O retorno do El Niño e a previsão de eventos climáticos mais severos em diferentes regiões do Brasil reforçam uma preocupação que ganhou força após as enchentes históricas do Rio Grande do Sul: empresas, produtores e consumidores estão realmente preparados para enfrentar novos desastres naturais? Para especialistas do setor, a resposta passa pela revisão das coberturas, atualização dos valores segurados e maior atenção à gestão de riscos.
Embora as enchentes de 2024 tenham colocado o tema no centro do debate sobre proteção financeira, novos eventos extremos mostram que a exposição permanece. No agronegócio, por exemplo, as previsões para 2026 apontam para impactos diferentes conforme a região, com possibilidade de chuvas intensas e tempestades no Sul e seca severa no Norte e Nordeste.
Segundo Afonso Arinos, especialista em Agronegócios e Diretor de Agro da Alper Seguros, o principal aprendizado é que não basta contratar uma apólice e mantê-la sem revisão diante de um cenário climático que mudou.
“Olhar para uma apólice de ano neutro e achar que ela serve para o ‘Super El Niño’ de 2026 é o equivalente a ir para uma tempestade usando um guarda-chuva bonitinho, mas você vai se molhar inteiro”, afirma.
Um dos pontos de atenção está nos valores segurados. Com o aumento dos custos de produção e dos insumos, manter os mesmos limites contratados anteriormente pode resultar em uma proteção insuficiente diante de um grande prejuízo.
“Se você manteve o limite antigo, no caso de uma quebra severa, a indenização só vai pagar ‘metade do buraco’, tirando a sua capacidade de investir na próxima safra”, alerta Arinos.
Para o especialista, o seguro precisa ser encarado como uma ferramenta de governança e proteção do retorno sobre o investimento, e não apenas como uma despesa.
A necessidade de revisão também se aplica ao tipo de cobertura. No Sul, onde a previsão é de maior volume de chuvas, tempestades e granizo, podem ser considerados seguros de produtividade ou estruturas customizadas. Já no Norte e Nordeste, onde a preocupação é com a estiagem, seguros paramétricos e multirriscos podem ser alternativas.
Outra tendência apontada por Arinos é o avanço do seguro paramétrico, que utiliza indicadores previamente definidos, como volume de chuva ou temperatura, para determinar o pagamento da indenização.
“O seguro paramétrico é o ‘papo reto’ do mercado. Se a apólice diz que o gatilho é ficar 25 dias consecutivos sem chuva na coordenada X e o satélite registrou isso, a indenização é disparada automaticamente na conta do produtor em poucos dias”, explica.
A modalidade pode ser especialmente relevante em situações de eventos extremos, nas quais a velocidade para recompor o caixa é determinante para a continuidade da atividade.
Diante de um cenário climático mais imprevisível, o corretor ganha importância na avaliação periódica dos riscos e na orientação sobre as coberturas mais adequadas.
A recomendação é não esperar a ocorrência de um novo desastre para descobrir que a proteção contratada não acompanha a realidade atual. Além de avaliar valores segurados e coberturas, o profissional deve observar condições específicas de cada atividade e região.
No agronegócio, Arinos destaca ainda a importância de respeitar o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC). Segundo ele, o descumprimento das recomendações oficiais pode comprometer o direito à indenização.
“Ignorar o ZARC para tentar ‘ganhar tempo’ na chuva irregular é o equivalente agro de saltar de paraquedas sem checar se a mochila está com as cordas presas”, afirma.
Para o especialista, a principal lição deixada pelas enchentes no Rio Grande do Sul e por outros eventos extremos é a necessidade de antecipação. Em um mercado que pode restringir a aceitação ou alterar preços diante do aumento da exposição climática, revisar a proteção antes da ocorrência do evento pode fazer diferença.
“Ninguém quer vender seguro contra incêndio com a casa já pegando fogo. A vantagem da antecipação é puramente estratégica”, conclui.

