Durante muito tempo, a aposentadoria foi imaginada como uma espécie de ponto final: depois de décadas de trabalho, chegaria o momento de parar, descansar e aproveitar o tempo conquistado. Para uma parcela cada vez maior dos brasileiros, porém, essa história ganhou outro desfecho. A aposentadoria pode significar uma transição, e não necessariamente o fim da vida profissional.
Os números ajudam a dimensionar essa mudança. Em 2024, 24,4% das pessoas com 60 anos ou mais estavam ocupadas no Brasil, o equivalente a praticamente uma em cada quatro, segundo o IBGE. Entre os homens de 60 a 69 anos, o nível de ocupação chegou a 48%.
Por trás desses números existem histórias muito diferentes. Há quem continue trabalhando porque precisa complementar a renda e manter as despesas da casa. Há também quem permaneça ativo porque gosta da profissão, quer empreender, iniciar um novo projeto, compartilhar conhecimento ou simplesmente não se identifica com a ideia de parar.
Essa mudança acontece em um país que envelhece rapidamente. A população de 60 anos ou mais passou de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024, segundo o IBGE. Ao mesmo tempo, a longevidade amplia o período que precisa ser financiado depois da vida profissional, tornando o planejamento para essa etapa uma questão cada vez mais presente.
Para Rafael Barroso, superintendente sênior da Bradesco Vida e Previdência, o próprio significado da aposentadoria está mudando. Segundo ele, as pessoas chegam a essa fase mais ativas, com experiência acumulada e disposição para continuar contribuindo, seja mantendo a mesma atividade, seja buscando novos projetos ou jornadas mais flexíveis.
“Percebemos uma mudança clara de comportamento: a aposentadoria deixou de ser um sinônimo de parar de trabalhar e passou a representar, para muitos, uma transição para uma nova etapa da vida profissional”, afirma Barroso.
A mudança, porém, também exige preparação. Na avaliação do executivo, segurança financeira significa ter mais liberdade para decidir como viver essa fase, inclusive se a pessoa quer continuar trabalhando, em quais condições e por quanto tempo.
É justamente a diferença entre poder continuar trabalhando e precisar continuar trabalhando que ganha importância. Para Barroso, um planejamento adequado, com diferentes fontes de renda e uma reserva construída ao longo da vida, reduz a dependência do salário e amplia as possibilidades no futuro.
A questão financeira continua sendo determinante para muitas famílias. Luciano Silva, head de Previdência da Seguros Unimed, observa que as transformações demográficas também mudaram a maneira como a sociedade enxerga o envelhecimento.
“As mudanças demográficas transformaram o ambiente social e corporativo, que hoje reúne diferentes gerações e perfis de maturidade simultaneamente. Esse novo público que está atingindo a maturidade rejeita a antiga visão de inatividade ou de exclusão do mercado de trabalho”, afirma.
Segundo Silva, há um contraste importante nesse movimento. Para quem não construiu uma reserva ao longo da vida, a renda da aposentadoria pode não ser suficiente para sustentar o padrão de vida ou fazer frente a despesas que tendem a ganhar peso justamente nessa fase, como os gastos com saúde.
Nesse caso, continuar trabalhando deixa de ser uma escolha de produtividade ou realização e passa a ser uma necessidade financeira.
É nesse ponto que o planejamento de longo prazo deixa de ser apenas uma discussão sobre números e passa a representar liberdade de escolha.
Ao longo da vida, construir uma reserva complementar pode reduzir a dependência da renda do trabalho na maturidade. A pessoa pode chegar à aposentadoria com diferentes possibilidades: parar completamente, reduzir a jornada, mudar de atividade, empreender ou continuar trabalhando porque deseja, e não porque precisa pagar as contas.
Para a MAG Seguros, essa preparação também precisa considerar que uma vida mais longa exige uma estratégia que vá além da simples acumulação de recursos. Tatiana Cardoso Guimarães da Silva, diretora estatutária de Gestão Previdenciária, destaca que previdência, seguro de vida e planejamento financeiro precisam acompanhar diferentes momentos da vida.
“Estamos vivenciando uma mudança estrutural no perfil dos brasileiros que chegam à aposentadoria. Com o aumento da longevidade, essa etapa se tornou mais longa, diversa e ativa”, afirma.
A longevidade, nesse sentido, não significa apenas ter mais anos pela frente. Significa ter mais tempo para financiar, proteger e planejar.
Uma doença grave, uma incapacidade temporária ou uma interrupção da renda podem comprometer uma reserva construída durante décadas. Por isso, a proteção da capacidade de gerar renda também faz parte da preparação para a aposentadoria.
Os próprios números da MAG indicam uma preocupação maior dos consumidores com essa proteção ao longo da jornada. Em 2025, segundo a companhia, as coberturas para cirurgias cresceram 65%, as de doenças graves, 34%, e as de incapacidade temporária, 18%.
A lógica é simples: não basta pensar em quanto será acumulado no futuro se um imprevisto hoje pode interromper a capacidade de continuar poupando.
A previdência privada aparece nesse cenário como uma das ferramentas para a formação de uma reserva de longo prazo e de uma renda complementar. Seu papel, porém, não precisa ser resumido à ideia de “juntar dinheiro para parar de trabalhar”.
Para John Liu, diretor de Investimentos e Previdência da Zurich Santander, a previdência complementar pode ajudar a formar patrimônio, gerar renda adicional e dar mais autonomia para que cada pessoa escolha como deseja viver a aposentadoria.
“O perfil dos aposentados mudou significativamente nos últimos anos. Hoje, as pessoas chegam à aposentadoria com maior expectativa de vida, mais saúde e disposição para permanecerem ativas”, afirma Liu.
O tempo é um dos principais aliados dessa construção. Começar cedo permite distribuir os esforços ao longo de mais anos, tornando os aportes mais compatíveis com a realidade financeira de cada fase da vida.
Essa também é uma das principais mensagens de João Batista Mendes Ângelo, diretor-estatutário da Fenaprevi. Para ele, o planejamento da aposentadoria começa muito antes de a pessoa chegar perto dela, e a disciplina pode ser mais importante do que esperar o momento ideal para começar.
“Comece hoje, comece já, comece o antes que você puder. Amanhã já é tarde”, afirma.
A fala ganha ainda mais relevância diante das transformações demográficas. O regime de Previdência Social brasileiro enfrenta o impacto combinado do envelhecimento da população e da redução da natalidade, o que mantém o debate sobre sustentabilidade do sistema no centro das discussões.
Mendes Ângelo observa que esse cenário também contribui para uma mudança na consciência dos brasileiros sobre a necessidade de construir uma reserva complementar.
Segundo ele, o país começa a demonstrar maior percepção sobre a importância de poupar para o futuro, ainda que a capacidade de efetivamente formar essa reserva varie de pessoa para pessoa.
Para o executivo, começar com pouco pode ser mais importante do que esperar ter condições de fazer grandes aportes. A disciplina construída ao longo dos anos pode ajudar não apenas na aposentadoria, mas também a criar uma reserva capaz de oferecer suporte diante de momentos difíceis da vida.
A mudança no perfil dos aposentados também transforma a maneira de pensar o futuro. A questão já não é apenas “quando vou me aposentar?”, mas também “como quero viver depois disso?”
Para algumas pessoas, a resposta será parar de trabalhar. Para outras, haverá uma segunda carreira, um negócio próprio, uma consultoria, um projeto pessoal ou simplesmente uma jornada profissional mais leve.
John Liu destaca justamente essa diversidade. Segundo ele, muitos aposentados chegam a essa fase com saúde, disposição e experiência suficientes para continuar contribuindo, mas é importante respeitar as diferentes etapas que surgem ao longo de uma vida mais longa, inclusive as necessidades relacionadas à saúde em idades mais avançadas.
É aí que planejamento financeiro e planejamento de vida se encontram. A reserva construída ao longo dos anos não serve apenas para sustentar despesas futuras. Ela pode representar tempo, autonomia e possibilidades.
Para Tatiana Cardoso, da MAG, o planejamento também precisa começar cedo e ser revisto conforme a vida muda. A ideia é não olhar apenas para a acumulação, mas proteger a trajetória até a aposentadoria.
“Mais do que atingir um número, uma aposentadoria bem planejada é aquela que garante tranquilidade, segurança e autonomia durante toda a vida”, afirma.
O desafio é fazer com que essa autonomia alcance também quem não possui renda elevada. Para João Batista Mendes Ângelo, esperar ganhar mais para começar pode ser uma armadilha. A constância dos pequenos aportes ao longo do tempo pode abrir possibilidades que parecem distantes no início da vida profissional.
A aposentadoria, portanto, está deixando de ser um momento único e igual para todos. Em uma sociedade que vive mais, trabalha por mais tempo e atravessa diferentes ciclos profissionais, ela pode assumir vários formatos.
O verdadeiro objetivo do planejamento talvez não seja determinar o dia em que alguém deixará de trabalhar. É chegar a esse momento com condições de escolher.
Escolher continuar. Escolher parar. Escolher diminuir o ritmo. Escolher começar de novo. E quanto antes essa escolha começar a ser construída, maior tende a ser o espaço para que o futuro seja definido pelos projetos de cada pessoa, e não apenas pelas necessidades que surgirem no caminho.

