Com cerca de 92% da população europeia protegida por ao menos uma apólice de seguro, o continente se tornou referência em cultura de proteção. No Brasil, onde apenas cerca de 20% da população possui seguro, especialistas defendem que educação financeira e conscientização são fundamentais para mudar esse cenário.
Enquanto na Europa contratar um seguro faz parte da rotina da população, no Brasil, essa realidade ainda está longe de ser alcançada. Segundo dados da Eurobarómetro apontam que cerca de 92% dos europeus possuem pelo menos uma apólice de seguro ativa, enquanto entre os brasileiros esse percentual gira em torno de 20%. A diferença evidencia não apenas um contraste entre mercados, mas duas formas distintas de enxergar a proteção financeira.
Na avaliação do diretor de Assuntos Corporativos e Relações Sindicais da CNseg, André Nunes, reduzir essa distância deve ser uma meta para o país. Segundo ele, “esse patamar de cobertura da população é um marco impressionante e um objetivo importante a se buscar para a proteção socioeconômica da sociedade brasileira”. O executivo explica que uma sociedade amplamente protegida é mais resiliente diante de crises econômicas, eventos climáticos e perdas patrimoniais, já que o seguro reduz significativamente os impactos financeiros dos imprevistos.
“Quando quase toda a população possui algum tipo de proteção, o impacto de desastres climáticos, problemas de saúde ou crises financeiras familiares é drasticamente amortecido. Essa cobertura em massa reduz consideravelmente a pressão sobre o orçamento do Estado e evita riscos catastróficos para as famílias após um sinistro”, afirma André Nunes.
Segundo ele, o elevado índice de contratação observado na Europa não foi construído de forma imediata, mas é resultado de décadas de desenvolvimento de uma cultura voltada à prevenção e à gestão de riscos. Além da educação financeira consolidada, o continente conta com um ambiente regulatório robusto e políticas públicas que estimulam a contratação de seguros.
“O cidadão europeu internalizou a percepção de risco e enxerga o seguro como uma despesa essencial de proteção, não como um custo do qual se possa abrir mão”, ressalta o diretor da CNseg. Ele acrescenta que, em diversos países europeus, modalidades como seguros de responsabilidade civil, habitacionais e previdência complementar são obrigatórias ou fortemente incentivadas, ampliando o acesso da população de forma estruturada.
Embora o mercado de seguros brasileiro represente aproximadamente 6% do Produto Interno Bruto (PIB), ampliar essa participação continua sendo um dos principais desafios do setor. Para André Nunes, um dos maiores obstáculos é a falsa percepção de que contratar um seguro é caro e incompatível com o orçamento das famílias.
“O brasileiro ainda acredita que o pior nunca acontecerá com ele. Essa baixa percepção de risco faz com que muitos só busquem proteção quando existe uma exigência legal ou contratual, como nos financiamentos imobiliários”, observa.
O executivo destaca que essa realidade vem sendo enfrentada pelo mercado com investimentos na simplificação das apólices, na digitalização dos processos e na ampliação da oferta de microsseguros, tornando os produtos mais acessíveis e fáceis de compreender.
Para o professor da Escola de Negócios e Seguros (ENS), Renato Gonçalves, a elevada penetração dos seguros na Europa é resultado da combinação entre fatores culturais, econômicos e regulatórios.
Segundo ele, o mercado europeu opera sob um ambiente altamente estruturado, supervisionado por órgãos reguladores que garantem elevados padrões de transparência, proteção ao consumidor e qualificação profissional, fortalecendo a confiança da sociedade no setor.
“O mercado europeu possui experiência e normas bem estabelecidas. Já o Brasil reúne criatividade, tecnologia e potencial de crescimento. Se unirmos a experiência e a cultura europeia com a inovação brasileira, teremos um mercado ainda mais desenvolvido”, afirma.
Renato explica que, em diversos países europeus, existem seguros obrigatórios para atividades e patrimônios específicos, como responsabilidade civil para veículos, acidentes de trabalho e proteção patrimonial. Além disso, a regulamentação elevou os padrões de qualificação dos profissionais e de adequação dos produtos às necessidades dos consumidores.
Outro fator apontado pelo especialista é o aumento da percepção dos riscos contemporâneos, como mudanças climáticas, envelhecimento da população, ataques cibernéticos e transformações demográficas, que reforçam a importância da proteção financeira.
Os especialistas são unânimes ao afirmar que a educação financeira será decisiva para aproximar o Brasil dos níveis de proteção observados na Europa.
Segundo André Nunes, compreender o impacto financeiro de um grande imprevisto faz com que o consumidor perceba que contratar um seguro é mais inteligente do que assumir sozinho todos os riscos.
“Quando a população entende que o seguro não é um bilhete de loteria que se perde quando não é utilizado, mas sim a compra de paz de espírito e a proteção do patrimônio, todo o mercado avança de forma sustentável”, destaca.
Na mesma linha, Renato Gonçalves afirma que ainda é necessário fortalecer o conhecimento da população sobre gerenciamento de riscos, proteção da renda, sucessão patrimonial e planejamento financeiro.
“Quando as pessoas compreendem esses conceitos, deixam de enxergar o seguro como um custo e passam a percebê-lo como uma garantia financeira capaz de evitar perdas potencialmente devastadoras”, afirma.
Para ele, esse processo também fortalece o papel do corretor de seguros, que deixa de ser apenas um distribuidor de produtos para atuar como consultor de riscos e parceiro estratégico dos clientes.
Apesar da diferença em relação ao mercado europeu, Renato Gonçalves acredita que o Brasil vive uma oportunidade importante para ampliar a cultura do seguro.
Segundo o professor, o avanço da digitalização, da inteligência artificial, dos novos canais de distribuição e da personalização dos produtos pode acelerar significativamente o acesso da população às soluções de proteção.
Ele cita como exemplo a imersão internacional “Práticas Europeias em Produtos e Distribuição de Seguros”, promovida anualmente pela ENS em Portugal, que apresenta aos profissionais brasileiros modelos de distribuição, tendências regulatórias e inovações adotadas em um dos mercados mais maduros do mundo.
Enquanto a Europa consolidou, ao longo de décadas, uma cultura em que o seguro faz parte do planejamento financeiro das famílias, o Brasil ainda trabalha para ampliar a conscientização da população sobre a importância da proteção. Para especialistas, reduzir essa distância dependerá da combinação entre educação financeira, inovação, atuação dos corretores e desenvolvimento de produtos cada vez mais acessíveis, permitindo que o seguro deixe de ser visto como um custo e passe a ser reconhecido como um instrumento essencial de segurança econômica e social.

