Notícias | 21 de setembro de 2026 | Fonte: IstoÉ Dinheiro

El Niño encarece seguro automóvel? Especialistas respondem

A intensificação do El Niño, que pode favorecer episódios de chuva forte, granizo, alagamentos e quedas de árvores em partes do Brasil, acende um alerta entre proprietários de veículos: a maior exposição a esses eventos pode encarecer o seguro automóvel? Embora não haja uma relação automática, as seguradoras avaliam os riscos climáticos em um cenário de intensificação de fenômenos climáticos extremos no país.

O que acontece com o seguro automóvel?

  • A previsão de um El Niño mais intenso não provoca, isoladamente, uma alta imediata no preço do seguro automóvel.
  • Seguradoras consideram danos por eventos climáticos, mas o preço final combina múltiplos fatores, como modelo do veículo e perfil do condutor.
  • A análise de riscos inclui dados históricos e inteligência artificial para se adaptar às mudanças nos padrões climáticos.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou, no início de setembro, que o El Niño deve se tornar muito forte, aumentando o risco de eventos climáticos extremos. A entidade ressalva, porém, que os efeitos variam entre as regiões e que outros fenômenos oceânicos e atmosféricos podem reforçá-los ou enfraquecê-los.

No Brasil, um El Niño mais intenso pode elevar o risco de chuvas fortes, tempestades, granizo e alagamentos, principalmente no Centro-Sul. Para o seguro automóvel, isso representa maior exposição dos veículos e a possibilidade de aumento no número de sinistros, ou seja, ocorrência do risco previsto no contrato de seguro.

Carlos Pelais, coordenador da Comissão de Automóvel do Sindicato dos Corretores de Seguros de São Paulo (Sincor-SP), pondera, contudo, que “não existe uma relação automática e uniforme: os efeitos variam conforme a região, a intensidade dos eventos e a concentração de veículos nas áreas atingidas”.

Os eventos climáticos já representam uma parcela relevante das despesas do setor. Em dois mil e vinte e quatro, as seguradoras pagaram R$ 7,3 bilhões em indenizações relacionadas a esses episódios, segundo o Radar de Eventos Climáticos e Seguros no Brasil, elaborado pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) em parceria com a consultoria EY. O seguro automóvel respondeu por 19% desse montante.

Clima é apenas um dos fatores do preço?

O preço do seguro, tecnicamente chamado de prêmio, resulta da combinação de informações como:

  • modelo e valor do veículo;
  • perfil de utilização;
  • local de circulação e pernoite;
  • histórico de sinistros;
  • índices de roubo e furto;
  • custo dos reparos.

Eventos climáticos também entram nessa conta, sobretudo quando determinada região passa a registrar perdas com maior frequência e severidade. Porém, “não é possível afirmar que uma previsão de El Niño provocará, isoladamente, uma alta imediata nos preços”, observa Pelais.

Anália Brum, diretora de Seguros e Jurídico da Justos Seguradora, explica que as empresas analisam diferentes fatores em conjunto e recorrem à diversificação geográfica da carteira e ao resseguro, uma espécie de “seguro das seguradoras”, que divide a exposição a possíveis perdas.

“O preço do seguro considera muitos fatores de forma conjunta, inclusive dados históricos. O El Niño não é uma novidade; a gente já tem isso historicamente considerado nos nossos modelos”, diz a diretora Anália Brum. Os dados históricos continuam relevantes, mas as mudanças nos padrões climáticos exigem ajustes nos cálculos.

“Olhar para o passado continua fazendo muito sentido, mas a gente vê a necessidade de calibragem para o que vem no futuro, porque as coisas estão acontecendo cada vez mais rápido e com padrões um pouco diferentes”, acrescenta Anália. Segundo ela, a Justos utiliza inteligência artificial em seus modelos para incorporar essas transformações à avaliação dos riscos.

Na Porto Seguro, a análise combina informações climáticas, características do solo, projeções sobre o clima e dados da própria carteira. “A Porto hoje, na sua modelagem, olha tanto dados de clima como dados de solo e de projeção climática, que vêm muito de estudos globais, para fazer a precificação”, detalha Patricia Chacon, CEO da seguradora. A companhia também mantém resseguro nas carteiras dos seguros patrimonial, automóvel e de vida.

De acordo com Patricia Chacon, o preço praticado atualmente já incorpora a possibilidade de episódios extremos. “Hoje, na nossa precificação, a gente já tem considerado que podem acontecer todos os anos eventos climáticos”, diz a CEO. Assim, o motorista pode sentir os efeitos da mudança do clima no preço ao longo do tempo, principalmente se a região onde circula ou mantém o veículo passar a registrar perdas mais frequentes ou mais caras. Isso não significa, contudo, que todos os segurados de uma área receberão o mesmo reajuste ou que o El Niño determinará sozinho o valor da renovação.

Além de usar essas informações na precificação, Patricia conta que a Porto, em parceria com o Sindicato das Seguradoras de São Paulo (Sindseg-SP) e a Prefeitura de São Paulo, participou do mapeamento das áreas da capital mais expostas a riscos climáticos. A ferramenta de simulação reúne informações sobre o solo, a capacidade de drenagem e os possíveis impactos de chuvas fortes sobre a população e a atividade econômica. Segundo a executiva, a prefeitura pode usar os dados para priorizar obras, como piscinões e sistemas de drenagem, e simular quanto essas intervenções reduziriam o risco em cada região. Ela conta ainda que o projeto foi iniciado em junho e teve equipes municipais treinadas entre agosto e setembro para utilizar a tecnologia.

Cobertura contratada também exige atenção

Além do preço, o cenário exige atenção às proteções incluídas na apólice, contrato de seguro. Os seguros com cobertura compreensiva geralmente contemplam danos provocados por alagamentos, inundações, granizo e quedas de árvores, mas produtos restritos a roubo e furto podem deixar esses eventos de fora.

Como somente 29% da frota brasileira possui seguro, segundo estimativas da CNseg, grande parte dos prejuízos causados por enchentes ainda recai diretamente sobre os proprietários.

Segundo os especialistas, para o consumidor não ficar na mão quando precisar acionar o seguro, a recomendação é sempre conferir:

  • os riscos cobertos;
  • os limites de indenização;
  • o valor da franquia;
  • as exclusões do contrato.

Quem possui uma proteção limitada pode consultar o corretor sobre a possibilidade de ampliá-la antes de qualquer ocorrência, já que uma cobertura contratada posteriormente não indeniza um dano que tenha acontecido antes de sua inclusão na apólice.

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