Os golpes com inteligência artificial estão tornando as fraudes digitais mais sofisticadas e difíceis de identificar por sinais que, até pouco tempo, ajudavam empresas e consumidores a reconhecer conteúdos falsos. Uma reportagem publicada pelo G1 em 28 de setembro mostra como imagens, vídeos e documentos produzidos com IA podem se aproximar cada vez mais da realidade, aumentando o desafio para quem precisa avaliar a autenticidade dessas informações.
O avanço da tecnologia também reduziu a barreira para a prática de fraudes. Segundo Carlos Schwabe, Co-Founder & CDO da Brick, recursos que antes exigiam conhecimento especializado agora estão disponíveis para um público muito maior.
“A IA tem permitido que pessoas comuns façam tarefas que antes exigiam especialistas. Alguém sem formação técnica consegue criar uma plataforma do zero, e um entusiasta produz um curta-metragem inteiro só com linguagem natural. Era de esperar que isso chegasse também à fraude.”
Com isso, documentos bem produzidos, imagens realistas e narrativas coerentes deixam de ser suficientes para indicar que uma informação é verdadeira. “Por isso, as fraudes estão cada vez menos óbvias e é preciso saber cada vez menos para cometê-las. As empresas precisam adaptar e aprofundar suas análises. Um documento bem escrito e visualmente perfeito deixou de ser sinal de legitimidade.”
À medida que os conteúdos falsos se tornam mais difíceis de distinguir, a estratégia de prevenção também precisa mudar. Em vez de procurar apenas características que indiquem uma falsificação, empresas podem aumentar a atenção sobre evidências que comprovem a autenticidade de documentos e informações. “Detectar o fraudulento continua importante, mas acreditamos que o futuro está muito mais em comprovar o autêntico.”
Para Schwabe, conhecer profundamente os padrões de documentos legítimos pode ajudar nessa mudança. A validação diretamente na fonte também ganha importância. “Hoje, o sinal que mais nos ajuda é conhecer a fundo os padrões do que é verdadeiro: metadados, estrutura do documento, coerência com o contexto em que ele aparece, entre outros.”
Outro desafio é utilizar a inteligência artificial para identificar novos padrões sem transformar a decisão em um processo exclusivamente automatizado. Para o executivo, a tecnologia pode acelerar justamente uma etapa que costuma consumir tempo: encontrar comportamentos que ainda não foram mapeados.
“O combate à fraude não é uma foto, é um filme. Ele está sempre evoluindo, se adaptando e procurando novos padrões. Acreditamos que o grande superpoder da IA nesse contexto vai além de analisar os cenários já conhecidos: está em identificar padrões emergentes com muita rapidez.”
Nesse modelo, a IA pode fazer a triagem, cruzar informações e indicar casos que exigem atenção. A análise humana permanece responsável por interpretar situações ambíguas e considerar o contexto antes da decisão.
O setor de seguros está entre os que podem sentir diretamente essa transformação. Na contratação e principalmente na regulação de sinistros, seguradoras lidam diariamente com documentos e evidências fornecidos pelos próprios segurados, como laudos, atestados, notas fiscais, fotografias e boletins de ocorrência.
“Na prevenção de fraudes, a análise tende a deixar de perguntar ‘isso parece falso?’ e passar a perguntar ‘consigo comprovar que isso é verdadeiro?”, afirma o executivo.
A mudança pode levar seguradoras a ampliar a validação de documentos diretamente na origem e a cruzar informações de diferentes bases. Também pode exigir sistemas capazes de acompanhar continuamente os padrões utilizados por fraudadores, em vez de depender apenas de regras fixas.
Na avaliação de riscos, a inteligência artificial pode contribuir para uma análise mais dinâmica, identificando alterações de comportamento e novos padrões com maior velocidade. Mas, para Schwabe, o uso da tecnologia também pode beneficiar o segurado que age de boa-fé.
“Acredito que essa evolução também pede uma mudança de mentalidade. Hoje, o processo parte da desconfiança: o segurado envia o que tem, e cabe à seguradora provar se aquilo é legítimo ou não. A seguradora pode inverter essa lógica e incentivar o segurado a enviar documentação com origem verificável.”, destaca Carlos.
Um exemplo seria o seguro de vida, em que documentos digitais autenticados poderiam facilitar a comprovação das informações e acelerar a regulação em determinados casos.
Para o corretor, essa transformação também merece atenção. Com fraudes mais sofisticadas, a orientação ao segurado passa a envolver não apenas o cuidado com documentos e informações fornecidas, mas também a importância de utilizar fontes verificáveis.
“Uma boa prevenção de fraudes não serve só para barrar o fraudador. Ela também tira atrito da jornada de quem age de boa-fé, e no fim isso se reflete em sinistros pagos mais rápido e em preços mais justos.”, conclui o CDO da Brick.
Golpes com IA mudam perfil das fraudes: como empresas podem identificar novos padrões de risco?

