Notícias | 7 de outubro de 2026 | Fonte: CQCS | Livia Alves

Seguro auto quase dobra de tamanho em dez anos e CNseg projeta novo ciclo de expansão em 2026

O seguro de Automóvel quase dobrou de tamanho no Brasil em uma década. A arrecadação do ramo passou de R$ 31,75 bilhões em 2016 para R$ 61,58 bilhões em 2025, uma alta nominal de 94%, segundo levantamento da Comissão de Inteligência de Mercado da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). Apesar do crescimento expressivo em valores absolutos, a evolução precisa ser analisada dentro do cenário econômico do período.

Para o consultor e responsável pelo Rating de Seguros, Francisco Galiza, o avanço ficou apenas um pouco acima da inflação medida pelo IPCA e não representa um desempenho excepcional quando comparado a outros segmentos do mercado de seguros. Na avaliação dele, houve ramos que apresentaram comportamento mais favorável no período.

“O crescimento de 94% é um pouco acima da inflação, se você considerar pelo IPCA. Agora, não acho que seja algo assim para chamar muita atenção, não. Eu diria que está mais dentro da média do mercado. Teve outros que tiveram um comportamento bem mais favorável. Eu diria que é um comportamento um pouco acima do mercado.”

Ainda assim, a evolução representa um aumento de quase R$ 30 bilhões na arrecadação anual do ramo em dez anos. No mesmo intervalo, as indenizações passaram de R$ 21,24 bilhões para R$ 35,57 bilhões, crescimento de 67%. A diferença entre os ritmos de arrecadação e de indenizações também acompanha transformações na composição da carteira e nos custos relacionados aos veículos e aos reparos.

Um dos principais desafios para o segmento está no tamanho da frota que permanece fora do seguro. Dos cerca de 63,3 milhões de automóveis em circulação no país, aproximadamente 18,4 milhões possuem proteção, o equivalente a 29%. Mais de 44 milhões de veículos, portanto, não contam com seguro.

Para Galiza, a baixa penetração é um problema estrutural do setor e não uma característica exclusiva do Automóvel. Ele cita o segmento empresarial como outro exemplo de ramo com espaço significativo para ampliar a presença do seguro entre empresas brasileiras.

“Não é exclusivo do automóvel. Em outros ramos, a penetração é muito baixa. Por exemplo, segundo o empresarial, a penetração é 15%, na média, em todo o Brasil. Então, é um desafio não apenas do seguro de automóvel, mas também de outros ramos.”

No Auto, porém, existe uma particularidade que ajuda a explicar parte dessa dificuldade: a contratação está concentrada principalmente em veículos novos. Conforme o automóvel envelhece, a participação do seguro tende a diminuir, o que coloca para o setor o desafio de desenvolver alternativas capazes de atender também essa parcela da frota.

Galiza aponta a necessidade de buscar condições mais acessíveis para ampliar esse alcance, especialmente entre proprietários de veículos mais antigos.

“Os seguros são basicamente seguros de veículos novos. À medida que o veículo vai envelhecendo, o seguro diminui muito o percentual. É um desafio para o mercado tentar baixar preços, tentar ver condições melhores etc.”

A evolução da frota ajuda a explicar parte do crescimento observado na última década. Segundo Fábio Morita, vice-presidente de Automóvel, Massificados e Vida da Allianz Seguros, a produção de automóveis no Brasil passou de 2,1 milhões em 2016 para 2,6 milhões em 2025, de acordo com dados da Anfavea. A renovação gradual dos veículos ocorreu paralelamente a mudanças na oferta de seguros e nos hábitos de mobilidade.

“O crescimento do seguro Auto nos últimos anos reflete uma combinação de fatores, incluindo a evolução da frota brasileira e a renovação gradual dos veículos, impulsionadas pelo avanço da produção de automóveis no país. Também houve transformação na oferta de seguros, com produtos mais aderentes a perfis diversos, novas coberturas e serviços e uma jornada de contratação e utilização mais simples.”

Além da expansão da frota, a transformação da mobilidade abriu espaço para novos modelos de utilização dos veículos e, consequentemente, para diferentes necessidades de proteção. Para as seguradoras, isso significa trabalhar não apenas com o produto tradicional, mas também com soluções que considerem características do veículo, perfil do consumidor e nível de proteção desejado.

Na Allianz, essa estratégia inclui uma oferta com diferentes níveis de cobertura e serviços. A companhia trabalha com alternativas mais enxutas, destinadas a consumidores que procuram proteção com uma composição mais objetiva, e opções completas para clientes que priorizam maior abrangência.

A diversificação também alcança categorias específicas. A seguradora ampliou sua atuação em Frotas, com aceitação para veículos de até R$ 1,5 milhão, além de investir em Moto e Caminhão/Pesados. A companhia também aprimorou ferramentas de cotação e avaliação de risco e adotou processos digitais para determinadas etapas da contratação.

Novos veículos puxam perspectivas para 2026

Para 2026, a CNseg projeta crescimento de 7,8% para o ramo Automóvel. Na avaliação de Galiza, o desempenho da indústria automobilística e os estímulos do governo à aquisição de veículos novos devem ter papel importante nesse resultado.

“É um programa do governo. Então, a entrada de carros novos, o emplacamento de carros novos, é muito grande. Então, realmente, em 2026, o fator principal seria o estímulo do governo para a entrada de novos carros.”

O consultor estima que a variação na entrada de novos veículos fique entre 15% e 20%, considerando os dados da indústria automobilística. Para o seguro, o movimento tende a favorecer a contratação de novas apólices, justamente pela maior propensão dos veículos recém-adquiridos a contar com proteção.

“A variação é de 15% a 20%. Você pega os dados da Anfavea de novos veículos, então é uma coisa muito positiva no mercado de automóveis.”

Os números da Allianz mostram um ritmo de crescimento superior ao registrado pelo mercado. Em 2025, a carteira de Auto da companhia avançou 22,5% em relação a 2024, enquanto o setor cresceu 6,8%. No primeiro semestre de 2026, o mercado apresentou alta de 6,2%, ante crescimento de 11,5% da Allianz.

Morita considera que a projeção da CNseg está alinhada ao potencial do segmento, mas avalia que o avanço deve ocorrer também por meio da ampliação da quantidade e da variedade de itens segurados. Nesse movimento, Frotas, Motos e veículos pesados aparecem como frentes de crescimento, enquanto a oferta de diferentes combinações de coberturas permite alcançar públicos com necessidades distintas.

Outro movimento que deve ganhar relevância é o avanço dos veículos híbridos e elétricos. A mudança altera a dinâmica de avaliação de risco e exige conhecimento específico sobre baterias, componentes eletrônicos, reparação e mão de obra.

Segundo Morita, a precificação desses veículos considera suas características específicas, o modelo de utilização e os custos relacionados a peças e reparos. A análise de dados também ganha importância para acompanhar o comportamento desses novos riscos.

A Allianz já oferece proteção específica para híbridos e elétricos, incluindo cobertura para bateria e cabo de carregamento nas situações previstas em apólice, além de assistência 24 horas. A companhia também ampliou a aceitação desses modelos.

Entre janeiro e julho de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025, a carteira da Allianz cresceu 40,5% em veículos híbridos e 65,8% em elétricos. O resultado acompanha a expansão dos emplacamentos, impulsionada especialmente pela entrada de novas marcas no mercado brasileiro.

A transformação tecnológica, porém, não está restrita aos veículos. Ela também vem modificando a própria jornada do seguro, principalmente na contratação e na regulação de sinistros.

Na Allianz, 62% das aberturas de sinistros de Auto no primeiro semestre de 2026 foram realizadas por canais digitais, crescimento de aproximadamente 10% em relação ao mesmo período de 2025. A companhia também utiliza inteligência artificial no Fast Track, processo que permite avaliar imagens e acelerar a análise de ocorrências de menor complexidade.

Para Morita, a tendência é que dados e inteligência artificial sejam cada vez mais utilizados para avaliar riscos, apoiar decisões e antecipar necessidades dos clientes. Ao mesmo tempo, a digitalização pode reduzir atividades operacionais e permitir que o corretor concentre sua atuação na orientação e no relacionamento com o segurado.

O cenário dos próximos anos, portanto, combina fatores tradicionais, como a renovação da frota e a venda de veículos novos, com mudanças estruturais na forma de contratar, utilizar e prestar serviços de seguro. O desafio para o mercado de seguros será transformar o crescimento da frota e a evolução tecnológica em maior acesso à proteção, sem deixar de considerar as diferentes condições dos veículos e dos consumidores.

Com a projeção de alta de 7,8% para 2026, o Automóvel deve continuar entre os segmentos relevantes para a expansão do mercado de seguros. A entrada de veículos novos pode sustentar o avanço no curto prazo, enquanto a diversificação de produtos, a digitalização e a adaptação aos novos modelos de mobilidade tendem a definir as oportunidades de crescimento no médio e longo prazo.

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