A receita do seguro rural deve continuar em trajetória de enfraquecimento em 2026. Após quatro anos de estagnação e desempenho abaixo do restante do mercado de seguros, o segmento pode registrar queda de quase 4% na arrecadação, segundo projeção da CNseg, alcançando cerca de R$ 12 bilhões. Especialistas apontam que o principal entrave segue sendo a limitação dos recursos destinados ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), mecanismo considerado essencial para ampliar o acesso dos produtores às apólices.
Enquanto o agronegócio brasileiro convive com o aumento da frequência de eventos climáticos extremos, o cenário reforça preocupações sobre a proteção financeira no campo e levanta questionamentos sobre a sustentabilidade do modelo atual de crescimento do seguro rural.
Para o consultor da Rating de Seguros Consultoria, professor Francisco Galiza, a relação entre a redução de recursos do programa e o desempenho do setor é direta. Segundo ele, a limitação orçamentária se tornou o principal fator para a desaceleração do segmento nos últimos anos.
“O principal motivo de o seguro rural não estar se desenvolvendo nos últimos três ou quatro anos é justamente a redução dos recursos”, afirma. Galiza destaca que o segmento atravessa uma realidade distinta da observada em outras linhas de seguros. “Houve uma estagnação, houve queda e a projeção para 2026 também é de retração, destoando completamente da tendência do mercado de seguros”, contextualiza.
O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural é uma política pública criada para reduzir parte do custo das apólices aos produtores, ampliando a contratação do seguro agrícola. Sem o apoio governamental, a proteção pode se tornar mais onerosa para parte significativa do setor produtivo, principalmente em um cenário marcado por volatilidade climática.
Essa vulnerabilidade se torna ainda mais evidente diante dos riscos crescentes enfrentados pelo campo. A sucessão de eventos extremos dos últimos anos trouxe impactos relevantes para a produção agrícola brasileira e reforçou a importância de mecanismos de proteção financeira.
Ao comentar os principais riscos associados a um mercado de seguro rural fragilizado, Galiza relembra que a imprevisibilidade climática continua sendo uma ameaça constante. “O risco é justamente uma seca, uma inundação ou qualquer evento que provoque perdas aos agricultores”, explica.
Ele cita exemplos recentes que ilustram esse cenário de incertezas. “Em 2024 tivemos a catástrofe no Rio Grande do Sul. Em 2025, felizmente, não ocorreu algo semelhante, mas sempre pode surgir uma nova situação. Nunca se sabe o que pode acontecer”, observa.
Apesar dos desafios, a discussão sobre caminhos para reduzir a dependência do setor em relação aos incentivos públicos segue em pauta. No entanto, para Galiza, soluções imediatas ainda parecem distantes.
“No curto prazo, eu não vejo alternativas. É um seguro muito dependente do programa de subvenção”, afirma. Ainda assim, ele acredita que estratégias estruturais podem contribuir para fortalecer o mercado nos próximos anos.
Entre as possibilidades, o especialista destaca ações voltadas à disseminação da cultura do seguro no meio rural. “No médio e longo prazo, o mercado pode trabalhar a importância do seguro junto às áreas rurais, promovendo seminários e conscientização”, ressalta.
Embora os efeitos dessas iniciativas não sejam imediatos, o fortalecimento da percepção sobre gestão de riscos no campo pode representar um passo importante para ampliar a proteção dos produtores e construir um crescimento mais sustentável para o seguro rural nos próximos anos.

