Remédios que não chegam, reembolsos sem previsão de pagamento e horas de espera para atendimento. Enquanto se desenrola a crise da Unimed Ferj, usuários que dependem da operadora para dar andamento a seus tratamentos reclamam de falta de informações e relatam enfrentar longas filas em busca de respostas sobre a regularização dos serviços.
Com as recentes instabilidades no aplicativo e site — constatadas pelo Procon Carioca, que notificou a operadora na quarta-feira —, as agências físicas da Unimed Ferj têm sido mais procuradas. Ontem, a loja da operadora na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste do Rio, ficou cheia, com horas de espera para atendimento.
A aposentada Genilda Martins do Carmo, de 68 anos, amargou seis horas no local em busca de informações sobre seu tratamento de câncer de mama. Uma vez por mês ela precisa buscar os comprimidos receitados pelo médico. Em dezembro, a entrega dos medicamentos atrasou, e agora em janeiro, outra vez.
Reembolso que não sai
Genilda conta que, até meados do ano passado, buscava os comprimidos na unidade da Oncoclínicas na Avenida Armando Lombardi. Quando a rede descrendenciou a Ferj (o atendimento foi posteriormente retomado), ela foi encaminhada ao Espaço Cuidar Bem, em Botafogo. Mas agora, ficou sem saber aonde ir após relatos de que a unidade própria da operadora no bairro da Zona Sul fechou as portas.
Só no fim desta quinta-feira ela foi informada que precisaria esperar até dez dias úteis para buscar a medicação numa unidade da Oncoclínicas, após seu prontuário ser transferido de volta para a rede oncológica quando a Unimed do Brasil, que assumiu a operação da carteira da Ferj, firmar um acordo com a Oncoclínicas para restabelecer o atendimento.
A aposentada reclama que há três anos espera reembolso de uma cirurgia, calculado em mais de R$ 3 mil, até agora sem previsão de pagamento.
— Já vim aqui umas seis vezes. É protocolo após protocolo. Marcam data e não pagam. É muito degradante — desabafa Genilda.
Paciente sem infusão
Aos 82 anos, Anna Beli Onório de Mello também esteve na agência da Barra em busca de informações sobre suas infusões de ferro, atrasadas há dois meses. Professora aposentada e artista plástica, ela precisa da substância desde o tratamento de um tumor no intestino.
Paciente da Ferj desde 2007, a aposentada conta desembolsar cerca de R$ 2,2 mil mensais para manter a cobertura, mas terá que esperar pelo menos mais dez dias úteis, contados a partir apenas da próxima segunda-feira:
— Sem a infusão fico muito fraca. E a necessidade maior é que preciso fazer uma cirurgia por uma câncer de pulmão e preciso ter feito a infusão antes.
Os problemas na rede credenciada se acentuaram no ano passado, quando alguns grupos hospitalares suspenderam o atendimento de usuários da Unimed Ferj. No início de dezembro, a Unimed do Brasil informou que firmou acordo com seis redes hospitalares e de laboratórios para “normalizar e expandir o atendimento” aos usuários. A lista inclui unidades como o Prontobaby e os hospitais Pró-Cardíaco, Samaritano, Vitória e São Lucas. Mas há relatos de problemas.
Operadora vetada
Paulo Marcelo Freire, 48, conta que sua mãe, Maria Alice Freire, 78, procurou o hospital São Lucas em 28 de dezembro com um quadro de gripe forte. Ela foi informada que a unidade não aceitava mais pacientes da operadora. A aposentada então se encaminhou ao pronto-socorro de Copacabana, onde esperou cerca de três horas e meia para ser atendida.
— Minha mãe gasta R$ 5 mil com o plano. Decidimos mudar de convênio porque essa situação é uma loucura — diz Paulo Freire.
Nesta semana, o clima de incerteza entre os usuários se agravou com a decisão da Associação de Hospitais do Estado do Rio de Janeiro (Aherj) de votar em assembleia pela suspensão do atendimento de usuários da operadora pelas redes de saúde que integram a entidade. Segundo a associação, a decisão é uma recomendação, que pode ou não ser seguida pelas unidades.
Nos prontos-socorros da operadora, o movimento já está maior e há relatos de demora em atendimentos.
Sem médicos
A aposentada Angela Ferreira Batalha relatou ontem demora de três horas para ser atendida no pronto-socorro de Copacabana. Ela conta que buscou médicos credenciados no aplicativo da operadora na quarta-feira, quando começou a se sentir mal, mas a plataforma deu a seguinte informação: “não há médicos disponíveis na região”.
— Meus médicos falaram que pararam de atender porque estão há nove meses sem receber. Alguns dizem que se a gente disser que é usuário da Ferj, dá para pagar uma consulta mais barata. Mas eu não quero pagar consulta, já pago R$ 5 mil de mensalidade — reclama Angela.
Procurada, a Unimed Ferj afirmou que os relatos da reportagem “são casos distintos” e que vai “apurar cada um deles, tomar as providências necessárias e responder aos questionamentos”.

