A Alper Seguros alerta para uma “lacuna bilionária” na proteção das empresas brasileiras diante do avanço dos eventos climáticos extremos. Com a previsão de um El Niño de forte intensidade entre setembro e outubro de 2026, a corretora chama atenção para um problema que vai além dos danos físicos: empresas podem manter seus imóveis intactos e, ainda assim, sofrer grandes perdas financeiras por causa da paralisação das operações e de impactos nas cadeias de suprimentos.
Segundo Fábio Ursaia, SVP de Riscos Corporativos e Resseguros da Alper Seguros, enchentes, secas prolongadas e ondas de calor deixaram de ser exceções e passaram a fazer parte da agenda permanente de gestão de riscos das organizações. Para ele, o desafio agora é transformar essa percepção em preparação efetiva.
“O evento climático não é mais o risco. O risco está em continuar tratando como imprevisível algo que já sabemos que vai acontecer. A pergunta não deveria ser se a empresa sofrerá algum impacto climático relevante nos próximos anos, mas quão preparada ela estará quando isso ocorrer”, afirma.
Um dos principais pontos levantados pela Alper está na diferença entre proteger o patrimônio físico e proteger a capacidade de geração de receita. Em um evento climático severo, uma fábrica, loja ou centro de distribuição pode sofrer poucos danos estruturais, mas permanecer impossibilitada de operar porque fornecedores, transportadores ou parceiros estratégicos foram afetados.
“Talvez a maior lacuna de proteção no Brasil não está necessariamente na ausência de seguros, mas no foco equivocado”, explica Ursaia. Segundo ele, as empresas podem sofrer perdas significativas mesmo quando suas próprias instalações permanecem preservadas, caso a interrupção da cadeia comprometa a operação.
Nesse cenário, coberturas como Lucros Cessantes por Danos Materiais e Interrupção de Negócios (Business Interruption) ganham relevância. A Alper destaca que essas proteções podem ajudar a reduzir os impactos financeiros provocados pela paralisação das atividades, de acordo com as condições e limites previstos em cada contrato.
O risco também varia de acordo com a localização da empresa. O El Niño pode provocar efeitos distintos no território brasileiro, com chuvas intensas e enchentes em determinadas áreas, enquanto outras regiões podem enfrentar seca, queimadas ou restrições que afetam a produção e a logística.
Por isso, para empresas com operações em diferentes estados, a proteção precisa considerar as características específicas de cada unidade. A própria Alper afirma trabalhar com uma abordagem consultiva para identificar as necessidades de cada negócio e estruturar soluções customizadas de mitigação de riscos.
“A construção da proteção deve partir do mapa de vulnerabilidades do negócio. É necessário entender onde estão os ativos críticos, quais unidades geram mais receita e quais fornecedores são indispensáveis”, detalha Ursaia.
Essa avaliação amplia também o papel do corretor de seguros. Em vez de concentrar a conversa apenas no valor dos bens segurados, o profissional pode ajudar o cliente a identificar quais pontos da operação são essenciais para manter a empresa funcionando e quais consequências financeiras poderiam surgir caso determinada atividade fosse interrompida.
A preocupação chega também aos níveis mais altos de gestão. Para a Alper, os riscos climáticos já devem ser tratados como uma questão de governança, especialmente diante da maior disponibilidade de dados históricos, modelos preditivos e projeções científicas.
“Durante muito tempo, esse tema foi tratado como uma questão operacional ou ambiental. Hoje, ele é um tema de governança. Os eventos climáticos deixaram de ser apenas testes de infraestrutura; passaram a ser testes de governança”, afirma o executivo.
Nesse cenário, a discussão sobre seguro patrimonial deixa de ser apenas sobre quanto vale o prédio, a máquina ou o estoque. A questão passa a envolver quanto custa manter a operação parada, quais fornecedores são indispensáveis e por quanto tempo a empresa conseguiria suportar uma interrupção sem comprometer seu caixa.
Para o corretor, essa mudança representa uma oportunidade de atuar de forma ainda mais consultiva. O desafio é ajudar o cliente a sair de uma lógica de proteção apenas do patrimônio visível para uma estratégia que considere também continuidade dos negócios, cadeia de suprimentos e capacidade financeira de absorver um evento climático.
No fim, a pergunta para as empresas já não é apenas se estão seguradas contra uma enchente, uma seca ou outro evento extremo. É saber se a proteção contratada será suficiente para manter o negócio de pé quando o próximo choque climático acontecer.

