A intensificação do El Niño e a elevada probabilidade de que atinja intensidade excepcional até o fim do ano pode influenciar o calendário agrícola e o desenvolvimento do milho segunda safra de 2027. Novo relatório do IRB(P&D), área de pesquisa do ressegurador IRB(Re), investiga a associação entre a intensidade do fenômeno climático e as anomalias de produtividade do milho segunda safra nos quatro principais estados produtores do Brasil: Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná.
O milho segunda safra, conhecido como safrinha, consolidou-se como o principal componente da produção brasileira de milho. Na safra 2024/25, sua produção foi estimada em aproximadamente 110 milhões de toneladas, de um total de 137 milhões de toneladas de milho produzidas no país, o equivalente a cerca de 80% da produção nacional.
Cultivado predominantemente após a colheita da soja, com semeadura entre janeiro e março, seu desenvolvimento ocorre, em grande parte do Centro-Oeste, durante a transição entre as estações chuvosa e seca. Alterações na distribuição das precipitações, portanto, podem afetar o desenvolvimento e a colheita da soja, influenciando o calendário de semeadura do milho segunda safra e sua exposição a condições de déficit hídrico durante as fases críticas de desenvolvimento.
Segundo boletim da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) divulgado em outubro, a probabilidade de manutenção de condições de El Niño forte ou muito forte de janeiro a março de 2027 supera 83%. Para o período de março a maio, as previsões ainda indicam 85% de probabilidade de persistência do El Niño, já com tendência de enfraquecimento.
“O cenário reforça a importância de antecipar a avaliação dos riscos de quebras severas em diferentes regiões produtoras, subsidiando o planejamento e a gestão das exposições no setor de seguros e resseguros agrícolas. Os resultados do nosso estudo sugerem atenção especial à possibilidade de perdas simultâneas de produtividade no Centro-Oeste durante eventos de El Niño muito forte”, destaca Reinaldo Marques, superintendente Atuarial do IRB(Re).
A análise do IRB(P&D) compreende 23 safras de milho segunda safra, entre 2003 e 2025. Além dos quatro estados de maior produção, foram avaliados cinco dos maiores municípios produtores de cada um desses estados, totalizando 20 municípios. Em conjunto, os estados responderam por aproximadamente 72% da produção nacional de milho segunda safra no período de 2021 a 2025.
Dentre as safras classificadas como El Niño moderado ou mais intenso, as associadas a El Niño muito forte apresentaram perdas expressivas nos estados do Centro-Oeste. A seca de 2016 foi a mais severa entre os três eventos de El Niño intenso analisados (2010, 2016 e 2024), sendo a mais extensa, a mais intensa e a mais duradoura.
Em 2016, a anomalia estadual foi de −34% no Mato Grosso, −43% em Goiás e −27% no Mato Grosso do Sul. O Paraná apresentou comportamento distinto. Nas safras classificadas como El Niño moderado ou mais intenso, a anomalia média estadual foi de +2,6%. As perdas mais expressivas ocorreram nas safras classificadas como La Niña moderada ou mais intensa, como em 2021 (−37%). Nos municípios, as perdas podem ser ainda maiores: enquanto em 2016, Goiás perdeu 43% no agregado estadual, alguns dos principais municípios chegaram a 56% de perda.
“A próxima safra de inverno exigirá ainda mais cautela por parte dos produtores, especialmente nas regiões impactadas pelo El Niño. O milho safrinha apresenta, historicamente, desafios significativos relacionados à operacionalidade, em função das curtas janelas de plantio e da dependência de condições adequadas de chuva e umidade do solo para o estabelecimento e desenvolvimento da lavoura. Eficiência operacional e decisões estratégicas serão determinantes para o resultado da safra. Nesse contexto, a contratação de um seguro agrícola aderente à realidade da propriedade e do produtor também deve ser considerada como parte essencial do planejamento e da gestão de riscos”, avalia Gláucio Toyama, diretor de Soluções Hub Agro do IRB(Re).
Embora a influência do El Niño sobre o clima do Centro-Oeste apresente considerável variabilidade espacial e temporal, suas possíveis repercussões sobre o regime de chuvas são extremamente relevantes para a produção agrícola. No entanto, a análise do IRB(P&D) conclui que a intensidade do El Niño, isoladamente, não antecipa a ocorrência ou a severidade das quebras de safra. “Para a safra de 2027, recomenda-se acompanhar a precipitação, o calendário agrícola e as condições de seca ao longo do ciclo”, resume Reinaldo.Clique aqui para acessar o relatório na íntegra.

