhar os efeitos da nova regulamentação de seguros de danos e seus reflexos sobre contratos e estruturas voltadas aos riscos catastróficos.
A discussão sobre proteção também foi ampliada por Nilton Molina, conselheiro do Fórum Mário Petrelli e presidente do Instituto de Longevidade MAG. Ele levou ao encontro questões relacionadas à Previdência, ao envelhecimento da população e à necessidade de repensar mecanismos de proteção diante das mudanças demográficas.
“O povo brasileiro entende que é um tsunami que está vindo: nasce pouca gente para sustentar um monte de velhos daqui a pouco. Por falta de mão de obra especializada, nós seremos convidados a trabalhar com as empresas. Então, por falta de mão de obra, vamos dizer isso, é um capítulo à parte.”
Ao longo do encontro, os participantes convergiram sobre a necessidade de antecipar riscos, melhorar dados e modelos, ampliar a prevenção e desenvolver mecanismos capazes de distribuir os impactos financeiros das catástrofes.
A discussão também reforçou que o desafio não pode ser enfrentado apenas pelo mercado de seguros. A construção de uma sociedade mais protegida passa pela articulação entre poder público e iniciativa privada, planejamento urbano, infraestrutura, regulação, financiamento, resseguros e novas fontes de capacidade, além da aproximação do seguro com a população.
Para o mercado, a principal questão é fazer com que essas estruturas estejam prontas antes que os próximos eventos extremos aconteçam.

