O cenário político da Venezuela voltou a ganhar peso nas análises de risco do mercado de seguro de crédito, não apenas pelo impacto local, mas principalmente pelos reflexos indiretos que pode provocar em toda a América Latina. Para as seguradoras, o tema deixou de ser apenas econômico e passou a envolver também riscos institucionais, capazes de afetar operações comerciais, pagamentos e cadeias de suprimentos regionais.
Segundo Caio Lhano, Diretor de Seguro de Crédito da Avla Brasil, a instabilidade política amplia a imprevisibilidade sobre as regras do jogo. “Em ambientes assim, o risco deixa de ser apenas econômico e passa a ser também institucional: decisões políticas podem afetar pagamentos, operações comerciais e a capacidade das empresas de honrar compromissos, mesmo quando elas são operacionalmente viáveis”, explica.
Na prática, isso exige uma leitura mais ampla por parte das seguradoras de crédito. “Isso significa acompanhar não só indicadores macroeconômicos tradicionais, como inflação e atividade econômica, mas também a evolução do ambiente político, da governança e das relações internacionais do país, principalmente o impacto setorial nas cadeias de suprimentos dos mais diversos setores”, afirma Lhano. Quanto maior a instabilidade, maior tende a ser a cautela, especialmente em operações de médio e longo prazo.
Mesmo empresas sem exposição direta à Venezuela podem sentir os efeitos desse cenário. De acordo com o executivo, instabilidades políticas costumam gerar ruídos no comércio regional. “Afetam logística, custos de transporte, acesso a financiamento e até o comportamento de parceiros comerciais”, pontua. Além disso, a relevância da Venezuela nos setores de energia e commodities faz com que qualquer mudança abrupta em produção ou regras de exportação influencie preços, fluxos comerciais e a liquidez de empresas em países vizinhos.
Outro reflexo importante aparece no comportamento de bancos e financiadores. “Em momentos de tensão, é comum que adotem uma postura mais conservadora em toda a região, o que acaba impactando empresas sem relação direta com o país, mas inseridas no mesmo contexto geopolítico”, destaca.
Esse ambiente de incerteza também se reflete nas condições do seguro de crédito. “Em cenários de maior incerteza política, o risco passa a ser percebido como mais volátil, o que se reflete em ajustes de custo e condições”, explica Lhano. Segundo ele, o preço costuma reagir mais rapidamente, enquanto a concessão de limites passa por uma análise mais estrutural. “Quando a instabilidade se prolonga ou se intensifica, surgem maior seletividade, redução de limites ou até retração de capacidade em determinados mercados.”
Diante desse contexto, o seguro de crédito ganha relevância como ferramenta de proteção. “Ele ajuda as empresas a protegerem seu fluxo de caixa contra eventos que fogem do controle do negócio, como inadimplência causada por crises políticas ou até um tarifaço que pode alterar globalmente a dinâmica de um setor inteiro”, afirma.
Além da proteção financeira, o executivo ressalta o papel estratégico do produto. “O seguro contribui para uma gestão de risco mais disciplinada, incentiva a diversificação de mercados, a revisão de contratos e o melhor conhecimento dos parceiros comerciais”, diz. Em muitos casos, acrescenta, ainda facilita o acesso a crédito, já que recebíveis segurados tendem a ser vistos com menor risco por bancos e investidores.
Para Lhano, momentos de instabilidade reforçam a importância do planejamento. “Historicamente, quem consegue navegar esse cenário com prudência encontra oportunidades de manter operações ativas e até ganhar vantagem competitiva quando o ambiente começa a se normalizar”, conclui.

