A governança da inteligência artificial deixou de ser uma pauta restrita às áreas de tecnologia e compliance e passou a ocupar espaço estratégico nas organizações. Esse foi um dos principais consensos do I Congresso Brasileiro de IA Responsável, promovido pela Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria), realizado na segunda-feira, 14 de setembro, no Espaço Colaborativo da Sompo, em São Paulo, com apoio institucional da seguradora e do escritório Prado Vidigal Advogados.
O evento reuniu executivos, especialistas em tecnologia, privacidade, riscos, compliance, regulação e lideranças empresariais para discutir os desafios da governança de IA, os rumos da regulamentação brasileira e os impactos da tecnologia em diferentes setores da economia.
Na abertura do congresso, o líder do Comitê de IA Responsável da Abria, Luis Fernando Prado, utilizou a história da implantação da energia elétrica como metáfora para o atual momento tecnológico. Segundo ele, “quem resolveu o pânico da energia elétrica não foi quem inventou a eletricidade e muito menos quem legislou sobre ela. Foi quem implementou a governança”. Para Prado, a inteligência artificial representa simultaneamente uma das maiores promessas e um dos maiores desafios da atualidade, tornando a governança fundamental para permitir inovação com confiança.
O painel de abertura contou com a participação de Daniel de Rosa, diretor executivo CIO e COO da Sompo; Isabella Becker, diretora de GRC e Privacidade do Grupo Boticário; e Rodrigo Scotti, presidente do Conselho Deliberativo da Abria e CEO da Nama.ai.
Representando a Sompo, Daniel de Rosa destacou que a seguradora já superou a fase de testes voltados apenas para produtividade individual e passou a incorporar a tecnologia diretamente às operações centrais da companhia. “Nós migramos muito rapidamente para colocar a IA no core da empresa. As decisões começam a ser produzidas pela IA, agilizando negócios e acelerando resultados. É justamente neste momento que surge a necessidade de uma governança mais robusta, mas sem brecar a inovação”, afirmou o executivo.
Na mesma discussão, Rodrigo Scotti observou que o mercado já entrou em uma nova fase de maturidade. Segundo ele, “todo mundo está utilizando inteligência artificial. O desafio agora é organizar esse uso para transformar potencial em valor, evitando um cenário caótico de ferramentas espalhadas, falta de controle e aumento de riscos”.
Regulação brasileira ainda preocupa especialistas
Os debates sobre o Projeto de Lei 2338, que trata da regulamentação da IA no Brasil, também ocuparam lugar central no congresso. Durante o painel sobre regulação, a Deputada Federal e e Vice-Presidente da Comissão Especial de Inteligência Artificial da Câmara dos Deputados, Adriana Ventura, defendeu um modelo menos restritivo para o desenvolvimento tecnológico nacional.
“Empresários não têm medo de regras. O que gera insegurança é a falta de previsibilidade. O Brasil ainda pode escolher se quer ser protagonista ou apenas consumidor de inteligência artificial”, afirmou. A parlamentar alertou ainda para o risco de o país perder competitividade caso adote um modelo excessivamente focado em restrições e custos de conformidade.
Já Luiz Moncau, gerente de Políticas Públicas do Google, destacou a importância de preservar a capacidade de desenvolvimento tecnológico nacional. Segundo ele, “precisamos garantir condições para treinar modelos em português e com conteúdo brasileiro. Sem isso, aumentamos custos, reduzimos qualidade e comprometemos a soberania tecnológica do país”.
Inteligência artificial responsável como diferencial competitivo para o seguro
Um dos momentos de maior interesse para o setor segurador ocorreu no painel “O Valor Gerado pela Adoção de IA Responsável no Setor de Seguros”, moderado por Igor Zavorizi, Head de Dados, Estratégia e Governança de IA da Sompo.
Ao abrir a discussão, Zavorizi reforçou que a adoção de IA pelas seguradoras deve ser tratada como tema estratégico e não apenas como uma iniciativa tecnológica. “Precisamos aproveitar todo o potencial da inteligência artificial sem perder de vista transparência, explicabilidade e a experiência dos clientes. IA responsável precisa gerar valor real para o negócio”, destacou.
O debate mostrou que a governança de IA já começa a ser vista pelas seguradoras como instrumento de geração de valor e não apenas como mecanismo de controle.
Juliana Oliveira Nascimento, Head de Riscos, Compliance e Atuarial da Sompo, destacou que a implementação de inteligência artificial exige uma abordagem muito mais ampla do que simplesmente instalar novas ferramentas.
“Não podemos aplicar a mesma parametrização de apetite de risco para todos os usos de IA. Cada caso precisa ser analisado individualmente, considerando contexto, impacto e linha de negócio. Muitas vezes, o sucesso da iniciativa depende menos da tecnologia e mais da revisão dos processos que serão transformados por ela”, afirmou.
Segundo a executiva, um dos erros mais comuns observados no mercado é investir milhões em soluções de IA sem revisar previamente fluxos operacionais e responsabilidades internas.
Juliana também destacou que o mercado segurador possui uma característica singular: administrar riscos faz parte da essência do próprio negócio. “Ao melhorar a visibilidade sobre riscos, controles e resultados, a IA responsável deixa de ser apenas conformidade e passa a integrar diretamente a estratégia da companhia”, ressaltou.
Na visão de Rodrigo Gouvea, sócio da Oliver Wyman, os modelos de inteligência artificial tendem a se tornar commodities, reduzindo seu potencial de diferenciação competitiva.
“Os modelos estarão disponíveis para todos. O diferencial das seguradoras estará na qualidade dos dados proprietários, no modelo operacional, no treinamento das equipes e na capacidade de criar uma governança escalável ao redor da tecnologia”, afirmou.
Rodrigo acrescentou que as seguradoras que conseguirem combinar IA, dados e governança poderão ampliar sua capacidade de subscrição e assumir riscos que hoje são economicamente inviáveis. “O sucesso do setor daqui a cinco anos será conseguir absorver mais riscos, manter a rentabilidade e preservar o julgamento humano dentro da cadeia de valor”, destacou.
Outro aspecto relevante debatido foi o surgimento de novos negócios para o mercado segurador. Juliana Oliveira ressaltou que a expansão da inteligência artificial criará novas demandas de proteção para ativos digitais, data centers e sistemas inteligentes, abrindo oportunidades para produtos e serviços ainda inexistentes em larga escala no mercado.
Não existe receita única
No encerramento do congresso, Igor Zavorizi destacou que uma das principais conclusões do encontro foi justamente a inexistência de um modelo único de governança.
Segundo ele, “não existe uma receita para implementação da governança de IA. Tudo depende da estratégia, do setor e da maturidade de cada organização. O que é comum a todas elas é a necessidade de adaptar continuamente seus modelos de governança a uma tecnologia que evolui todos os dias”.
A expectativa dos organizadores é que a iniciativa tenha continuidade nos próximos anos, acompanhando a rápida evolução da inteligência artificial e seus impactos sobre empresas, consumidores, governo e sociedade.

