A compra da Austral Seguradora pela americana Liberty Mutual e a negociação envolvendo a operação brasileira da Prudential podem marcar uma retomada das fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) no setor de seguros. Segundo informações do Valor Econômico, os dois negócios devem contribuir para impulsionar o volume de transações em 2026, depois de um primeiro semestre marcado pela redução na quantidade e no valor das operações.
De acordo com dados da KPMG citados pelo Valor Econômico, foram realizadas sete operações no setor de seguros no Brasil entre janeiro e junho, contra 13 no mesmo período de 2025. O valor movimentado também caiu de R$ 966 milhões para R$ 205 milhões, uma retração de 79%.
“A desaceleração ficou mais evidente no segundo trimestre, sinalizando maior seletividade dos investidores na realização de novos negócios”, diz Fernando Mattar, sócio da área de assessoria em transações e estratégia da KPMG.
As operações envolvendo companhias do setor securitário haviam crescido quase 30% entre 2023 e 2024, mas começaram a perder ritmo em 2025, quando o volume recuou 2,4%. O movimento ocorreu em um cenário de juros elevados e aumento do custo de capital das aquisições.
Mateus Pigatto Lenza, vice-presidente da Acorn Advisory, também avalia 2026 como um ano marcado pela seletividade nas operações de M&A em seguros. “O número de transações caiu, mas as operações ficaram maiores e mais estratégicas”, afirma. “O setor não perdeu atratividade. Ele perdeu velocidade por conta dos juros altos e do calendário eleitoral.”
A disputa pela Prudential é um dos exemplos desse movimento. Segundo o Valor Econômico, quatro grupos haviam avançado na disputa em setembro: CNP Assurances, MetLife, Mapfre e a japonesa Dai-ichi.
A seguradora, especializada em vida e acidentes pessoais, espera levantar entre R$ 17 bilhões e R$ 21 bilhões com a venda da operação brasileira, segundo informações do Pipeline, site de negócios do Valor. Em 2025, a Prudential registrou R$ 7,5 bilhões em prêmios e lucro líquido de R$ 1,2 bilhão. A companhia não comenta a operação.
Já na aquisição da Austral pela Liberty Mutual, os termos financeiros não foram divulgados. A seguradora, que era controlada pela Vinci, passou a integrar a operação da companhia americana.
A aquisição também marca a retomada da Liberty Mutual ao mercado brasileiro. Em 2023, a empresa vendeu sua operação na América Latina, concentrada em seguros patrimoniais, automóveis e pessoas, para o grupo alemão Talanx, controlador da HDI. A transação foi avaliada, na época, em cerca de 1,3 bilhão de euros. No Brasil, os negócios adquiridos passaram a operar sob a marca Yelum Seguradora.
Agora, a estratégia da Liberty é avançar especialmente no segmento de seguro garantia. “O Brasil é um dos mercados de seguros mais importantes da América Latina, e essa aquisição reflete o compromisso de longo prazo da Liberty com a região”, afirmou Manuel Moreno, presidente e diretor de subscrição das operações da Liberty Specialty Markets na América Latina e nos EUA, em comunicado. “A combinação do conhecimento de mercado da Austral com a força global da Liberty nos coloca em posição de crescer, aprofundar nosso relacionamento com corretores e clientes e oferecer ainda mais valor em todo o Brasil e na região”, disse.
Além do seguro garantia, a Austral possui atuação em riscos ligados à cadeia de produção e infraestrutura energética, segmento conhecido como energy. Segundo dados citados pelo Valor Econômico, os prêmios emitidos nessa área somaram R$ 857,9 milhões em 2025, com participação de mercado de 44,9%. No mesmo ano, o lucro da Austral chegou a R$ 53 milhões, alta de 22%.
Outro negócio realizado nos últimos meses foi a aquisição da Fator pela Sompo, subsidiária responsável pelas operações de seguro e resseguro do Grupo Sompo Holdings fora do Japão. Segundo Alfredo Lalia Neto, presidente da companhia, a operação busca ampliar a atuação em seguros patrimoniais, garantia e linhas financeiras voltadas a clientes corporativos.
“Não se trata apenas de ganhar escala, mas de reunir talentos, conhecimento especializado e relacionamentos de mercado que permitirão ampliar nossa relevância junto a corretores e clientes empresariais. Estamos construindo uma companhia cada vez mais preparada para atender riscos complexos e acompanhar a evolução das necessidades das empresas brasileiras.”
Além das operações envolvendo seguradoras, as corretoras devem continuar representando uma parcela relevante das transações de M&A no setor. Entre os negócios realizados em 2026 está a aquisição da corretora Made4Life pela Fami Capital.
“A fragmentação desse mercado, combinada à ainda baixa penetração de seguros no Brasil, cria espaço para consolidação, com empresas buscando ampliar escala, portfólio de produtos e cobertura geográfica”, diz Mattar.
Segundo o executivo, as insurtechs também permanecem no radar dos investidores, especialmente de fundos de private equity e venture capital.

